A tradicional Faculdade de Direito da USP, prestes a completar duzentos anos de história, resolveu encarar de frente um dilema que já bate à porta de todas as universidades: como ensinar direito num mundo em que a inteligência artificial está em toda parte. Para isso, criou uma comissão dedicada exclusivamente a repensar a formação jurídica diante do avanço da IA — e o movimento, segundo especialistas, deveria se espalhar por qualquer instituição de ensino, já que a tecnologia promete transformar completamente a maneira como se aprende.

O colunista Ronaldo Lemos, advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, teve a honra de abrir a série de seminários organizada pela comissão sobre o tema e compartilhou, em texto publicado na Folha, alguns dos pontos centrais dessa discussão. Logo de início, ele aponta um paradoxo que resume bem o momento vivido pelos estudantes.
O paradoxo do ensino jurídico na era da IA
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em abril deste ano, com estudantes de direito, revelou que 72% deles consideram o letramento em IA uma competência essencial para a profissão. Por outro lado, 74% temem que depender demais da ferramenta acabe prejudicando a própria formação. Ou seja: ao mesmo tempo em que reconhecem a importância da tecnologia, os próprios alunos têm medo de “emburrecer” por causa dela — e, segundo Lemos, esse receio não é bobagem.
Um estudo do MIT (Massachusetts Institute of Technology) mostrou que pessoas que escrevem com auxílio de IA apresentam atividade cerebral 54% menor durante a tarefa. O resultado prático? No dia seguinte, essas pessoas não conseguem sequer citar uma frase do texto que, supostamente, “escreveram”. É o chamado débito cognitivo: usa-se a IA para produzir algo em nome próprio, mas sem realmente dominar o conteúdo gerado.
Esse fenômeno também apareceu em uma pesquisa recente feita na China, que identificou um movimento curioso: as notas dos deveres de casa estão subindo, enquanto as notas das provas estão caindo. Explicação simples — os alunos recorrem à IA para resolver as tarefas em casa, mas, na hora da prova, sem a ferramenta por perto, não sabem como proceder.

Faculdade de Direito da USP criou comissão para pensar o ensino jurídico em face do avanço da IA.
Como universidades estão reagindo ao avanço da inteligência artificial
Diante desse cenário, algumas instituições decidiram agir de forma mais radical. A Escola de Direito da Universidade de Chicago, por exemplo, baniu totalmente o uso de IA nas disciplinas centrais do primeiro ano. E não parou por aí: também proibiu laptops e celulares em sala de aula, retomou as provas presenciais sem acesso à internet e reforçou a participação em classe por meio do método socrático de perguntas e respostas.
A lógica por trás dessa decisão é simples: proteger o aluno da tecnologia logo no início do curso, justamente para garantir que ele desenvolva o raciocínio jurídico por conta própria, sem a tentação de terceirizar tudo para a IA. Na avaliação de Lemos, a medida faz todo sentido — ainda mais no contexto brasileiro, em que os estudantes costumam ingressar na faculdade com apenas 18 anos.
Dessa forma, a universidade pode se tornar o último espaço em que decisões jurídicas são lidas e escritas por inteiro, do começo ao fim, sem qualquer auxílio de IA. É ali que os alunos aprenderiam os fundamentos da profissão sem atalhos, o que, segundo o autor, acaba se transformando em uma vantagem competitiva na formação.
Pensar com, sem e sobre a IA
Para equilibrar proteção e aprendizado, Lemos resume a proposta em três pilares: pensar com, sem e sobre a inteligência artificial. Isso significa que, além dos momentos em que a tecnologia fica de fora da sala de aula, existem outros em que ela não apenas é bem-vinda, mas se torna obrigatória. Soma-se a isso a necessidade de uma formação específica sobre a própria IA, para que o estudante entenda como ela funciona, quais são suas capacidades e, principalmente, seus limites.
Um detalhe curioso: em Chicago, todo aluno passou a ser obrigado a defender oralmente e de forma presencial seus trabalhos, justamente para comprovar que realmente domina o assunto. Já na NYU, a inovação vai além — existem provas orais aplicadas pela própria IA, em que o estudante é arguido por um agente de voz, seguindo critérios de correção definidos pelos professores.
Números mostram que a mudança não tem volta
Os dados reforçam que o movimento é rápido e, aparentemente, irreversível. Atualmente, 55% das escolas de direito americanas já oferecem disciplinas voltadas para IA, 83% utilizam a ferramenta em suas clínicas jurídicas e 85% planejam reformular por completo seus currículos por causa da tecnologia.
- 55% das escolas de direito americanas oferecem disciplinas de IA
- 83% usam a ferramenta em suas clínicas jurídicas
- 85% planejam reformar completamente o currículo
Diante desse ritmo, ficar parado simplesmente não é uma opção viável para as faculdades de direito. Por isso, o desafio que se coloca é duplo: proteger o desenvolvimento intelectual dos futuros advogados e, ao mesmo tempo, garantir que a inteligência artificial se torne parte essencial de sua formação — sem, no entanto, abrir espaço para o tal emburrecimento que tanto preocupa estudantes e educadores.
Com informações de redir.folha.com.br.