O presidente da China, Xi Jinping, colocou a inteligência artificial no centro do plano econômico do país. Durante visita a um parque tecnológico nos arredores de Pequim, em fevereiro, Xi observou de perto um braço robótico realizar uma tarefa de costura de precisão e declarou que aquela tecnologia ajudaria a China a construir seu futuro.
A frase resume a aposta do governo chinês: usar a IA como motor para reindustrializar o país, modernizar hospitais e escolas e, principalmente, superar os Estados Unidos na corrida tecnológica. Xi chamou a inteligência artificial de “ganso líder” da próxima fase de crescimento econômico chinês.
O que muda com a estratégia de IA da China?

O governo chinês quer que ferramentas e agentes de inteligência artificial estejam presentes em 90% da sociedade do país até 2030. A meta é ambiciosa, ainda que as autoridades não tenham detalhado como esse percentual será medido na prática.
Entre os usos previstos estão a substituição de trabalhadores por robôs inteligentes em fábricas, diante do envelhecimento e da redução da população chinesa, e o atendimento médico a distância. Moradores de áreas rurais mais pobres, por exemplo, poderiam ser atendidos por avatares digitais que reproduzem o conhecimento de médicos renomados das grandes cidades.
Como o governo chinês está financiando o setor?
A campanha em torno da inteligência artificial é bancada, em grande parte, com dinheiro público. Segundo estimativas de economistas, fundos estatais destinaram mais de US$ 184 bilhões (R$ 956,4 bilhões) a empresas de IA entre 2000 e 2023.
No ano passado, o governo chinês e bancos estatais prometeram centenas de bilhões de dólares adicionais ao setor. O modelo é bem diferente do americano: nos Estados Unidos, o investimento é majoritariamente privado, e somente em 2025 esse tipo de aporte somou US$ 285 bilhões (R$ 1,47 trilhão) em tecnologia de IA.
No parque tecnológico visitado por Xi, centenas de empresas instalaram escritórios dedicados a chips de ponta e modelos de inteligência artificial. O governo municipal local oferece a essas companhias dezenas de milhões de dólares em capacidade computacional gratuita. Um pavilhão de exposições no local reúne criações que vão de chips voltados a mísseis nucleares a implantes cerebrais capazes de ajudar pacientes paralisados a recuperar a fala.
China x Estados Unidos: uma disputa com objetivos diferentes
Enquanto em Washington e no Vale do Silício o debate gira em torno da chamada AGI (Inteligência Artificial Geral), uma forma teórica de IA capaz de pensar e aprender como um humano ou até melhor, autoridades chinesas praticamente não usam esse termo. O foco de Pequim está em metas mais imediatas, ligadas à produção industrial e a serviços públicos.
Outra diferença marcante é o apoio de Xi a modelos de código aberto. Essa escolha ajudou empresas chinesas a ganhar usuários em diversos países, enquanto companhias americanas de peso optaram por sistemas fechados.
Quais são os riscos apontados no processo?
A adoção acelerada da inteligência artificial não vem sem riscos para o próprio governo chinês. Chatbots podem ameaçar o controle do Partido Comunista sobre a circulação de informação no país.
Há também preocupação com modelos estrangeiros avançados, como o Claude Mythos, que poderiam facilitar ataques cibernéticos complexos contra infraestrutura crítica chinesa. Essa ameaça foi reconhecida publicamente pelo principal chefe de espionagem do país.
Para tentar conter esses riscos, reguladores chineses impuseram regras rígidas sobre o que os chatbots podem dizer e proibiram bots de companhia de IA voltados para crianças. Tribunais do país já alertaram empresas para que não substituam trabalhadores de forma indiscriminada pela tecnologia. Autoridades também restringiram a saída do país de alguns empresários de destaque do setor de IA.
Um plano de longa data
A guinada tecnológica não é recente. Em junho de 2014, Xi já discursava sobre o tema no Grande Salão do Povo, em Pequim, na primeira vez em que se dirigiu como líder do país às Academias Chinesas de Engenharia e de Ciências.
Segundo o próprio Xi, a força da China está na capacidade de concentrar recursos em uma única direção. “Devemos aproveitar plenamente a vantagem de nossa nação de concentrar recursos para realizar grandes tarefas”, afirmou o líder chinês a empresários, pesquisadores e autoridades durante a visita ao parque tecnológico.
Essa confiança no controle estatal, somada à determinação de alcançar os Estados Unidos, também explica por que a China resiste a apelos internacionais por desacelerar o desenvolvimento da inteligência artificial. Para Pequim, o ritmo acelerado é parte essencial da estratégia para não ficar para trás na disputa tecnológica global.
Com informações de redir.folha.com.br.