A Anthropic decidiu não liberar seu modelo mais recente de inteligência artificial para testes prévios do Instituto de Segurança de IA do Reino Unido (AISI, na sigla em inglês), e essa escolha já está causando dor de cabeça em Londres. A movimentação levantou suspeitas dentro do governo britânico de que gigantes de tecnologia americanas estariam se curvando ao discurso protecionista da administração Donald Trump quando o assunto é inteligência artificial.
O modelo em questão é o Claude Mythos 5.1, lançado pela empresa na semana passada e apontado como o mais avançado já produzido pela companhia em áreas sensíveis como ciências da vida e segurança cibernética. A novidade, no entanto, veio com uma restrição inédita.
Acesso restrito a organizações dos EUA

Diferentemente de lançamentos anteriores, o Mythos 5.1 foi disponibilizado apenas para organizações norte-americanas previamente autorizadas. Na prática, isso deixou de fora o AISI britânico, que se consolidou como uma das referências mundiais quando o assunto é avaliar riscos de modelos de IA de ponta antes que eles cheguem ao público.
Segundo pessoas próximas ao governo do Reino Unido, essa exclusão funcionou como um sinal amarelo tanto para autoridades quanto para o próprio instituto, que agora teme ficar de fora de futuros lançamentos importantes do setor.
O pano de fundo: controles de exportação dos EUA

Nos últimos meses, Washington adotou uma postura cada vez mais dura em relação à indústria de IA, usando controles de exportação como ferramenta para limitar temporariamente o acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados da Anthropic — inclusive funcionários de outras empresas americanas de tecnologia acabaram pegos nessa rede.
É justamente esse contexto que alimenta a teoria, ainda não confirmada, de que a Anthropic teria negado acesso ao AISI a pedido do próprio governo Trump. Vale lembrar que o instituto britânico, criado há três anos, teve acesso antecipado ao Astra, modelo mais recente da OpenAI lançado neste mês — o que reforça a estranheza em torno do tratamento diferente dado pela Anthropic.
O que dizem os envolvidos

Procurada, a Anthropic preferiu não comentar diretamente o caso. Na semana passada, porém, a empresa afirmou publicamente que está trabalhando junto ao governo americano para “ampliar o acesso a um conjunto mais abrangente de parceiros nacionais e internacionais o mais rapidamente possível”.
Já o órgão britânico responsável por coordenar as políticas de IA no país tentou minimizar o desconforto:
“O Instituto de Segurança de IA continua colaborando estreitamente com parceiros do setor, incluindo a Anthropic, para tornar os modelos mais seguros.”
Um capítulo em meio a tensões antigas
Esse episódio não surge do nada. Em junho, o governo Trump já havia imposto controles de exportação sobre dois modelos da Anthropic voltados à segurança cibernética — o Fable e o próprio Mythos — proibindo cidadãos estrangeiros de utilizá-los. Na época, os controles foram justificados pela descoberta de um “jailbreak”, termo usado para descrever brechas que permitem burlar as travas de segurança embutidas nos sistemas de IA.
A descoberta chegou a fazer a Anthropic retirar temporariamente seus modelos mais avançados do mercado global, o que só aumentou o atrito entre o Vale do Silício e a Casa Branca, já bastante crítico da forma como o governo americano vem tentando regular a inteligência artificial de fronteira.
A repercussão internacional também não foi pequena. Governos estrangeiros reagiram mal à proibição, acusando os Estados Unidos de penalizar justamente seus aliados. A Comissão Europeia chegou a se manifestar na ocasião, classificando as preocupações de segurança como um “desafio compartilhado” e defendendo que medidas do tipo “não deveriam discriminar parceiros”. Enquanto isso, cresce a expectativa sobre os próximos passos da Anthropic no cenário geopolítico da inteligência artificial.