O Google está dificultando cada vez mais o rastreamento automatizado de suas páginas de resultados, as chamadas SERPs, e o avanço de agentes de IA pode agravar ainda mais essa restrição. Para profissionais de SEO, isso significa um risco concreto: ferramentas de rank tracking, usadas para monitorar posições de palavras-chave, podem se tornar pouco confiáveis ou até inviáveis no futuro próximo.
Esse movimento não é oficial nem foi anunciado como política declarada pela empresa. Mas ele aparece de forma indireta em dados de tráfego, em pesquisas publicadas pelo próprio Google e em relatos de profissionais que desenvolvem ferramentas de monitoramento de rankings.
Por que o rank tracking está em risco?
O aumento expressivo do tráfego gerado por agentes de IA é apontado como um dos principais motivos por trás das barreiras impostas pelo Google a esse tipo de rastreamento. Segundo dados divulgados pela Cloudflare, empresa que monitora tráfego de internet em escala global, o tráfego de agentes de IA cresceu 1.700% ao longo do último ano.
A Cloudflare detalhou essa expansão em publicação recente:
“No final de 2024, a Cloudflare processava em média 63 milhões de requisições HTTP por segundo. Hoje, esse número quase dobrou, chegando a 115 milhões, com picos acima de 150 milhões. No último ano, as requisições diárias de agentes de IA em nossa rede cresceram mais de 1.700%. Neste ano, pela primeira vez, mais da metade do tráfego da internet não é humano.”
Parte desse tráfego de agentes de IA é híbrida: agentes atuando em nome de usuários humanos, o que ainda gera algum valor para os sites visitados. Esse detalhe, segundo análises do setor, pode ter sido levado em conta pelo Google ao desenhar suas respostas técnicas contra o rastreamento automatizado.
A busca com IA custa mais caro para o Google
Um volume tão alto de requisições automatizadas pode gerar lentidão na entrega de resultados de busca, incluindo os resultados do modo de busca com inteligência artificial. O problema fica mais evidente em buscas que acionam respostas geradas por IA, já que elas exigem muito mais poder computacional.
Na busca tradicional, o Google já indexou previamente as páginas associadas a cada termo pesquisado. Já nas respostas por IA, o sistema precisa gerar múltiplas consultas associadas, aplicar etapas de raciocínio e só depois sintetizar uma resposta a partir de diversas fontes, tudo isso a cada pergunta feita pelo usuário.
Esse processo torna o AI Mode do Google significativamente mais caro de operar do que a busca convencional. Por isso, a empresa tem investido pesado em reduzir o custo por consulta, à medida que o uso da ferramenta cresce.
O tema apareceu repetidas vezes na fala do executivo-chefe do Google, Sundar Pichai, durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre:
“Ontem anunciamos novos modelos, o Gemini 3.6 Flash e o Gemini 3.5 Flash-Lite, que são eficientes e com ótimo custo-benefício. Estamos vendo uma demanda enorme pela nossa linha Gemini Flash, porque ela acerta o equilíbrio entre desempenho e custo. Conforme atendemos mais dessas consultas, continuamos buscando ganhos de eficiência. Graças a otimizações de engenharia e hardware, neste trimestre reduzimos o custo das respostas do AI Mode ao menor nível desde o lançamento, mesmo trazendo recursos de IA mais avançados.”
Esse custo elevado por consulta ajuda a explicar por que o Google pode ter adotado uma postura mais agressiva contra o rastreamento automatizado de rankings: reduzir tráfego artificial ajuda diretamente a baixar o custo médio de cada busca processada.
Redes de conteúdo gerado por IA pressionam o Google
O Google já publicou diversos estudos técnicos sobre conteúdo gerado por inteligência artificial. Esses trabalhos mencionam agentes maliciosos que ajustam seu conteúdo em tempo real, em resposta às próprias reações do Google, na tentativa de conquistar posições de destaque nos resultados de busca.
Para conseguir esse tipo de ajuste constante, rastrear os resultados de busca do Google é essencial. Embora os estudos não citem diretamente o termo “destilação”, processo de engenharia reversa de um modelo de linguagem a partir de suas respostas, os detalhes apresentados sugerem que é exatamente esse tipo de prática que o Google está tentando conter.
O que dizem os profissionais de SEO?
Ryan Jones, desenvolvedor da ferramenta SERPrecon, especializada em extrair dados históricos de busca e palavras-chave de concorrentes para apoiar estratégias de otimização de conteúdo, comentou publicamente a situação.
Em publicação recente, Jones afirmou:
“Estamos chegando a um ponto em que ninguém mais vai ter rank tracking, por causa da quantidade absurda de scraping de IA acontecendo.”
Questionado, de forma irônica, sobre usar IA para rastrear as próprias SERPs, Jones respondeu:
“É por isso que os rank trackers estão falhando. O Google está bloqueando todos os rastreadores de IA e a própria IA, e os rank trackers estão sendo pegos no meio do caminho.”
O que está por trás dessa disputa?
Um ponto pouco discutido é que o Google pode estar desencorajando o rastreamento de rankings também para evitar que seus dados de resultados sejam usados para reconstruir, por engenharia reversa, o próprio algoritmo de busca por meio de modelos de IA treinados com base nesses dados, processo conhecido como destilação.
Há ainda outro fator em jogo: o rastreamento automatizado distorce o volume real de buscas por determinadas palavras-chave. Esse tipo de inflação artificial no volume de pesquisas é um problema antigo em SEO, mas o crescimento atual de agentes de IA parece ter potencializado essa distorção, afetando inclusive as métricas de cliques e tráfego usadas pelo próprio Google.
Diante desse cenário, duas perguntas seguem em aberto no mercado de SEO: até que ponto o combate do Google ao scraping agressivo de IA tornará o rank tracking inviável na prática, e qual a real intenção da empresa ao adotar essas barreiras, se é só conter custos operacionais ou também blindar seu algoritmo contra tentativas de engenharia reversa.
Com informações de searchenginejournal.com.