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Boom da inteligência artificial sob dúvida: títulos dos EUA sobem com medo de calote — entenda o movimento

Por: Eduardo Carrega
15/10/2026
13:55h
Boom da inteligência artificial sob dúvida: títulos dos EUA sobem com medo de calote — entenda o movimento
Dúvidas sobre o boom da inteligência artificial derrubam ações de chips e elevam procura por títulos públicos nos EUA; entenda o movimento do mercado.
RESUMIR COM:

O apetite por segurança voltou a mandar na quinta-feira (15) nos mercados globais. Com investidores cada vez mais céticos sobre a sustentabilidade do boom da inteligência artificial, a corrida para os títulos públicos ganhou força, especialmente na dívida soberana dos Estados Unidos, que funciona como refúgio clássico em momentos de nervosismo.

Boom da inteligência artificial pressiona rendimentos dos títulos

Na prática, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos recuaram até 0,15 ponto percentual, chegando a 5,04% — o menor patamar em três semanas. Depois, no entanto, a trajetória se inverteu e os juros voltaram a subir, fechando em 5,10%. Gestores de fundos associaram esse vaivém à onda de vendas nas ações de fabricantes de chips e à preocupação crescente com o endividamento que vem bancando a expansão acelerada dos centros de dados.

Na prática, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos…

Chama atenção que essa valorização dos títulos tenha acontecido mesmo depois de os dados de inflação dos Estados Unidos, divulgados na quarta-feira (14), terem vindo acima do esperado — um cenário que, normalmente, derrubaria os preços dos papéis e empurraria os rendimentos para cima. Ou seja, o medo falou mais alto do que a lógica tradicional do mercado.

“Tivemos números de inflação significativamente acima das expectativas, mas o movimento de aversão ao risco se sobrepôs a tudo isso”, disse Ales Koutny, chefe de juros internacionais da Vanguard.

Segundo analistas, as quedas nos rendimentos foram ainda mais intensas por causa do forte posicionamento negativo acumulado contra a dívida pública desde a liquidação global no mercado de títulos, iniciada com a guerra no Irã, no fim de fevereiro. Assim, quando o clima vira, o movimento tende a ser mais brusco.

O efeito refúgio também apareceu na Alemanha: os rendimentos dos títulos alemães de dez anos, outro porto seguro tradicional, caíram 0,06 ponto percentual no fim da tarde, para 3,41%, puxados pelo aumento das compras.

“Bastaram alguns movimentos violentos em certos ativos de risco, e a consequente procura por portos seguros provocou oscilações desproporcionais, à medida que as pessoas zeravam suas posições vendidas”, disse Mike Riddell, gestor de fundos da Fidelity International.

Venda de ações de chips acende o alerta

Por trás dessa correria por segurança está um temor específico: o de que a venda de títulos usados para financiar centros de dados seja, na verdade, um sinal de alerta para toda a corrida por infraestrutura de IA — motor que vem impulsionando tanto o crescimento econômico dos EUA quanto a alta de Wall Street neste ano.

O Nasdaq 100, por exemplo, caía 0,5% no fim da manhã em Nova York, depois de já ter recuado 2% na quarta-feira, pressionado justamente pelas quedas nas ações de empresas de semicondutores. As ações da Western Digital e da Sandisk, fabricantes de chips de memória que estiveram entre as grandes beneficiárias da alta das empresas de chips em Wall Street neste ano, recuavam 5% e 3%, respectivamente. Já a Nvidia caía 2,1%, enquanto a Intel perdia 4,5%.

Para piorar o clima, a Anthropic informou aos investidores que sua receita no terceiro trimestre subiu quase 50%, para US$ 16,8 bilhões — um ritmo, porém, mais lento do que o registrado no início do ano e abaixo das expectativas de parte dos investidores, segundo reportagem do Financial Times publicada na quarta-feira.

“Os investidores estão apreensivos diante de qualquer notícia negativa que possa desencadear uma liquidação”, disse Marija Veitmane, chefe de estratégia de ações da State Street, acrescentando que “o mercado está muito, muito concentrado em ações de tecnologia”.

Veitmane completou que, dessa vez, “as preocupações com o crédito foram o estopim”. Em suas palavras: “No minuto em que surge alguma notícia negativa, a reação é: ‘vamos vender tudo'”.

Efeito dominó chega à Ásia e à Europa

O nervosismo não ficou restrito aos Estados Unidos. As sul-coreanas SK Hynix e Samsung Electronics sofreram outra forte liquidação, com quedas de 11,1% e 9,5%, respectivamente. No Japão, o Topix recuou 2,4%, enquanto o SoftBank, investidor da OpenAI, despencou 9,3%, e a Kioxia, fabricante de semicondutores e chips de memória, perdeu 12,3%.

Na Europa, o pequeno grupo de grandes empresas de tecnologia da região também sentiu a pressão: um índice do setor recuou 1,4%, e a holandesa ASML, maior empresa de tecnologia do continente, caía mais de 4%.

CoreWeave vira símbolo das dúvidas sobre o financiamento da IA

Além da reação nos mercados de ações e títulos, analistas apontam que alguns segmentos do ecossistema de inteligência artificial podem enfrentar dificuldades financeiras com efeitos que vão além do setor de tecnologia. Um dos principais focos de preocupação é a CoreWeave, empresa que aluga capacidade computacional para grandes grupos de tecnologia.

O spread dos swaps de risco de crédito (CDS) de cinco anos da companhia superou 11 pontos percentuais nesta semana — indicador que mede o custo de proteção contra um possível calote. Nesse patamar, na prática, o investidor paga mais de US$ 11 por ano para proteger US$ 100 em dívida, consideradas as condições do contrato. Esse salto reflete dúvidas crescentes sobre a capacidade da CoreWeave de financiar a expansão de sua própria infraestrutura.

Como consequência, as ações da empresa caíram 2% nesta quinta-feira, ampliando as perdas acumuladas na semana para quase 20%. Hank Calenti, estrategista de mercados globais do SMBC, afirmou que a onda de vendas foi impulsionada justamente pelas preocupações com a CoreWeave e com a demanda pelo aluguel de acesso a chips.

Como consequência, as ações da empresa caíram 2% nesta quinta-feira, ampliando as…Como consequência, as ações da empresa caíram 2% nesta quinta-feira, ampliando as…

“Esta é uma liquidação motivada pelo modelo de negócios”, disse Calenti. “Há temor sobre onde está a fragilidade no ecossistema.”

Em resumo, o episódio desta quinta-feira escancara um incômodo que já vinha crescendo nos bastidores: o apetite bilionário por data centers e chips de IA depende de um fluxo contínuo de crédito, e qualquer sinal de fragilidade nesse financiamento é suficiente para espalhar insegurança por bolsas e mercados de dívida ao redor do mundo.

Em resumo, o episódio desta quinta-feira escancara um incômodo que já vinha…

Com informações de redir.folha.com.br.

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