A inteligência artificial avança em diversos setores da economia brasileira, mas ainda encontra resistência entre produtores rurais. Especialistas reunidos no Global Agribusiness Festival (GAFFFF), na quinta-feira (1), apontaram que a falta de confiança no compartilhamento de dados é um dos principais obstáculos para que a tecnologia chegue de fato às plantações do país.
O debate expõe um paradoxo do agronegócio brasileiro: um setor reconhecido pela inovação em maquinário, logística e engenharia, mas que ainda patina quando o assunto é digitalização de dados agrícolas. Para quem depende da terra para produzir, entender esse descompasso importa, porque a adoção de IA promete ganhos de produtividade que podem afetar preços, renda e competitividade de toda a cadeia.
Por que a IA ainda não chegou ao campo?
Rob Weston, fundador da empresa inglesa de inteligência HSAT, afirmou que seus clientes brasileiros relatam uma lacuna de digitalização, mesmo com tecnologia avançada em engenharia e logística do agronegócio. Segundo ele, essa distância entre inovação técnica e uso de dados limita o potencial produtivo do país.

A HSAT trabalha com soluções que cruzam informações de satélites, drones, avaliações humanas, relatórios e dados econômicos de plantações. O objetivo é prever resultados de forma mais precisa, algo que antes dependia de um volume grande de trabalho manual.
Weston destacou o potencial do Brasil como grande produtor agrícola global. Ele citou, como exemplo hipotético de ganho, a possibilidade de o país aumentar em 5% sua produção de açúcar com o uso de inteligência artificial, comparando esse percentual a valores observados na Europa.
Quem deveria liderar essa mudança?
André Nassar, presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), avalia que o produtor brasileiro já é inovador em diversas frentes, como na capacidade de realizar duas ou três safras por ano. No entanto, segundo ele, quando o assunto é inteligência artificial, cabe à indústria que compra o produto puxar essa transformação.
Nassar explica que é a indústria processadora quem tem contato direto com o mercado e, por isso, mais interesse em usar tecnologia para reduzir custos. Ele também apontou a desconfiança dos produtores em compartilhar dados como um entrave recorrente.
“Na cadeia da soja essa relação é completamente separada”, afirmou André Nassar, sobre a falta de integração entre produtores e indústria.
Segundo o presidente da ABIOVE, essa separação também aparece na cadeia energética, onde a rastreabilidade de dados é essencial para manter padrões de sustentabilidade.
Como convencer o produtor a usar dados?
Para Silvia Massruhá, presidente da Embrapa, o desafio central é mostrar ao produtor como o uso de dados pode gerar mais valor para o próprio negócio. Ela defende que o produtor pode ser incentivado a adotar práticas sustentáveis caso enxergue retorno financeiro no futuro.
Massruhá afirma que essa mudança precisa envolver todas as partes da cadeia produtiva, de forma conjunta, e não apenas o produtor isoladamente.
A própria Embrapa já utiliza dados de diferentes cadeias produtivas combinados a biotecnologia e edição genética para avançar em agricultura preditiva. Segundo a presidente da instituição, dados climáticos também são usados para projetar cenários futuros, incluindo eventos extremos como o El Niño.
“A questão é como usar esses dados para planejar melhor e o produtor ter menos prejuízo”, completou Massruhá, ao falar sobre o uso de informações climáticas para antecipar riscos à produção.
O que isso significa para o futuro do agronegócio
O debate no GAFFFF reforça que a adoção de inteligência artificial no campo brasileiro depende menos de tecnologia disponível e mais de confiança entre os elos da cadeia produtiva. Enquanto produtores hesitam em compartilhar dados, indústria e instituições de pesquisa buscam formas de demonstrar que a digitalização pode significar mais eficiência e menos prejuízo.
A tendência apontada pelos especialistas é que a integração entre produtores, indústria e centros de pesquisa como a Embrapa seja o caminho para reduzir essa desconfiança e destravar o uso de inteligência artificial em maior escala no agronegócio brasileiro.
Com informações de infomoney.com.br.