O Google começou a testar um programa que remunera publishers (donos de sites e portais) quando o conteúdo deles ajuda a montar uma resposta gerada por inteligência artificial. Esse pagamento a sites pela IA do Google funciona dentro do Search Console, onde os veículos convidados aceitam os termos do piloto e acompanham, ali mesmo, quanto já renderam.
A informação veio a público em 14 de setembro, quando o Digiday publicou prints da documentação de ajuda do Google e entrevistas com executivos de empresas de mídia participantes. Curiosamente, Barry Schwartz, do Search Engine Roundtable, já tinha percebido esse recurso dentro do Search Console em abril — só que, na época, ainda não estava claro que havia dinheiro envolvido. Procurado pelo Digiday, o Google confirmou o teste e explicou que se trata de uma fase inicial para entender como recompensar conteúdo de alta qualidade, além do tráfego e das ferramentas que a empresa já oferece aos sites.
Como funciona o pagamento a sites pela IA do Google
De acordo com a documentação divulgada pelo Digiday, o publisher ganha dinheiro quando suas páginas “contribuem significativamente” para uma resposta dentro do app Gemini, do AI Overviews ou do AI Mode. Para participar, basta aceitar um conjunto de termos diretamente no Search Console — e, segundo o próprio material, dá para sair do programa a qualquer momento, pela mesma página de configurações. Um relatório específico mostra os ganhos mês a mês e separa os pagamentos do restante das métricas.
Um detalhe importante: o pagamento vale só para a etapa de geração da resposta, ou seja, quando o conteúdo do site efetivamente molda o texto produzido pela IA. Páginas que aparecem apenas como link citado, ou que servem só para confirmar um fato depois que a resposta já foi escrita, não entram na conta. Até agora, o Google não revelou como define o que é uma “contribuição significativa” nem como calcula o valor pago. Um dos executivos ouvidos pelo Digiday descreveu o cálculo como pouco transparente, e outra fonte classificou os ganhos iniciais como pequenos se comparados à receita publicitária.

Segundo a reportagem, o Google já procurou pelo menos dezenas de publishers — inclusive sites fora do universo de notícias — sem que fosse possível confirmar o número total de participantes. Além disso, o Digiday apurou que veículos pequenos e médios demonstraram mais interesse no programa do que os grandes grupos de mídia.
O que os publishers ganham — e o que podem perder
Vale lembrar que o Google já paga por conteúdo em outras frentes. A empresa fechou um acordo de licenciamento com o Reddit em 2024, estimado pela Reuters em cerca de US$ 60 milhões por ano, e outro com a Associated Press em 2025 para alimentar o Gemini. Em post publicado em 18 de junho no blog oficial de políticas públicas, o Google afirmou estar testando uma forma de parceria com sites cujo conteúdo contribui para a atualidade e a precisão das respostas de IA — e foi justamente esse texto que a empresa indicou ao Digiday quando questionada sobre o programa no Search Console.
O momento não é qualquer um: o Google enfrenta pressão crescente nesse front. A Penske Media, dona da Rolling Stone e da Variety, processou a empresa em setembro de 2025, alegando que o Google usa seu monopólio de busca para aproveitar conteúdo alheio no AI Overviews sem pagar por isso. Em audiência no dia 25 de agosto, o juiz Amit Mehta — o mesmo que decidiu contra o Google no processo antitruste sobre buscas — classificou o arranjo como aparentemente injusto para os publishers. Até a publicação da matéria original, ele ainda não havia decidido sobre o pedido de arquivamento feito pelo Google.
Em junho, a autoridade de concorrência do Reino Unido (Competition and Markets Authority) determinou que o Google dê aos publishers ferramentas para impedir que seu conteúdo seja usado no AI Overviews e também no treinamento dos modelos, com prazo de nove meses para se adequar.
Opiniões divididas sobre o verdadeiro propósito do piloto
As pessoas entrevistadas pelo Digiday não chegam a um consenso sobre a real intenção por trás do programa. Um executivo do setor de publishing avaliou que aceitar os termos pode, na prática, enfraquecer a posição do publisher em negociações futuras — afinal, o Google poderia usar o piloto como argumento de que “compensação já foi paga”.
Já Luke Stillman, diretor administrativo da consultoria Madison and Wall, defende que os publishers têm pouca margem de manobra diante das mudanças que a IA impõe à descoberta de conteúdo, por isso o melhor caminho seria aproveitar a oportunidade para criar uma nova fonte de receita enquanto ela existe. David Buttle, fundador da coalizão Spur (voltada a publishers e IA) e da consultoria DJB Strategies, foi além:
Pagar pela contribuição, em vez de pagar pelo uso, permite ao Google evitar um modelo em que teria que pagar toda vez que usasse um conteúdo.
Por outro lado, um publisher que já participa do piloto descreveu a relação como colaborativa, com chamadas semanais entre as partes, e disse torcer para que o programa se torne um precedente de pagamento direto aos veículos.
Faz sentido, portanto, que grandes grupos de mídia — que têm mais poder de negociar acordos próprios — demonstrem menos entusiasmo, enquanto sites menores, com poucas outras formas de monetizar o uso de seu conteúdo pela IA, se mostrem mais dispostos a embarcar. Um executivo que está de fora do programa disse ao Digiday que os valores oferecidos até agora são baixos demais para valer a pena, e que as conversas com o Google continuam. Por enquanto, os termos completos do programa não foram tornados públicos, o que deixa em aberto quais direitos exatamente um publisher cede ao Google ao aceitar participar.
Como acompanhar a visibilidade do seu site nas respostas de IA
Por ora, só sites convidados podem entrar no piloto. Como o próprio Google afirma que links e citações não contam para pagamento, os dados de citação servem apenas para mostrar onde seu conteúdo aparece — não para estimar quanto ele renderia.
Algumas ferramentas ajudam a monitorar essa presença:
- O Position Tracking, parte do SEO Toolkit, mostra para quais palavras-chave um site é posicionado dentro do AI Overviews, permitindo observar mudanças ao longo do tempo.
- O relatório Visibility Overview, do AI Visibility Toolkit, acompanha a frequência com que um site é mencionado e citado no AI Overviews, no AI Mode, no Gemini e no ChatGPT — dado especialmente relevante porque o piloto remunera contribuições ao app Gemini, enquanto o relatório de desempenho de IA generativa do Search Console hoje só lista AI Overviews e AI Mode.
- Dentro desse mesmo relatório, a aba Cited Pages lista quais URLs do site são citadas e quantos prompts fazem essa citação.

Em resumo, o programa ainda está em fase de teste e cercado de incertezas — desde a forma de cálculo dos pagamentos até os direitos cedidos pelos publishers. Mas o movimento já sinaliza uma mudança de postura do Google diante da pressão judicial e regulatória, e vale acompanhar de perto como essa relação entre buscadores, IA e produtores de conteúdo vai evoluir nos próximos meses.

Com informações de semrush.com.