Uma vaga de emprego publicada pelo Google pode ter entregado, sem querer, os planos da empresa para o futuro do Discover, aquele feed de recomendações de artigos que aparece no celular de boa parte dos usuários. O anúncio busca um Principal UX Lead para o Discover e, nas entrelinhas (e também nas linhas bem explícitas), sugere que a ferramenta está prestes a passar por uma transformação e tanto: deixar de ser um simples recomendador de conteúdo para se tornar uma experiência movida por inteligência artificial, muito mais personalizada do que é hoje.
Pelo que descreve a vaga, o novo Google Discover deve antecipar os interesses de quem usa o serviço, ajudar as pessoas a concluírem tarefas e conectar tudo isso com conteúdos e serviços espalhados pelo ecossistema do Google. Ou seja, a ideia é tornar o feed mais interativo, mais personalizado e, principalmente, mais competitivo frente aos feeds das redes sociais. Inclusive, há indícios de que parte dessas mudanças já esteja em teste: recentemente apareceram sugestões do Meta Threads dentro do próprio Discover.
Se esse plano realmente sair do papel, editores e criadores de conteúdo podem sentir um baldinho de água fria — ou um balde de oportunidades, dependendo do ponto de vista. Afinal, o que está sendo descrito vai muito além de “melhorar recomendações”: o Google parece estar redesenhando o propósito do Discover para ajudar o usuário a agir sobre a informação, não só consumi-la.
Google Discover virando um “concierge” pessoal
Uma das mudanças mais marcantes é justamente essa: o Discover deixaria de ser um simples mecanismo de recomendação para se tornar algo parecido com um concierge — aquele profissional que resolve coisas e organiza serviços para outra pessoa. A pista está explícita na própria descrição da vaga:
“Liderar a visão de design e a execução para transformar o Discover em uma experiência de concierge proativa e hiperpersonalizada, que ajude os usuários a avançar em seus objetivos.”
A expressão “concierge proativa e hiperpersonalizada” indica que o Google quer que o Discover antecipe necessidades, em vez de apenas sugerir artigos com base em padrões de busca anteriores. Na prática, isso significa que, em vez de recomendar matérias sobre um assunto, o Discover poderia identificar um interesse contínuo (ou um objetivo) do usuário e sugerir informações, produtos, serviços e próximos passos para resolver aquilo de fato.
Essa visão conversa diretamente com o que o CEO do Google, Sundar Pichai, vem chamando de “busca agêntica” — um modelo baseado em tarefas, não apenas em busca de informação. Segundo Pichai:
“Sinto que, na busca, a cada mudança, você consegue fazer mais com ela. […] Se eu adiantar o relógio, muito do que hoje são apenas consultas de busca por informação vai virar busca agêntica. Você estará completando tarefas, com vários fluxos rodando ao mesmo tempo.”
A descrição completa da vaga reforça essa direção:
“Liderar a visão de design e a execução para transformar o Discover em uma experiência de concierge proativa e hiperpersonalizada, que ajude os usuários a avançar em seus objetivos. Equilibrar as capacidades de IA ao mesmo tempo em que se dá centralidade a vozes e fontes humanas. Desenvolver estratégias cuidadosas, centradas no usuário, para tornar o Discover uma experiência de maior impacto, que atenda uma base ampliada de consumidores e ajude os usuários já existentes a ir mais fundo, migrando de forma fluida da inspiração para a ação.”
Termos como “experiência de concierge”, “avançar em seus objetivos” e “da inspiração para a ação” mostram uma ruptura e tanto com o formato atual do Discover. Aliás, um artigo de pesquisa do Google de 2026 já descrevia um sistema de recomendação capaz de identificar a intenção semântica do usuário, sobretudo para entender os chamados atributos “soft” — altamente subjetivos e pessoais. O próprio artigo explica que:
- Não existe uma “verdade absoluta” que associe esses atributos subjetivos aos itens
- Os atributos em si podem ter interpretações imprecisas
- E podem ser subjetivos por natureza — ou seja, usuários diferentes podem interpretá-los de formas diferentes
Mais interação e mais inteligência artificial no feed
Uma coisa, porém, não deve mudar: o Discover continuará coletando dados de interação dos usuários. O que muda é como esses dados serão interpretados. A vaga dá essa pista ao mencionar que a pessoa contratada vai “liderar iniciativas estratégicas de design para redefinir as interações no feed, os formatos de conteúdo e as experiências de exploração orientadas por IA”.
Novos formatos de feed à vista
Outro ponto interessante é que o Google parece disposto a inovar nos formatos do feed, usando IA para aumentar o engajamento, mas também valorizando mais a presença de criadores humanos — o que, de quebra, pode ser positivo para editores e portais de notícias. A vaga descreve isso como “evoluir os formatos de feed escalando formatos habilitados por IA, desenhando novos mecanismos de engajamento e elevando vozes e perspectivas humanas no feed”.
Integração mais profunda com outros produtos do Google
Atualmente, o Discover é bastante atrelado à Busca, já que boa parte das pistas sobre os interesses do usuário vem justamente do histórico de pesquisas — por isso, inclusive, ele aparece como parte da Busca dentro do Google Search Console. A vaga, no entanto, indica que o profissional contratado precisará trabalhar junto com outras áreas do Google, incluindo o YouTube. O texto da vaga é direto:
“Você vai atuar em parceria estreita com a liderança executiva de Gestão de Produto, Engenharia, Ciência de Dados, Pesquisa de UX e parceiros entre organizações (YouTube, Shopping, Chrome e Android) para entregar uma experiência unificada.”
Google Discover de olho no público jovem
Outro detalhe chama atenção: o foco em conquistar o público jovem. A vaga não especifica exatamente qual faixa etária está mirando, mas descreve a busca por alguém com “histórico comprovado de definição de estratégia de produto para públicos jovens e de geração de product-market fit em ecossistemas de conteúdo competitivos”. Esse termo “product-market fit” se refere ao quanto um produto atende às expectativas do público para o qual foi pensado — nesse caso, o recado é claro: o Google quer alguém capaz de tornar o Discover mais atrativo, engajante e “grudento” para os usuários mais jovens, concorrendo de frente com as redes sociais.
Em resumo, por enquanto trata-se de uma vaga de emprego e não de um anúncio oficial — mas as pistas são numerosas demais para serem ignoradas. Se tudo isso realmente virar realidade, o Google Discover pode deixar de ser apenas uma vitrine de notícias para se tornar um verdadeiro assistente pessoal movido a IA, misturando conteúdo editorial, comércio e serviços numa única experiência. Para quem produz conteúdo e depende do Discover como fonte de tráfego, vale ficar de olho nos próximos passos dessa mudança.
Com informações de searchenginejournal.com.