As maiores economias do mundo decidiram apertar o cinto diante de um risco que vem tirando o sono de banqueiros e governos: um ataque cibernético de grandes proporções contra o sistema financeiro global. A resposta, por enquanto, é treino. Os países do G7 planejam realizar exercícios de simulação para testar como reagiriam diante de uma ofensiva digital turbinada por inteligência artificial.
O que foi decidido sobre ciberataques com IA
A ideia veio à tona durante encontros desta semana em Bangkok, onde ministros das Finanças do G7 debateram a realização de simulações e exercícios de mesa voltados justamente para preparar respostas a futuros incidentes. O assunto ganhou força durante a reunião anual do FMI, realizada na Tailândia, que reuniu autoridades governamentais e executivos de bancos preocupados com os chamados “riscos desconhecidos” — ameaças cujo alcance real ainda ninguém consegue dimensionar direito.

“Os vice-ministros das Finanças do G7 vinham discutindo a ideia de realizar exercícios de mesa sobre IA avançada”, contou a ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama. Segundo ela, o grupo já bateu o martelo: as simulações vão acontecer.
Essa movimentação não surge do nada. Nas últimas semanas, o presidente da Coreia do Sul chegou a afirmar que há indícios de que modelos de IA foram usados em ataques contra bancos. Além disso, a Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido soou o alarme: segundo o órgão, sistemas avançados de inteligência artificial estão encontrando falhas de segurança cibernética mais rápido do que as próprias empresas financeiras conseguem corrigi-las.
Preocupação é global, e a cooperação vira prioridade
Para o ministro das Finanças dos Países Baixos, Eelco Heinen, o problema é que todo mundo está no escuro diante do mesmo desafio. “Estamos todos olhando para a mesma caixa-preta. Vemos os riscos, mas como lidar com eles? Se alguns países possuem a tecnologia, mas o mundo inteiro pode ser vítima dela, a cooperação internacional é muito importante. É isso que causa apreensão”, disse.
Não é exagero, portanto, dizer que o tema entrou de vez na agenda prioritária das grandes economias. O próprio FMI abriu sua reunião anual destacando o crime cibernético turbinado por IA como uma das três principais ameaças à estabilidade financeira global. No relatório sobre estabilidade financeira divulgado na terça-feira (13), a instituição alertou que os modelos de inteligência artificial estão virando ferramentas cada vez mais poderosas para viabilizar ataques — e que isso pode se transformar em uma fonte de risco sistêmico.
“Incidentes cibernéticos graves podem abalar a confiança nos mercados e interromper infraestruturas e operações essenciais dos mercados financeiros”, afirmou o relatório do FMI.
Como devem funcionar os exercícios de simulação
Segundo um funcionário que participou da reunião dos ministros das Finanças, os exercícios propostos poderiam envolver até bancos comerciais, com cenários desenhados por diferentes autoridades financeiras dos países do G7. A lógica é simples: testar na prática se os planos de emergência que os governos já têm engatilhados realmente funcionariam diante de um ataque cibernético de grande escala — e, de quebra, descobrir onde estão as brechas.
Uma fonte familiarizada com as discussões comparou a iniciativa a um treinamento em simulador de voo, no qual pilotos praticam reações a situações de emergência sem colocar ninguém em risco real. No caso dos bancos, os cenários simulados podem incluir o uso de IA para potencializar a eficácia de um ataque cibernético, além da própria infraestrutura de inteligência artificial entrando na lista de alvos.
Bastidores em Bangkok: cautela, mas alerta ligado
Nos corredores do encontro em Bangkok, a conversa entre autoridades e executivos de bancos foi mais aberta — e preocupada — do que normalmente aparece nos comunicados oficiais. Em conversas reservadas, eles reconheceram estar diante de uma ameaça sem precedentes e admitiram dúvidas sobre se os sistemas financeiros mundiais estão realmente prontos para uma ofensiva potencializada por IA.
“Nenhum banqueiro quer sugerir que uma crise está prestes a acontecer, por isso a linguagem ainda é cautelosa. Mas acho que as pessoas do setor estão muito concentradas nos riscos desconhecidos da IA e, naturalmente, isso é bastante assustador”, resumiu o principal responsável pela gestão de riscos de um banco do Oriente Médio.
Caio Ferreira, vice-chefe da divisão de análise de mercados globais do FMI, reforça que a ameaça cibernética à estabilidade financeira está mesmo em curva ascendente. De acordo com ele, a digitalização cada vez mais presente amplia o que o setor chama de “superfície de ataque” — ou seja, a quantidade de pontos vulneráveis que hackers podem tentar explorar. Some-se a isso a dependência crescente dos mercados financeiros em relação a prestadores de serviços terceirizados, o que acaba concentrando riscos em poucos elos da cadeia — e, justamente por isso, torna o cenário ainda mais sensível a falhas pontuais que podem se espalhar rápido pelo sistema todo.



Com informações de redir.folha.com.br.