Um livro escrito por uma ex-funcionária do Google expõe episódios de desorganização interna, funções sem propósito claro e retaliação dentro da empresa. A obra, intitulada “Don’t Be Evil” (em referência ao antigo lema da companhia), é assinada por Claire Stapleton e reconstrói os 12 anos que ela passou na gigante de tecnologia.
Stapleton deixou o Google em 2019, após ajudar a organizar um protesto que reuniu mais de 20 mil trabalhadores. Segundo ela, a saída veio depois de sofrer retaliação por sua participação no movimento.
Como começou a trajetória no Google
A autora entrou na empresa logo após se formar na faculdade, na sede em Mountain View, na Califórnia. Começou na área de comunicações internas, onde passou a redigir comunicados em nome de executivos.

Com frequência, precisava criar textos e reproduzir até o jeito de falar de líderes a partir de conversas rápidas ou comentários soltos. Larry Page, cofundador da empresa e um de seus principais dirigentes na época, está entre os executivos que usaram palavras escritas por Stapleton em discursos e e-mails.
O trabalho deu certo. A “voz do Google” criada por ela passou a ganhar cada vez mais espaço dentro da companhia, o que lhe rendeu uma vaga no Creative Lab, em Nova York, setor que cuidava de campanhas publicitárias e da apresentação de produtos.
O que o livro revela sobre a cultura interna
A mudança para o Creative Lab parecia um passo na carreira, mas teve efeito contrário. Sob um chefe que ela descreve como distante e pouco interessado em integrá-la à equipe, Stapleton ficou meses com poucos projetos e quase nenhuma orientação.

Essa experiência, segundo o livro, se repetiu ao longo de sua passagem pela empresa. Para explicar a própria trajetória, a autora recorre ao conceito de “bullshit job” (emprego de merda, em tradução livre), criado pelo antropólogo americano David Graeber para descrever funções que os próprios trabalhadores consideram inúteis ou difíceis de justificar.
Stapleton relata, por exemplo, ter sido escalada para desenvolver um serviço pago de videochamadas destinado a ensinar tarefas já disponíveis de graça em tutoriais no YouTube, como consertos domésticos ou como dar nó em gravata. Depois, já na própria equipe do YouTube, recebeu a missão de procurar vídeos que o algoritmo pudesse ter deixado passar, apesar de boa parte desse trabalho já ser automatizada.
Em outro momento, um chefe disse a ela que um dos principais objetivos da equipe era ampliar a própria influência sobre outras áreas da empresa. Ao avaliar a relação com uma gestora, Stapleton afirma que harmonia, deferência e disponibilidade pesavam mais do que qualquer resultado concreto do trabalho.

Protesto global marcou a saída da autora
O livro não apresenta uma versão simplificada em que Stapleton sempre viu o Google com desconfiança. Ela aderiu à cultura da empresa, ajudou a apresentá-la internamente como diferente das corporações tradicionais e encontrou ali trabalhos que considerava relevantes, incluindo a atuação em crises do YouTube sobre conteúdos ofensivos, publicidade e criadores com grande alcance.
O rumo da história muda quando uma reportagem do jornal americano The New York Times revela que o Google havia negociado uma saída de US$ 90 milhões com Andy Rubin, criador do sistema Android, depois de considerar crível uma acusação de má conduta sexual contra ele. Rubin negou a acusação.
Parte dos funcionários considerou insuficiente a resposta da direção da empresa ao caso. Foi então que Stapleton tomou a iniciativa de organizar uma reação coletiva, articulou colegas e ajudou a estruturar o Google Walkout, protesto de 2018 que levou mais de 20 mil funcionários e terceirizados a deixar seus postos de trabalho.

O caso Rubin foi o estopim do movimento, mas o protesto rapidamente se transformou em uma manifestação mais ampla contra a cultura corporativa do Google, segundo o relato de Stapleton no livro.
A obra de Claire Stapleton se soma a um conjunto de relatos de ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia que vêm detalhando publicamente bastidores pouco conhecidos dessas companhias, oferecendo ao público uma perspectiva diferente da imagem institucional projetada por essas gigantes do setor.
Com informações de redir.folha.com.br.