Quando a Meta apresentou seus óculos inteligentes com inteligência artificial, em parceria com a Ray-Ban, lá em 2023, a novidade veio acompanhada de uma onda de polêmicas. Agora, com o lançamento de uma versão sem câmera, a pergunta que fica no ar é: será que os óculos sem câmera conseguem reverter o estrago de imagem que o produto acumulou nos últimos anos?

O problema foi sério. Houve diversos relatos de uso dos dispositivos para assediar mulheres e, principalmente, meninas, que foram filmadas sem consentimento — imagens que depois acabaram circulando pela internet. Nem a recente contratação de Kylie Jenner, irmã de Kim Kardashian, como principal modelo da marca, conseguiu dar um jeito nessa reputação manchada. Pelo contrário: os óculos ganharam apelidos nada lisonjeiros, como “pervertidos” ou “sinistros”.

O desconforto saiu do campo da opinião e virou proibição concreta em vários lugares do Reino Unido. Os pubs da rede JD Wetherspoon, teatros importantes, a Comic-Con, algumas escolas e até a base naval britânica Faslane, que abriga os submarinos nucleares do país, baniram o uso dos óculos em suas dependências.
Óculos sem câmera: a aposta da Meta para contornar a crise
Foi nesse cenário que, no final de setembro, a Meta apresentou o Ray-Ban Meta Audio, uma versão sem câmera dos óculos inteligentes. O modelo mantém as funções de áudio dos originais — como fazer ligações telefônicas e tocar música, com som direcionado diretamente ao ouvido do usuário — mas sem o componente que gerou boa parte da desconfiança do público.

Para alguns especialistas do setor, a mudança soa como uma resposta, ainda que indireta, às críticas sobre privacidade. A Meta, porém, nega qualquer relação entre o lançamento e a pressão pública, afirmando que o produto já estava em desenvolvimento havia dois anos. Além disso, a versão apenas com áudio sai mais barata que a com câmera, tem armação mais leve e oferece mais tempo de bateria.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de o novo modelo superar as vendas da versão com câmera, o chefe de produtos da Meta Glasses, Ankit Brahmbhatt, fez uma pausa significativa antes de responder. “Temos, eu acho, algo para todos”, declarou, escolhendo as palavras com cuidado.

A dúvida que fica é se esse lançamento sinaliza uma mudança real na forma como as empresas de tecnologia enxergam o futuro dos óculos inteligentes, ou se a versão sem câmera é apenas um produto de nicho — algo parecido com os celulares “tijolão” sem internet, voltados a quem está cansado das redes sociais.
Relato de uso: música, mapas e menos medo do que se imagina
Não há dúvida de que os óculos inteligentes se tornaram sinônimo de polêmica. Ao testar um par de Meta Ray-Ban com câmera emprestado, a reação inicial foi de nervosismo diante da possibilidade de assédio físico — afinal, já circularam relatos de pessoas que arrancaram os óculos da cabeça de usuários e os esmagaram na rua.
Na prática, porém, o uso em transporte público e nas ruas de cidades britânicas como Londres, Glasgow e Portsmouth não provocou reação alguma das pessoas ao redor. Isso levanta uma questão interessante: será que o público conhece tanto sobre esses óculos quanto acreditam a Meta e os ativistas que defendem restrições ao produto?
Por outro lado, algumas pessoas confidenciaram que não se sentiriam confortáveis em abordar alguém usando os óculos, mesmo reconhecendo o modelo, por medo de que a conversa fosse filmada e parar na internet.
“Temos, eu acho, algo para todos.”
Como funcionam os óculos e o que mais chamou atenção
Os óculos funcionam como uma extensão do celular, conectando-se por Bluetooth ao aparelho por meio do aplicativo de IA da Meta. Eles são ativados por voz, e alto-falantes abertos nas hastes direcionam o som para os ouvidos — uma experiência parecida com fones sem cancelamento de ruído, em que ainda é possível ouvir o que acontece ao redor.
Mesmo correndo o risco de soar impopular, vale registrar: diversas funções dos óculos se mostraram úteis no dia a dia — e, curiosamente, nenhuma delas dependia da câmera. Entre elas, destaca-se o uso para ouvir música.
Em resumo, o lançamento da versão sem câmera parece tentar equilibrar dois mundos: manter a conveniência tecnológica que a Meta aposta como caminho para o futuro, enquanto tenta afastar o produto da sombra das polêmicas de privacidade que marcaram seus primeiros anos no mercado.
Com informações de redir.folha.com.br.