A dívida de empresas de IA está crescendo em um ritmo que pega até veteranos de Wall Street de surpresa. As gigantes da inteligência artificial estão tomando empréstimos na casa das centenas de bilhões de dólares, e essa avalanche de captações já começa a pressionar as taxas de juros e a deixar investidores com os nervos à flor da pele.
Para se ter ideia do tamanho do salto: em 2024 esse movimento era praticamente inexistente, mas nos primeiros nove meses deste ano o setor de tecnologia já emitiu cerca de US$ 500 bilhões (R$ 2,49 trilhão) em dívida. O dinheiro serve para bancar chips, servidores e os enormes data centers que sustentam toda a engrenagem da inteligência artificial.

Por que a dívida de empresas de IA está crescendo tão rápido
Mesmo os rios de caixa gerados por gigantes como Google, Meta, Amazon e Microsoft já não dão conta do recado. Por isso, essas companhias estão recorrendo cada vez mais ao mercado de capitais para financiar a expansão. E a tendência, segundo projeções do Goldman Sachs, é de que esse apetite por dívida continue crescendo: a expectativa é de um novo salto na emissão em 2027, chegando a US$ 1,2 trilhão (R$ 5,98 quatrilhão).
“Em termos de crescimento, é algo que nunca vimos”, resume Chris Della Fave, da consultoria de captação de recursos Post Oak. Segundo ele, a fatia da IA no total de emissões de títulos privados já soma 25%, ante apenas 4% há dois anos — um salto e tanto em pouco tempo.
Para dimensionar o fenômeno, vale a comparação histórica: neste ano, o ecossistema de IA deve ter tomado mais empréstimos do que as operadoras de cabo dos Estados Unidos durante o boom da internet, e até mais do que as companhias ferroviárias no auge da expansão das ferrovias no país — considerando valores já ajustados pela inflação.
Juros mais altos para quem empresta
Até agora, o mercado de títulos vem absorvendo essa enxurrada de emissões sem grandes sustos. No entanto, isso tem um preço: os emissores precisaram oferecer retornos mais gordos para atrair investidores. Mesmo um nome do peso de Meta teve que pagar mais de 7% ao ano em juros, enquanto alguns especialistas em data centers passaram dos 9%.
“Estão sendo emitidos mais títulos. Os investidores têm que absorver mais, o que significa que quem se endivida precisa oferecer retornos mais altos”, explica Chris Della Fave.
E o efeito não fica restrito ao setor de tecnologia — ele se espalha por todo o mercado financeiro. Mark Malek, responsável por investimentos na Siebert Financial, explica que, nesse cenário, “alguém que teria comprado um título do Tesouro pode decidir comprar (dívida da) Microsoft”. Ou seja, o apetite por dívida privada de IA acaba disputando espaço com a dívida pública americana. “Isso coloca as taxas (de endividamento do governo dos Estados Unidos) sob pressão”, enfatiza Malek.
Esse movimento se soma a outro fator que já vinha empurrando as taxas soberanas americanas para cima: a inflação, turbinada pela guerra contra o Irã e pelos preços elevados da energia. Assim, a taxa dos títulos do Tesouro americano de 10 anos — a principal referência em Wall Street — está atualmente em torno de 5,3%, o nível mais alto desde 2002.
“Risco de correção” no radar dos analistas
Outro ingrediente que ajuda a explicar essa dinâmica é o comportamento dos fundos especulativos, que acumularam títulos do Tesouro como nunca antes até recentemente (7% do total em circulação no fim de 2025). Esse tipo de fundo consegue redirecionar investimentos muito mais rápido do que seguradoras ou fundos de pensão, o que amplifica o efeito de arbitragem entre dívida pública e dívida privada.
“Mesmo que a guerra terminasse e os preços do petróleo se moderassem, não acho que os rendimentos cairiam de forma espetacular, devido à influência da dívida da IA”, avalia Della Fave.
Diante desse cenário, especialistas já se perguntam sobre os riscos embutidos nesses títulos ligados à IA. Uma desaceleração — ainda que moderada — no ritmo acelerado de construção de infraestrutura, atrasos em obras específicas ou um crescimento de receitas abaixo do esperado poderiam disparar o que Mark Malek chama de “ajuste maciço” nas avaliações dos mercados financeiros, tanto de dívida quanto de ações.
Não é à toa que, no fim de setembro, o Banco da Inglaterra sinalizou um “risco de correção mais acentuado” do que havia indicado em julho — mês em que o Nasdaq, índice que serve de termômetro para o setor de tecnologia, recuou cerca de 7%.
Oracle vira termômetro do setor
Nesse contexto, a especialista em computação em nuvem Oracle passou a ser enxergada como um indicador antecedente para todo o mercado. A empresa acumula uma dívida massiva de R$ 623 bilhões, vê seu caixa se corroer a cada trimestre e ainda enfrenta um possível atraso no cronograma de um gigantesco projeto de centro de dados no Novo México — uma combinação de sinais que preocupa analistas em relação ao grupo comandado por Larry Ellison.


“Se a Oracle tiver um problema, se não conseguir pagar” um vencimento de dívida, alerta Mark Malek, “isso poderá provocar um efeito de contágio” para todo o universo da dívida de empresas de IA. Em resumo, o boom bilionário que sustenta a corrida tecnológica também carrega um lado sensível: qualquer tropeço mais sério em um dos grandes nomes pode reverberar bem além do setor, atingindo diretamente o bolso de investidores e o custo do crédito em toda a economia americana.

Com informações de redir.folha.com.br.