A Binance confirmou nesta quinta-feira (29) que um ataque hacker na Binance resultou no desvio de aproximadamente US$ 6,3 bilhões (algo em torno de R$ 33 bilhões), número que coloca o episódio como o maior roubo já registrado no universo das criptomoedas. Para efeito de comparação, o recorde anterior pertencia à Bybit, que teve US$ 1,5 bilhão subtraído em fevereiro do ano passado — ou seja, o novo ataque supera em muito o patamar visto até então.
Logo na quinta-feira à noite, assim que percebeu a movimentação suspeita, a corretora já havia anunciado o congelamento de US$ 2,54 bilhões. Pouco depois, esse valor subiu para US$ 3 bilhões bloqueados.
Como a Binance reagiu ao ataque hacker
Sendo a maior Bolsa de moedas digitais do mundo em volume diário de negociações, a Binance publicou uma sequência de mensagens no X que, em certos momentos, pareceram se contradizer. Por um lado, a empresa garantiu que “os fundos dos usuários estão totalmente seguros”; por outro, afirmou também que “cobrirá todas as perdas” — o que, de certa forma, já sugeria a gravidade do problema.
Mais tarde, em comunicado no perfil em espanhol voltado à América Latina, a companhia detalhou: “o impacto total estimado está em cerca de US$ 6,3 bilhões”. E completou: “Trabalhamos com parceiros de blockchain para congelar os ativos afetados, com cerca de US$ 3 bilhões já congelados on-chain até agora”. Apesar disso, a empresa não explicou o que aconteceu com os US$ 3,3 bilhões restantes e informou que pretende retomar os saques em até 44 horas.
O co-CEO Richard Teng gravou um vídeo publicado em seu perfil no X assumindo o compromisso de bancar o prejuízo com recursos próprios da corretora. Em suas palavras: “Estamos comprometidos em cobrir todas as perdas por hack com nossos recursos da empresa”.
“A Binance reservou mais de US$ 6,34 bilhões em recursos da empresa para cobrir os ativos roubados. US$ 5 bilhões desses recursos já estão mantidos nos ativos exatos de tokens que foram impactados, como USDC, USDT, bitcoin, ethereum, BNB etc”, declarou Richard Teng.
Segundo o executivo, os fundos dos clientes não foram diretamente atingidos, já que o ataque mirou uma carteira quente da própria corretora. Isso acontece porque a maior parte dos recursos dos usuários fica guardada em carteiras frias, desconectadas da internet, sendo movida para carteiras quentes apenas quando há pedidos de saque. Além disso, a Binance mantém um fundo próprio de US$ 1 bilhão em bitcoin reservado justamente para proteger os clientes em situações de falha de segurança — reserva que, segundo Teng, também ajudará a cobrir o rombo.
Mercado sente o impacto do ataque hacker na Binance
Com a notícia, os preços das criptomoedas despencaram. Ainda assim, cerca de metade dos valores roubados foi rapidamente congelada por emissoras de stablecoins, como Tether, Circle e a World Liberty Financial — esta última ligada aos filhos de Donald Trump.
O bitcoin chegou à mínima em seis semanas, cotado a US$ 76.368, enquanto o ether caiu mais de 3%, atingindo US$ 2.178, menor valor em dois meses, antes de os mercados encontrarem certa estabilidade. Já o BNB, token originalmente lançado como Binance Coin e usado para pagar taxas na própria corretora, recuava 5% em 24 horas, cotado a US$ 709,70, de acordo com a CoinGecko.
A desconfiança gerada pelo episódio também pesou sobre empresas do setor listadas em bolsa. As ações da Coinbase Global, que garantiu não ter sido afetada pelo incidente, caíram 4,8%, enquanto os papéis da Strategy, compradora de bitcoins, recuaram quase 6% nas negociações estendidas nos Estados Unidos. “É o maior ataque hacker da história”, resumiu Aravind Srinivasan, da formadora de mercado GSR.
O que se sabe sobre a origem do ataque
De acordo com a Binance, uma investigação inicial apontou que tudo começou com a invasão do laptop de um “engenheiro de DevOps”, o que deu ao invasor acesso a um “contêiner de serviço” e, a partir daí, permitiu a execução de saques não autorizados. “Nossa equipe de segurança está rastreando todo o percurso do ataque por meio do computador comprometido, que pode ter sido o ponto de entrada do incidente”, afirmou a empresa, que posteriormente disse ter identificado outros pontos de invasão. A corretora também reforçou que “não encontramos evidências de qualquer vazamento de chaves privadas de carteiras”.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o FBI foram procurados pela agência de notícias AFP, mas não responderam aos pedidos de comentário até a publicação desta matéria.
Coreia do Norte é apontada como suspeita
As empresas norte-americanas de pesquisa em blockchain TRM Labs e Chainalysis identificaram semelhanças entre esse ataque e roubos anteriores atribuídos ao TraderTraitor, grupo de hackers vinculado à Coreia do Norte. A TRM afirmou ter “alta confiança” sobre a autoria, citando “informações robustas dentro e fora da blockchain”, e destacou que a maior parte do roubo ocorreu em cerca de 20 minutos na própria quinta-feira. Segundo a empresa, os invasores conseguiram ordenar que carteiras da Binance transferissem recursos para endereços controlados pelos próprios hackers — um padrão parecido com o do roubo sofrido pela Bybit em 2025, caso que o FBI atribuiu à Coreia do Norte.
Analistas acreditam que o TraderTraitor integre o Grupo Lazarus, que ficou conhecido em 2014 ao ser acusado de hackear a Sony Pictures em retaliação ao filme “A Entrevista”, que satirizava o líder norte-coreano Kim Jong-un. Apesar das suspeitas, a Binance foi cautelosa: “Nossa investigação não atribuiu a responsabilidade a nenhum indivíduo”, disse Teng no X.
Vale lembrar que, há anos, autoridades dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, além de especialistas em segurança cibernética, apontam que a Coreia do Norte mantém unidades cibernéticas estatais voltadas à espionagem e ao roubo financeiro. O país, por sua vez, nega sistematicamente esse tipo de acusação, e tanto sua missão em Genebra quanto sua embaixada na China não responderam de imediato aos pedidos de comentário da Reuters.
Com informações de redir.folha.com.br.