O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, enfrenta um obstáculo inesperado na tentativa de conter a inflação. O boom da inteligência artificial, um dos principais motores do crescimento econômico americano, segue praticamente imune aos juros mais altos impostos pela autoridade monetária nos últimos meses.

As empresas que investem em expansão de capacidade de IA não recuaram nem diante do custo de financiamento, que recentemente atingiu os níveis mais altos em décadas, nem com a disparada dos preços da eletricidade e de insumos como as memórias de alta largura de banda (HBM). O resultado é um quebra-cabeça para quem define a política monetária do país.
Por que o boom da IA preocupa o Fed?
Se as pressões inflacionárias não recuarem nos próximos meses, como esperam muitos dirigentes do banco central, o Fed pode precisar apertar a economia além do necessário em condições normais. Isso porque setores como habitação e indústria automotiva, mais sensíveis a juros, acabariam pagando a conta por um segmento, o de IA, que simplesmente não desacelera com o aperto monetário.
Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa do Barclays, explicou o mecanismo que normalmente funciona na economia americana. “O problema para o Fed é que normalmente existe um mecanismo automático de correção na economia americana: os juros sobem e, em algum momento, os setores mais sensíveis às taxas, liderados pelo mercado imobiliário, desaceleram fortemente, transmitindo esse efeito ao restante da economia”, afirmou. Ele completou: “Mas, se uma parte grande da economia é simplesmente menos sensível aos juros e é justamente ela que está impulsionando o crescimento, então o Fed, infelizmente, precisa atingir mais fortemente os setores que são sensíveis aos juros.”

Qual o tamanho desse investimento em IA?
A escala da expansão da infraestrutura de inteligência artificial costuma ser comparada a gastos governamentais com defesa ou saúde pública, não a investimentos privados comuns. O economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Universidade Columbia, estimou que os gastos com chips de IA, data centers e sistemas elétricos para alimentá-los devem superar US$ 10 trilhões entre 2025 e 2032. O valor representa mais de 3,6% do produto econômico anual dos Estados Unidos.

Uma parcela crescente desse investimento é financiada com dívida, o que, em teoria, deveria deixá-lo mais sensível ao custo do crédito. Até agora, porém, há poucos sinais de que o financiamento mais caro esteja freando o movimento.
Andrew Sheets, chefe global de pesquisa em renda fixa do Morgan Stanley, resumiu o raciocínio das empresas do setor. “Se for realmente uma tecnologia transformadora que pode definir o setor de tecnologia pelos próximos anos; se você tem capacidade de captar recursos para investir; e se acredita que esses investimentos gerarão retornos de dois dígitos, não faz tanta diferença se você está tomando dinheiro a 5,5% ou 6%”, disse. Segundo ele, “esses 50 pontos-base não são o fator que determina se a conta fecha ou não”.
Os números por trás da corrida por data centers
No segundo trimestre deste ano, as empresas investiram mais de US$ 100 bilhões em computadores e equipamentos relacionados, alta de 60% frente ao mesmo período do ano anterior. O ritmo é mais de uma vez e meia maior do que o registrado no início de 2024. Já a construção de data centers, sem contar os chips instalados neles, mais que quintuplicou desde o começo de 2022.
Parte desse salto reflete a própria alta dos preços de chips e equipamentos. Ainda assim, mesmo descontada a inflação, os investimentos continuam crescendo em ritmo acelerado, sem sinal de desaceleração.
Van Nieuwerburgh atribui essa resistência a gargalos como atrasos regulatórios, que dificultam erguer data centers no ritmo exigido pela demanda. “Hoje estamos passando por uma corrida de construção em que o principal problema é não conseguir erguer data centers rápido o suficiente”, afirmou. Segundo ele, uma vez que um projeto obtém as aprovações necessárias e garante acesso à energia, “você vai construir o data center praticamente independentemente do custo”. Para o economista, juros mais altos podem reduzir o retorno do investimento, “mas não muito, e ele ainda será fantástico”.
A inflação já aparece nos preços ao consumidor
Os preços dos equipamentos de informática para empresas, incluindo chips, estavam 11,4% mais altos no segundo trimestre deste ano em relação ao ano anterior, segundo o Bureau of Economic Analysis. O efeito já extrapola a indústria de IA: os preços de produtos de informática para consumidores avançaram 8,4% em agosto. A Apple informou neste ano que elevaria os preços de Macs e iPads por causa do forte aumento no custo dos chips de memória.
A corrida por data centers também pressiona os preços de alumínio, cobre e outros materiais, que já sofriam impacto das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump. A demanda por eletricistas e outros profissionais ligados à construção desses centros eleva os custos trabalhistas: os salários médios por hora de eletricistas e contratados do setor subiram 7,1% em agosto na comparação anual.
Por que o setor imobiliário pode sofrer mais?
O Fed dispõe de apenas uma ferramenta ampla para conter a inflação: os juros. Como não é possível elevar taxas só para setores específicos, se a expansão da IA permanecer resistente ao aperto monetário, outras áreas da economia tendem a arcar com a maior parte do ajuste.
O problema é que o mercado imobiliário, historicamente o mais sensível a juros altos, já estava enfraquecido mesmo antes de as taxas hipotecárias atingirem, na semana passada, o maior nível em três anos. Corrigido pela inflação, o setor de construção residencial hoje é menor do que era antes da pandemia, apesar do crescimento da economia americana no período.
Nathan Sheets, ex-funcionário do Tesouro americano e atual economista-chefe global do Citigroup, avaliou que o espaço para novo aperto nesse setor é pequeno. “O volume adicional de aperto que você consegue extrair do mercado imobiliário é limitado”, afirmou. Isso porque milhões de americanos garantiram hipotecas com juros extremamente baixos há cerca de seis anos e dificilmente vendem seus imóveis, o que mantém as vendas de casas em níveis fracos.
A tecnologia pode ajudar no futuro
Muitos economistas acreditam que, no longo prazo, a IA pode elevar a produtividade da economia americana, permitindo crescimento maior sem gerar inflação. O presidente do Fed, Kevin Warsh, está entre os dirigentes que defendem que a tecnologia pode, com o tempo, ajudar a conter as pressões de preços.
Por enquanto, no entanto, o boom da inteligência artificial parece contribuir para a inflação em vez de reduzi-la. O cenário ainda se complica por fatores fora do controle do Fed, como a guerra com o Irã, que também pressiona os preços de energia e de outros produtos.
Ainda assim, já há sinais de que investidores começam a reavaliar projetos mais especulativos, aqueles sem compradores definidos. Caso a oferta de data centers alcance a demanda, ou o interesse pela tecnologia diminua, os custos de financiamento devem voltar a pesar mais nas decisões das empresas do setor.
Com informações de infomoney.com.br.