Influenciadores nas redes estão ultrapassando limites de segurança e bom senso para conquistar cliques, visualizações e notoriedade. O fenômeno ganhou um dos exemplos mais conhecidos em 2021, quando Trevor Jacob, ex-snowboarder olímpico americano, saltou de um avião durante um voo sobre a Floresta Nacional de Los Padres, no sul da Califórnia.
Influenciadores nas redes transformam risco em audiência

Jacob pilotava um Taylorcraft de 1940 quando anunciou ao público que a aeronave estaria enfrentando problemas no motor. Câmeras instaladas no avião registraram o momento em que ele deixou a cabine. Outra câmera, presa a um bastão de selfie, acompanhou o salto de paraquedas até o solo.
Enquanto isso, os equipamentos fixados na aeronave captaram a queda do avião contra uma encosta. Depois, Jacob publicou no YouTube um vídeo de 13 minutos com o título “I Crashed My Plane” (“Eu derrubei meu avião”, em tradução livre). A produção alcançou cerca de 5 milhões de visualizações.
O caso, no entanto, não era um acidente. Investigadores federais concluíram posteriormente que o avião nunca havia apresentado problemas e que Jacob havia forjado a queda para tentar ganhar fama na internet. A repercussão acabou sendo passageira, mas as consequências foram duradouras: a atitude prejudicou sua vida e resultou em uma condenação à prisão federal.
Algoritmos favorecem conteúdos extremos

Especialistas afirmam que Jacob integra um grupo crescente de influenciadores nas redes dispostos a testar os limites para atrair atenção. A avaliação é que os algoritmos acabam recompensando materiais extremos, enquanto vídeos mais comuns têm dificuldade para manter o interesse do público.
Assim, medo, indignação e espanto passaram a ocupar um espaço importante na disputa por audiência. Ficou distante o período em que a fama digital parecia acessível a qualquer adolescente gravando coreografias no quarto ou a pais ensinando receitas na cozinha.
“À medida que a tecnologia evoluiu e os influenciadores passaram a ter a possibilidade de obter fama e riqueza, provavelmente não é surpreendente que algumas pessoas estejam dispostas a arriscar a prisão ou até a morte”, disse Kaveri Subrahmanyam, psicóloga da Universidade do Estado da Califórnia.
De arranha-céus a confrontos transmitidos ao vivo

Os exemplos se espalham por diferentes países. Aspirantes a influenciadores nas redes invadem telhados de arranha-céus, interrompem o trânsito em rodovias e provocam desconhecidos em supermercados, aeroportos e shopping centers.
Além disso, há quem se pendure em helicópteros, guindastes, trens e penhascos para gravar vídeos que duram apenas alguns segundos. Alguns envolvidos são presos; outros precisam de atendimento hospitalar. Em situações trágicas, há casos de mortes.
O psicólogo Kaveri Subrahmanyam considera que a possibilidade de conquistar fama e riqueza ajuda a explicar por que algumas pessoas aceitam correr riscos tão elevados. A lógica, em resumo, coloca a popularidade de um lado e a prisão ou algo ainda pior do outro.
Dalton Eatherly, conhecido por seus milhares de seguidores como Chud the Builder, é citado como outro exemplo dessa dinâmica. Autointitulado influenciador “America First”, ele ganhou visualizações ao transmitir ao vivo confrontos com pessoas negras, frequentemente marcados por insultos raciais e assédio.
O cenário mostra como a atenção se tornou uma espécie de moeda no ambiente digital. Por isso, para parte dos influenciadores nas redes, cada publicação pode representar uma tentativa de alcançar mais audiência — mesmo quando o preço envolve segurança, liberdade ou a própria vida.