Tem trend nova em SEO que, na real, é bem mais velha do que parece. O tal “query fan-out” — quando uma inteligência artificial pega um único pedido e o desmembra em vários mini-buscas — já era praticado por profissionais de imprensa muito antes de alguém batizar a técnica assim. Só que o nome usado era outro: “bonecas russas”.
Em agosto, a pesquisadora MJ Cachón publicou um estudo revelador: rodou 189 prompts de marcas dentro do ChatGPT e percebeu que o modelo disparou sozinho 1.797 sub-buscas que ninguém havia digitado. Ao ler o material, um veterano do mercado reconheceu ali a mesma lógica que aplicava em releases de imprensa desde 2003 — bem antes de termos como “fan-out” ou “GEO” existirem.
A ideia era simples: procurar uma expressão de quatro palavras que tivesse, encaixada dentro dela, uma versão menor de três palavras — tipo bonecas russas, uma dentro da outra. Se a frase curta fosse algo como “passagem para Florianópolis”, o texto não parava por aí. Ia atrás da versão maior, “passagem barata para Florianópolis”, por exemplo, e construía o release em cima dela. Assim, o conteúdo aparecia tanto para quem buscava o termo curto quanto o longo. Usar só a versão curta significava ficar invisível para quem digitasse a frase completa — afinal, faltava uma palavra que o texto nunca mencionava.
Os 15% de buscas que ninguém consegue mirar diretamente
Não é frescura nem sacada isolada. É uma resposta direta a uma fatia da busca que a maioria dos profissionais de SEO subestima: as pesquisas que ainda nem existem. O próprio Google colocou um número nisso lá em 2019, ao apresentar o BERT: 15% das buscas feitas em um dia qualquer são termos completamente inéditos, nunca vistos antes pelo buscador.
Em março de 2025, durante o Search Central Live NYC, John Mueller voltou a falar sobre esse percentual — e parecia meio incomodado com a persistência do número. Ele esperava que os modelos de linguagem tivessem empurrado essa cifra para cima, mas não foi o que aconteceu.
“Eu imaginava que, em algum momento, a maioria das buscas já teria sido feita; que as pessoas simplesmente perguntariam a mesma coisa repetidas vezes. Mas quando recalculamos essas métricas, o número sempre fica em torno de 15%”, afirmou Mueller.
Multiplicando esses 15% pelos bilhões de buscas diárias do Google, chegamos a centenas de milhões de pesquisas todos os dias com formulações que nunca existiram antes. Boa parte não é aleatória: nasce de notícias de última hora, lançamento de produtos, mudanças de política, ou até uma expressão criada por um jornalista em cima da hora que, em minutos, vira busca popular. Notícia gera linguagem nova, e linguagem nova gera volume de busca que ontem simplesmente não existia.
Por que releases sempre tiveram vantagem nisso

Releases de imprensa sempre estiveram em posição privilegiada para capturar esse tráfego inédito — e poucos profissionais de SEO, na época ou hoje, entenderam realmente o motivo. É um dos únicos formatos de conteúdo escrito e publicado no mesmo dia em que a notícia acontece. Um post de blog normalmente leva um ciclo inteiro de notícias para se atualizar. O release, por sua vez, É o próprio ciclo de notícias. Se a formulação escolhida por acaso “aninhasse” as palavras exatas que alguém digitaria depois — seja na versão curta ou na longa —, o texto podia ranquear para uma busca que nem existia quando foi escrito.
O que os dados de Cachón trazem de novo
Aqui está o ponto em que aquele velho truque das bonecas russas ganha um upgrade de verdade. Cachón descobriu que o fan-out de marcas dentro do ChatGPT também não é aleatório. A primeira sub-busca de uma sequência costuma vir em linguagem simples e conversacional. A partir daí, o modelo vai afunilando: usa operadores de busca do tipo “site:”, depois passa a puxar frases exatas entre aspas para checar se a fonte realmente diz o que ele imagina que diz. No conjunto de dados analisado, o uso de citações entre aspas cresceu 25 vezes entre a primeira e a última busca de uma mesma sequência.
É o princípio das bonecas russas funcionando ao contrário: antes, a lógica era partir de uma frase pequena e construir uma versão maior para captar buscas de qualquer tamanho. Os sistemas de IA estudados por Cachón fazem o caminho inverso — começam amplos e vão afunilando até uma frase literal que possam verificar palavra por palavra. Em qualquer direção, a exigência de fundo é a mesma: o conteúdo precisa conter a formulação exata, em mais de um tamanho, ou ele simplesmente some de parte do funil de busca.
Outro dado reforça essa tendência: a consulta média do AI Mode nos Estados Unidos hoje é o triplo mais longa que uma busca tradicional, segundo dados de uso do próprio Google de maio de 2026. Some isso ao achado de Cachón — de que um único prompt de marca se desdobra em sub-buscas com média de sete palavras cada — e fica claro que o tamanho da frase deixou de ser um efeito colateral da busca por IA. Virou o próprio terreno de jogo, e isso vem sendo construído há muito mais tempo do que a maior parte do mercado percebeu.
Onde o setor errou o alvo

A avaliação é dura: a indústria de SEO passou a década de 2010 inteira otimizando o lado errado da “boneca”. Termos de cabeça (head terms) concentravam toda a atenção estratégica e todo o orçamento, enquanto o long-tail era tratado como um detalhe que o Search Console eventualmente revelaria, se der sorte. Isso já era um erro antes mesmo da busca generativa existir — e ficou ainda mais evidente agora que quem faz as buscas, além dos humanos, também são sistemas capazes de desdobrar um único prompt em uma dezena de formulações específicas.
Como aplicar isso na prática
A boa notícia é que não é preciso ter acesso à API usada por Cachón para colocar essa lógica em prática. Bastam três hábitos:
- Busque a frase aninhada, não só a semente: a partir de um termo-base de três palavras, anote duas ou três variações de quatro e cinco palavras que o contenham naturalmente, e construa o parágrafo de abertura ou um H2 em torno da versão mais longa. Vale checar primeiro no Google Search Console as consultas com muitas impressões e poucos cliques — normalmente são essas variantes maiores já batendo à porta.
- Publique no ritmo da notícia, não no ritmo do calendário editorial: os 15% de buscas totalmente novas estão, em geral, ligados a algo que acabou de acontecer. Ter um canal de publicação no mesmo dia — release, post de blog corporativo ou página de resposta rápida — é a melhor chance de “ocupar” uma expressão antes que a concorrência sequer saiba que ela existe.
- Escreva a resposta literal como frase autônoma e citável: os dados de Cachón mostram que sistemas de IA cada vez mais verificam afirmações buscando uma frase exata entre aspas dentro do próprio conteúdo. Se a frase que responde à pergunta não puder ser retirada do texto e ainda fazer sentido sozinha, vale reescrevê-la até que consiga.
Nada disso substitui o básico do SEO. É só um lembrete de que os fundamentos, às vezes, já estavam certos há muito mais tempo do que a gente imaginava.
Com informações de searchenginejournal.com.