Quem acompanha o crescimento chinês já deve ter esbarrado numa frase repetida à exaustão: “a China produz hoje mais tambaqui que o Brasil”. A ideia pegou tanto que virou até enredo de marchinha de carnaval — a Banda da Bica, uma das maiores de Manaus, brincou com o tema em 2026 no samba “o tambaqui agora fala mandarim”. Só que a realidade da piscicultura chinesa é um pouco mais complexa — e curiosa — do que a frase deixa parecer.

A China e o domínio da piscicultura mundial
Não é só o tambaqui que, supostamente, “fala mandarim”. Salmão, bagre, truta e outras espécies que nem são nativas do país asiático também entraram nessa conta. Isso porque a China se transformou na maior potência global em piscicultura, concentrando algo próximo de 56% de toda a produção mundial do setor. Ou seja, o fenômeno vai muito além de uma única espécie — é um movimento estrutural que coloca o país muito à frente do resto do mundo.
O exemplo mais surpreendente dessa expansão vem de Xinjiang, região próxima à Ásia Central que abriga o ponto mais distante do mar em todo o planeta. Lá, quatro cadeias de montanhas bloqueiam a entrada de umidade, e a chuva anual soma apenas 150mm — um volume que, em algumas cidades brasileiras, já caiu em um único dia neste ano.
Apesar do cenário hostil, Xinjiang produz cerca de 200 mil toneladas de pescado por ano, incluindo salmão e lagosta, com mais de mil fazendas de piscicultura em atividade. Em algumas localidades, o faturamento agregado dessas operações chega a US$ 100 milhões.

O “milagre azul” e a produção de peixes no deserto
A pergunta que fica é: como produzir peixes em pleno deserto? A resposta tem a ver com o passado petrolífero da região. Xinjiang foi alvo de diversos experimentos em busca de petróleo e, nesse processo, acabou revelando algo inesperado: água salobra no subsolo. Com procedimentos de correção química, essa água ficou parecida o suficiente com a água do mar, abrindo caminho para o cultivo de várias espécies em tanques.
O resultado desse processo ganhou um apelido e tanto: “o milagre azul”, hoje tratado como um dos grandes cartões de visita do desenvolvimento chinês. Um exemplo marcante é a cidade de Turfã, detentora do recorde de calor do país (52,2°C), que consegue criar salmão usando água de degelo e sistemas de recirculação para controlar a temperatura.
No entanto, há um detalhe importante por trás desse sucesso: a China depende de insumos importados para alimentar sua piscicultura gigantesca, e boa parte da ração usada vem da soja brasileira. Além disso, os avanços também passam por melhoramentos genéticos e de manejo — o país já conseguiu alimentar peixes com ração 100% de origem vegetal e até desenvolveu uma variedade de carpa sem espinhas.

E o Brasil, afinal, como fica nessa comparação?
Com tanta água, espécie nativa e insumo disponível, seria de se esperar que o Brasil estivesse em posição semelhante. Mas, infelizmente, o país tem acumulado insucessos, principalmente na região amazônica, com vários projetos promissores que acabaram falindo. A piscicultura brasileira, forte no Paraná, por exemplo, segue dependente da tilápia — espécie africana que carrega riscos ambientais e que, guardadas as proporções, funciona como uma espécie de “tambaqui chinês” às avessas.
E voltando à pergunta que dá título a esse debate: qual é, afinal, a real situação do tambaqui na China? A verdade é que o país nem produz a espécie em escala — tanto que o tambaqui sequer aparece na lista da FAO sobre piscicultura chinesa. Quem realmente se destaca por lá é a pirapitinga, uma “prima” do tambaqui. Segundo esses mesmos dados da FAO, a China produz 59 mil toneladas anuais de pirapitinga, o Vietnã produz 23 mil, e o Brasil fica com apenas 1,8 mil toneladas por ano. Fica a sugestão para a Banda da Bica atualizar o enredo da marchinha em 2027.
Tambaqui entra em lista de espécies vulneráveis
Enquanto isso, o tambaqui brasileiro enfrenta um problema bem mais sério do que disputar espaço com a piscicultura chinesa: ele entrou na lista de espécies vulneráveis no Brasil, com estoques em declínio na natureza. O prazo para a publicação de um plano de recuperação da espécie é 25 de outubro de 2026 — e, sem esse plano, a pesca pode acabar proibida. Vale lembrar que o tambaqui criado em cativeiro não é afetado por essa restrição. Entre o deserto chinês e os rios brasileiros, fica claro que a vida de peixe, nos dois lados do mundo, está longe de ser simples.
Com informações de redir.folha.com.br.