O fundador do Waze, Uri Levine, enxerga um paradoxo interessante na forma como a inteligência artificial vem mudando o mundo dos negócios. Para ele, a tecnologia deixou a construção de produtos mais rápida e mais barata, mas isso não significa, de forma alguma, que ficou mais fácil criar uma empresa de sucesso. Na verdade, é o contrário.

“Com IA, construir um produto está ficando mais fácil – e ter sucesso está ficando mais difícil”, afirmou Levine em entrevista a Mariana Amaro, apresentadora do podcast Do Zero ao Topo. A explicação é simples: tudo aquilo que uma startup consegue montar em pouco tempo também pode ser copiado rapidamente por concorrentes.
“Se você disser ‘olha o que construí em duas semanas’, bom, qualquer um constrói isso em duas semanas também. Isso, por si só, é requisito obrigatório. Não é mais diferencial”, explica o empreendedor israelense.
Com a missão de ajudar empreendedores a encontrar esse diferencial e transformá-lo em negócios bilionários, Levine, aos 61 anos, criou a Uri Levine Startup Academy — uma escola de empreendedorismo que estreia justamente pelo Brasil.
IA é maior que a internet? Uri Levine acredita que sim
Na visão de Levine, a inteligência artificial supera até as grandes revoluções tecnológicas das últimas décadas. “É maior que os smartphones, maior que a internet”, diz ele. Segundo o empreendedor, toda grande transformação tecnológica cria oportunidades e destrói modelos de negócio ao mesmo tempo — e com a IA não seria diferente.
“Cada uma dessas ondas cria e destrói ao mesmo tempo. No caso da IA, não é só sobre os produtos que usamos hoje. Ela está mudando a forma como construímos empresas. E isso é muito, muito dramático”, afirma.
Quanto mais simples fica criar uma solução, maior tende a ser o número de produtos disputando a atenção do público. Por isso, Levine alerta que essa facilidade de criação aumenta o risco de empreendedores partirem para a construção antes mesmo de entender qual problema estão tentando resolver. “De repente, você fica sobrecarregado de soluções sem nem saber qual é o problema”, diz.
Apesar do entusiasmo com a tecnologia, Levine reforça que a inteligência artificial só se torna uma ferramenta poderosa de inovação quando é apontada para a direção certa — um tema tão caro a ele que virou o título do seu primeiro e mais conhecido livro: Apaixone-se pelo problema, não pela solução.
Como saber se um problema realmente justifica uma startup
Antes de sair construindo qualquer produto, Levine recomenda validar se o problema é real e se afeta um número relevante de pessoas. O primeiro passo, segundo ele, é simplesmente conversar com o público-alvo da solução.
“Pergunte: quem tem esse problema? Se você for a única pessoa no planeta com esse problema, procure um terapeuta. É bem mais rápido e barato do que montar uma startup”, brinca o fundador do Waze.
Caso outras pessoas também enfrentem a mesma dificuldade, o passo seguinte é entender como elas percebem esse problema no dia a dia. “É a percepção do problema que leva à ação”, afirma.
Para ilustrar a importância de entender bem a dor antes de correr para a solução, Levine recorre a uma ideia atribuída a Albert Einstein: diante de uma hora para resolver um problema, o ideal seria gastar 55 minutos pensando nele e apenas cinco minutos na solução. Segundo o empreendedor, a IA acelera justamente a parte da construção, o que, na prática, libera mais tempo para discutir o problema com profundidade.
O erro que mais derruba startups, segundo Uri Levine
Mesmo com toda a tecnologia disponível, um problema antigo continua afundando negócios: montar o time errado e não corrigir isso a tempo. Levine chegou a essa conclusão depois de conversar com dezenas de fundadores de empresas que fecharam as portas.
Quando pergunta o motivo do fracasso, uma resposta é recorrente: “a equipe não era boa o suficiente”. No entanto, ao aprofundar a conversa, surge outro problema por trás disso.
“Aí eu pergunto: ‘Quando você percebeu o problema?’, e eles respondem: ‘no primeiro mês'”, diz Levine. “Se você soube no primeiro mês que o time não era o certo e não fez nada, o problema não foi o time. O problema foi que o CEO não tomou a decisão difícil.”
Por isso, a recomendação de Levine é transformar a avaliação de pessoal em um processo objetivo. Trinta dias após contratar alguém, o gestor deveria se perguntar: sabendo o que sei hoje, eu contrataria essa pessoa novamente?
- Se a resposta for “sim”, Levine recomenda reconhecer o profissional: “Dê a ele um aumento, ou participação na empresa.”
- Se a resposta for “não”, a decisão deve ser tomada na hora: “Mande embora. Pelo bem de todos.”
Para Levine, demitir alguém pode ser uma decisão dura, mas isso não torna a atitude cruel. “Uma contratação inadequada causa dano – a você, ao negócio e à própria pessoa. Porque ela merece ter sucesso, mas já está numa trajetória de não ter”, afirma. A lógica, segundo ele, é a mesma que vale para qualquer decisão empresarial: adiar uma escolha ruim não elimina o custo dela, só atrasa a conta.
Por que Uri Levine escolheu o Brasil como primeiro mercado
Não foi por acaso que o Brasil virou o primeiro mercado da Uri Levine Startup Academy. A escolha tem relação direta com a história do empreendedor por aqui: o Waze teve forte adoção no país, o Moovit também, e até seus livros encontraram bastante público no mercado brasileiro.
“Quero retribuir”, diz Levine. “O Brasil me ajudou a ter sucesso com o Waze, com o Moovit, com outras empresas.”
O empreendedor costuma dividir um ecossistema de startups em quatro pilares: empreendedores, investidores, engenheiros e experiência. Na avaliação dele, o Brasil avançou bastante nos três primeiros pilares ao longo dos últimos 15 anos. Já o quarto ainda tem espaço para crescer: a experiência acumulada de quem já passou pelo processo de criar, errar, crescer e tomar decisões difíceis. É exatamente nesse ponto que a Startup Academy pretende atuar.
A escola funciona de forma online e reúne mais de 70 aulas em vídeos curtos, além de sessões ao vivo de perguntas e respostas e uma comunidade voltada para discussão de problemas reais entre empreendedores. Todo o conteúdo em vídeo está disponível em inglês e em português — o que traz uma curiosidade, já que Levine não fala o idioma. A versão brasileira é produzida com inteligência artificial, usando a própria voz dele. “Eu não sei português, mas o resultado da dublagem é realmente incrível”, comenta.
A entrevista completa com Uri Levine está disponível no podcast Do Zero ao Topo, produção do InfoMoney que, toda semana, traz histórias de mulheres e homens de destaque no mercado brasileiro, com os desafios enfrentados ao longo do caminho e as estratégias usadas na construção de seus negócios.
Com informações de infomoney.com.br.