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Queda de tráfego no Google e no LinkedIn: por que o problema não é o fim do jogo, mas uma mudança de regras

Por: Eduardo Carrega
19/08/2026
21:45h
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Queda de tráfego no Google e no LinkedIn: por que o problema não é o fim do jogo, mas uma mudança de regras

Uma onda de indignação tomou o LinkedIn nas últimas semanas. Publicações reclamando do algoritmo, relatos de queda brusca de descoberta no Substack e textos anunciando que “as máquinas finalmente venceram” se multiplicaram nos feeds. Segundo o executivo Tony Uphoff, em artigo publicado em seu Substack, esses números são reais, mas estão sendo interpretados de forma equivocada. Uphoff, que trabalhou na Ziff-Davis entre 1988 e 1993, lembra que praticamente toda mudança de plataforma na história da mídia especializada já foi recebida por alguém do setor como o fim dos negócios.

Os dados que embasam a preocupação atual são concretos. Uma análise da Define Media Group, feita a partir do Google Search Console em 64 sites, apontou queda de cerca de 42% nos cliques orgânicos desde que os AI Overviews do Google passaram a aparecer de forma generalizada nos resultados de busca. O número é compatível com um levantamento anterior do Pew Research Center, que mostrou que apenas 8% dos usuários clicam em um resultado orgânico quando um AI Overview está presente na busca, contra 15% quando esse recurso não aparece.

No LinkedIn, o alcance orgânico caiu aproximadamente 47% no comparativo anual desde que a plataforma reformulou seu sistema de ranqueamento de feed com o 360Brew, um modelo de 150 bilhões de parâmetros que passou a avaliar a expertise do conteúdo e o tempo de leitura, em vez de simplesmente contar curtidas e comentários. Um levantamento da Pangram Labs, que analisou mais de um milhão de postagens, identificou que 41% do conteúdo longo publicado na rede é hoje totalmente escrito por inteligência artificial — a maior proporção entre as plataformas avaliadas. Não por acaso, em 30 de julho o LinkedIn introduziu um botão de denúncia específico para conteúdo que “parece lixo gerado por IA”.

Há também um recorte sobre o mercado de trabalho. A pesquisa Global Talent Trends 2026, da consultoria Mercer, mostrou que 40% dos trabalhadores em todo o mundo temem perder o emprego para a inteligência artificial, salto em relação aos 28% registrados dois anos antes. Já o instituto Challenger, Gray & Christmas contabilizou mais de 101 mil cortes de vagas atribuídos à IA no primeiro semestre de 2026 — praticamente o dobro do ritmo observado em todo o ano de 2025.

Ao alinhar as datas, Uphoff reconhece que a coincidência impressiona: o Substack reformulou a descoberta de conteúdo na aba Notes no final do ano passado, os AI Overviews do Google saltaram de uma fração pequena das buscas para cerca de metade delas nesta primavera, e o LinkedIn lançou o 360Brew no mesmo trimestre. Três empresas sem relação direta entre si tomaram decisões parecidas em uma janela de seis meses — o que explica por que tanta gente sente que não é coincidência.

Disrupção estrutural não é sinônimo de declínio

O argumento central de Uphoff não é sobre nenhuma plataforma específica, mas sobre uma distinção que, segundo ele, o setor insiste em ignorar: declínio significa que a atividade não tem mais versão que valha a pena salvar; disrupção estrutural significa que a função continua relevante, mas a forma como ela é exercida está mudando. Ele já viveu esse cenário antes, na ThomasNet, quando os catálogos impressos migraram para o digital, e na UBM TechWeb, quando a crise financeira de 2008 coincidiu com o colapso do modelo impresso para digital. Nos dois casos, a reação mais ruidosa dentro das empresas não foi estratégica — foi raiva direcionada ao canal que desaparecia, e não à aposta que o negócio havia feito em depender demais dele.

A frase que resume a tese de Uphoff é direta: “as máquinas não estão tirando de você nada que você já não tivesse concordado em alugar”. Nas conferências Search Engine Strategies dos anos 2000, muita gente estava convencida de que a próxima atualização do algoritmo do Google acabaria com seu modelo de negócio. Algumas empresas realmente morreram. As que sobreviveram pararam de discutir com o algoritmo e passaram a perguntar qual função realmente cumpriam para o leitor ou o comprador, reconstruindo o negócio em torno dessa função — não do canal.

Ainda assim, vale um ajuste de precisão nos números citados por Uphoff. O dado de queda de 85% no tráfego do Business Insider, mencionado em seu texto, vinha de um gráfico do Wall Street Journal que o próprio jornal corrigiu em 22 de julho, três semanas antes da publicação do artigo. Os números corrigidos, considerando os últimos 12 meses, apontam queda de 43% no Business Insider, 28% no USA Today e 44% no Washington Post. O gráfico original já havia circulado amplamente no meio de SEO antes da correção chegar até ele, o que reforça a necessidade de cautela ao repetir estatísticas do setor sem checar sua validade mais recente.

Diante desse cenário, a recomendação prática para profissionais de SEO é separar métricas de canal das métricas de função: acompanhar cliques orgânicos e alcance no LinkedIn é válido, mas o painel de controle real deveria medir se sistemas de IA citam o conteúdo produzido, se assinantes de e-mail convertem e se o tráfego direto para páginas próprias está crescendo. Também é essencial auditar o que realmente pertence à empresa — listas de e-mail, dados primários e relacionamento direto com clientes não são afetados por atualizações de algoritmo. Por fim, o conteúdo deve ser avaliado pela capacidade de gerar citação, salvamento ou resposta, já que tanto o LinkedIn quanto o Google recompensam hoje sinais diferentes dos que valiam antes.

A conclusão prática é simples: todas as plataformas citadas mudaram o que recompensam este ano, mas nenhuma parou de recompensar valor. Quem passar o restante de 2026 demonstrando que ainda entrega esse valor, independentemente do canal, deve sair na frente de quem continuar discutindo com o algoritmo nos comentários.

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