A Uber acaba de revelar um plano ambicioso para os próximos anos: colocar mais de 2.000 carros autônomos — os famosos robotáxis — circulando em diferentes partes do mundo até o fim de 2027. O anúncio funciona como um aceno para tranquilizar investidores, justamente num momento em que o negócio principal da empresa patina diante da escassez de motoristas e da disparada no preço dos combustíveis.
A companhia, com sede em San Francisco, comunicou a investidores que a receita da divisão de mobilidade somou cerca de US$ 7,5 bilhões (R$ 41,1 bilhões) nos três meses encerrados em 30 de setembro — um resultado aproximadamente US$ 200 milhões (R$ 1,096 bilhão) abaixo do que os analistas previam. Já a receita total do grupo ficou em US$ 14,8 bilhões (R$ 81,1 bilhões), superando as projeções em cerca de US$ 100 milhões (R$ 548 milhões).
Lucro menor que o esperado e combustível no centro do problema
Apesar da receita total ter surpreendido positivamente, o lucro operacional não acompanhou o ritmo: foram US$ 1,4 bilhão (R$ 7,67 bilhões), número bem inferior aos US$ 2,2 bilhões (R$ 12,05 bilhões) esperados pelo mercado. O motivo, em parte, foi a reserva de US$ 484 milhões (R$ 2,65 bilhões) feita pela empresa para cobrir possíveis acordos judiciais e tributários.
Segundo o presidente-executivo da Uber, Dara Khosrowshahi, o encarecimento dos combustíveis — impulsionado pela guerra no Oriente Médio — pesou diretamente no desempenho da companhia. Pior: a expectativa é que o cenário piore ainda mais no quarto trimestre, justamente durante a chamada “escalada recente” do conflito, que coincide com a temporada de viagens, período de maior movimento para o setor.
“Em vários mercados internacionais, os custos elevados dos combustíveis, as condições mais restritivas no mercado de trabalho local e a concorrência por motoristas limitaram nossa capacidade de atender plenamente à demanda dos consumidores”, disse Khosrowshahi a investidores.
Para contornar essa dificuldade, o executivo afirmou que a Uber está reforçando os incentivos aos motoristas, com remunerações melhores e bônus de adesão. Some-se a isso a concorrência cada vez mais acirrada de plataformas autônomas, como a Waymo, do grupo Alphabet. Não à toa, as ações da Uber acumulam queda de quase 20% neste ano.
A aposta nos carros autônomos ganha força
É justamente nesse contexto que a aposta em carros autônomos surge como uma espécie de cartada estratégica. Khosrowshahi disse que a empresa está no caminho para ter cerca de 700 veículos totalmente autônomos em sua plataforma até o fim deste ano, com a meta de ultrapassar 2.000 até o fim de 2027.
Para isso, a Uber se comprometeu a investir mais de US$ 10 bilhões (R$ 54,8 bilhões) na expansão da sua rede de robotáxis, com a ambição de, ao longo do tempo, colocar em operação mais de 120 mil veículos sem motorista. Atualmente, a empresa mantém serviços limitados em nove cidades ao redor do mundo — entre elas Austin, Atlanta e Londres — e planeja somar até 15 novas localidades ainda neste ano.
Do outro lado do ringue está a Waymo, que já tem cerca de 4.000 veículos circulando, a maioria nos Estados Unidos. A empresa opera mais de 500 veículos para a própria Uber em Austin e Atlanta, e a expectativa, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, é de que a divisão da Alphabet chegue a mais de 8.000 carros em circulação até o fim deste ano.
Khosrowshahi afirmou ainda que a Uber vai continuar bancando a expansão dos robotáxis com recursos próprios ao longo do próximo ano. No entanto, a empresa pretende “atrair capital de terceiros” assim que a frota autônoma ultrapassar 10 mil veículos — algo previsto para acontecer a partir de 2028.
Cortes, mudanças na cúpula e negociação com a Delivery Hero
Enquanto a estratégia de carros autônomos avança, a Uber também mostra sinais de reorganização interna. As reservas brutas — indicador que mede o quanto os clientes gastam nos serviços da empresa — cresceram 20% na comparação anual, somando US$ 59,8 bilhões (R$ 327,7 bilhões) no terceiro trimestre, número alinhado às estimativas dos analistas.
Em setembro, a companhia anunciou o corte de cerca de 10% de sua força de trabalho global, o equivalente a aproximadamente 3.300 postos de trabalho, numa tentativa de liberar recursos para investimentos, incluindo justamente o negócio de robotáxis.
A administração da Uber também passou por mudanças relevantes no último ano. A presidente da empresa, Jill Hazelbaker, vai ingressar na OpenAI no próximo mês. Susan Anderson, que chefiava a divisão global de entregas, deixou o cargo em junho, pouco mais de um ano após assumir a função. Já Sarfraz Maredia, responsável pela área de veículos autônomos, deve sair ainda neste mês.
Além de toda essa movimentação, a empresa segue conduzindo uma negociação complexa para comprar a Delivery Hero, companhia alemã de entregas de comida sediada em Berlim. Em julho, a Uber acertou a aquisição por 13 bilhões de euros (R$ 80,15 bilhões) — um negócio que, somado à aposta nos robotáxis, mostra o tamanho da reformulação que a empresa está promovendo para tentar recuperar o fôlego diante dos desafios do mercado.
Com informações de redir.folha.com.br.