A Armor Capital decidiu não fazer apostas diretas sobre o rumo da economia brasileira antes do primeiro turno das eleições presidenciais e concentrou boa parte das posições em ativos ligados aos investimentos em IA no mercado americano. A estratégia foi detalhada por Alfredo Menezes, presidente e CIO da gestora, que avalia um cenário de indefinição política no Brasil e uma disputa acirrada por recursos no exterior envolvendo empresas de tecnologia.
Segundo Menezes, a eleição brasileira segue muito dividida, o que torna arriscado montar posições de longo prazo no país neste momento. “Vamos esperar até o primeiro turno, aí poderemos definir algumas aplicações de maior prazo aqui”, afirma. Até lá, a gestora trabalha com day trade ou posições long-short, que combinam compra de uma ação e venda de outra para reduzir o risco direcional.
O que o gestor espera de um eventual novo mandato de Lula?
Menezes traça um cenário desafiador para os mercados caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja reeleito. Para ele, seria o último mandato do partido no poder, já que Lula não teria um sucessor definido, mas isso não significa, na visão do gestor, que haverá ajuste fiscal. “Não acredito que ele, no quarto mandato, vai fazer algum ajuste fiscal”, diz.

Apesar disso, Menezes descarta um cenário de forte desvalorização cambial. “Não acredito em um cenário de dólar a R$ 6”, afirma. Ele pondera, no entanto, que o país pode voltar a enfrentar um clima de dominância fiscal semelhante ao observado em 2024, quando o dólar subiu com força e os juros avançaram em meio à frustração do mercado com o pacote de corte de gastos anunciado ao lado da proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
Na avaliação do gestor, o quadro fiscal deve se deteriorar e a inflação pode subir, não necessariamente no próximo ano, mas possivelmente em 2028 ou 2029. “Quando estiver pegando fogo mesmo, o governo fará a lição de casa, como já ocorreu várias vezes nos últimos 40 anos”, afirma. Ele lembra que o país já enfrentou previsões de colapso no passado sem que elas se confirmassem. Para Menezes, o ajuste nas contas públicas terá de vir pelo lado dos gastos, já que a carga tributária brasileira já é considerada alta, o que limita o espaço para novos aumentos de impostos.
Como a corrida por investimentos em IA influencia os juros globais?
No exterior, Menezes acompanha de perto a disputa por recursos entre o governo americano e as grandes empresas de tecnologia, que buscam financiamento para expandir os investimentos em IA. Segundo ele, essa competição pressiona juros e crédito nos Estados Unidos e em outros países, incluindo o Japão, que historicamente mantinha taxas bastante baixas.
A principal dúvida da gestora é por quanto tempo essa pressão sobre os juros vai durar, já que ela pode provocar uma desaceleração da economia mundial. Por isso, a Armor priorizou setores que ofereçam proteção nesse cenário e está vendida em Treasuries, títulos do Tesouro americano, apostando que a curva de juros nos Estados Unidos ainda vai subir.
A gestora também está vendida em petróleo. A avaliação é que a demanda cresce em ritmo bem inferior ao da produção, com a substituição de combustíveis fósseis por energia limpa, enquanto países como Brasil e Venezuela ampliam a oferta. “Assim que a guerra no Irã terminar, os preços devem cair rápido, e veremos o barril do petróleo a US$ 60 no ano que vem”, projeta Menezes. Em paralelo, a Armor está comprada em prata, metal cada vez mais usado nas indústrias de semicondutores e de energia solar.
Por que a gestora prefere bancos a empresas de tecnologia nos EUA?
Na Bolsa americana, a Armor considera que as ações das chamadas Sete Magníficas já subiram muito em razão do avanço da IA. Por isso, a aposta agora recai sobre as empresas que utilizam essa tecnologia, especialmente do setor financeiro. “Haverá forte ganho de eficiência em serviços não braçais, sejam bancos, seguradoras, empresas de serviços jurídicos ou contabilidade”, destaca Menezes.
Com base nessa leitura, a gestora está comprada em bancos americanos, principalmente os de varejo, que devem registrar ganho marginal maior com tecnologia do que os bancos de investimento. Menezes também espera que moedas emergentes e o euro sofram com a alta dos juros americanos, movimento que tende a fortalecer o dólar.
A maior posição da Armor em câmbio é a venda do peso mexicano, uma aposta na desvalorização da moeda. “O peso mexicano tem uma taxa de juros menor, o que facilita o carregamento da posição, e o país depende muito da economia americana”, explica o gestor. A segunda maior aposta cambial é a venda do euro.
Qual a avaliação sobre o real neste momento?
Para Menezes, o real está hoje entre as moedas emergentes mais resilientes, principalmente por causa dos preços do petróleo. Ele faz uma ressalva: “se o conflito no Irã acabar e o petróleo cair, o real sofrerá”.
No Brasil, as poucas posições da gestora envolvem arbitragem entre bancos: compra de ações de instituições que devem se beneficiar do uso de IA e venda das que devem registrar menor ganho de produtividade. “Estamos também tomando bastante cuidado com crédito nos bancos de varejo, evitando os que trabalham com as classes C e D, que devem sofrer mais com inadimplência”, relata Menezes.
Até a definição do cenário eleitoral brasileiro, a Armor deve manter o foco no giro diário em outros mercados. “Depois vamos decidir o que fazer”, conclui o gestor.
Com informações de infomoney.com.br.