Um veículo jornalístico do Reino Unido registrou uma queda de 98% na visibilidade para buscas de notícias em alta no Google, apenas duas semanas depois de migrar seu domínio de .co.uk para .com. Os números são da plataforma NewzDash e foram divulgados pelo fundador da empresa, John Shehata, em publicação no LinkedIn.
Segundo Shehata, o site já vinha perdendo visibilidade durante algumas atualizações centrais (core updates) do Google e enfrentava problemas técnicos internos que podem ter contribuído para o resultado. Por isso, ele pondera que os dados não comprovam que a troca de domínio tenha sido a única causa da queda.
O índice usado, chamado Search Visibility, é uma métrica própria da NewzDash que acompanha consultas de notícias em alta no Reino Unido, considerando aparições tanto na aba Top Stories quanto nos resultados orgânicos. O cálculo estima a fatia de cliques com base em fatores como posição no ranking, taxa de cliques estimada, tempo de permanência nas posições e quantidade de URLs indexadas. Ou seja, trata-se de uma previsão de cliques, não de tráfego real medido. Shehata afirma que ferramentas convencionais de SEO costumam apontar quedas bem menores, entre 60% e 70%, para casos semelhantes.

O que a NewzDash monitorou
A plataforma acompanhou o domínio .co.uk por 14 meses antes da mudança. Conforme Shehata, o site mantinha entre 1% e 2% de visibilidade no conjunto de resultados de notícias monitorados pela empresa, enquanto sites de porte semelhante costumam ficar na faixa de 3% a 6%.
A visibilidade caiu já durante o processo de migração e chegou a 0,02% duas semanas depois — uma queda de 98% segundo a metodologia da NewzDash.
O domínio .com não absorveu o desempenho perdido pelo .co.uk. Quatro meses após a mudança, de acordo com a publicação, o novo endereço registra apenas aparições isoladas e pontuais nos resultados de notícias.

Ainda segundo o relato, a migração foi feita da noite para o dia, movendo todo o site de uma vez. A motivação teria sido adotar um domínio global único e deixar de ser classificado por sistemas de publicidade como um site exclusivamente britânico. O nome do veículo e os dados brutos não foram divulgados, o que impede a verificação independente do percentual de 98%.
Por que o número diverge das ferramentas de SEO
Shehata explica que as ferramentas tradicionais de rastreamento de rankings — que ele não identifica — trabalham com um conjunto fixo de palavras-chave, em grande parte perenes. Já a NewzDash monitora a visibilidade do site em um conjunto variável de consultas jornalísticas em alta, tanto na aba Top Stories quanto nos resultados orgânicos. Segundo ele, foi justamente na aba Top Stories que o impacto da migração se mostrou mais intenso.
O que o Google orienta sobre mudança de domínio
O guia oficial do Google para mudanças de site trata a troca de domínio como um tipo padrão de migração. O documento recomenda mapear as URLs antigas para as novas, configurar redirecionamentos, enviar a solicitação de mudança de endereço pelo Search Console e monitorar o comportamento das URLs após a transição. O Google garante que redirecionamentos permanentes não prejudicam o PageRank e afirma que cada alteração de URL é processada individualmente. O guia também menciona que oscilações de ranking podem ocorrer durante o novo rastreamento, e que sites de médio porte podem levar semanas — ou mais — para que as novas URLs apareçam plenamente nos resultados, prazo que pode ser ainda maior para sites grandes.

A orientação sugere que sites de grande porte testem a migração primeiro em uma seção específica, preferencialmente uma que não seja atualizada com frequência, e recomenda não combinar a troca de domínio com mudança de CMS ou redesign simultâneo.
Para o Google Notícias especificamente, o guia do Publisher Center recomenda seguir o mesmo processo ao trocar de domínio, atualizar o sitemap de notícias sempre que a estrutura do site mudar, garantir que o rastreador do Google consiga ler o site sem dificuldades e evitar cadeias longas de redirecionamento. O Google também destaca que relevância, destaque editorial, autoridade, atualidade, usabilidade, localização e idioma são fatores importantes para o posicionamento no Google Notícias — mas nenhum dos documentos detalha como esses sinais são transferidos quando um site muda de domínio.
Em junho, o analista do Google John Mueller respondeu a um usuário do Reddit que avaliava trocar um domínio .ca por .com por questões de branding:
“Uma mudança de site é sempre algo sério, mesmo quando você toma o cuidado de fazer tudo corretamente. É muito trabalho, e o resultado é impossível de prever totalmente com antecedência.”
A interpretação de Shehata
Para Shehata, mudanças drásticas — como troca de CMS, redesign completo ou alteração de domínio — levam o Google a reavaliar o site inteiro, fenômeno que ele chama de “Google Reset”, termo próprio, não oficial da empresa.
Ele defende que as superfícies de notícias do Google levam em conta sinais ligados ao hostname, como histórico de publicação e confiança editorial acumulada. Embora um redirecionamento 301 transfira a autoridade dos links, ele “pode não carregar esse histórico”, escreveu Shehata. O guia do Google não especifica se o histórico de notícias está de fato vinculado ao hostname.
Como recomendação prática, Shehata sugere migrar o conteúdo por seções e aguardar o novo domínio ganhar presença no Google Notícias antes de completar a troca — a primeira parte alinhada às orientações do próprio Google para sites grandes, a segunda não prevista em nenhum guia oficial.
Por que isso importa
Uma mesma migração de domínio pode parecer administrável em uma ferramenta convencional de rastreamento de ranking e, ao mesmo tempo, catastrófica em um sistema que acompanha consultas de notícias em tempo real. Neste caso, as duas formas de medição divergiram em cerca de 30 pontos percentuais, diferença que Shehata atribui aos conjuntos distintos de palavras-chave monitorados por cada ferramenta.
Os dados da NewzDash combinam Top Stories e resultados orgânicos, mas não permitem isolar a contribuição de cada um para a queda total. Um relatório de migração baseado apenas em palavras-chave perenes provavelmente subestimaria as perdas em consultas noticiosas de rápida mudança.
O que vem pela frente
Shehata afirma não haver sinais de recuperação após quatro meses da migração, e permanece incerto se a maior responsável pela queda foi a mudança de domínio, as atualizações de algoritmo anteriores ou os problemas técnicos internos já existentes.
Casos semelhantes já foram documentados anteriormente: em um episódio relatado no ano passado, Mueller atribuiu o colapso de rankings após uma migração à presença de grande volume de conteúdo não relacionado no domínio de origem — situação que pôde ser verificada publicamente, ao contrário do caso atual, cujos dados permanecem não divulgados. Mais evidências só devem surgir caso o Google se pronuncie sobre o episódio ou a NewzDash divulgue os dados completos, o que não havia ocorrido até o momento.
Para redações que avaliam consolidar domínios, o episódio se soma a um conjunto de evidências que reforça a cautela recomendada pelo próprio Google em processos dessa natureza.
Com informações de searchenginejournal.com.