Líderes do setor de inteligência artificial admitiram, nesta quinta-feira (5), que a crescente insatisfação popular com a construção de data centers pode comprometer a maior expansão de infraestrutura tecnológica já registrada. A avaliação foi feita durante a conferência Future of AI, promovida pelo Financial Times, em Londres.
Segundo executivos presentes ao evento, o próprio setor de tecnologia contribuiu para alimentar essa oposição. As falas apontam que decisões recentes de reguladores e políticos para conter o avanço dos data centers de IA são reflexo direto desse desgaste com a população.
Por que a reação contra a IA preocupa o setor?
A preocupação ganhou força depois das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Nesse pleito, eleitores escolheram governadores contrários à instalação de data centers no Texas, na Geórgia e em Ohio. Além disso, 38 votações locais aprovaram restrições ao desenvolvimento desse tipo de infraestrutura.
Para representantes do setor, o resultado das urnas funcionou como um sinal de alerta. As empresas de tecnologia passaram a reconhecer que falharam em explicar à sociedade os impactos reais da expansão da IA.
Vik Bajaj, codiretor executivo da Prometheus, startup de IA apoiada por Jeff Bezos, comparou o momento a outro episódio recente de polarização. “A razão não é que as pessoas sejam luditas. É muito parecido com os protestos contra as máscaras durante a Covid-19. Isso se tornou um símbolo político”, afirmou.
Bajaj também reconheceu excessos do próprio mercado ao tratar do tema. “Como categoria profissional, passamos dois anos dizendo às pessoas, de maneira bastante irresponsável, que a IA mudaria o futuro do trabalho para pior, que elas perderiam o emprego, que seus filhos perderiam o emprego, que seus netos viveriam em um mundo irreconhecível. E, no último ano, mais ou menos, também estivemos flertando com a ideia de que se trata de uma crise existencial”, disse.
O que os executivos de tecnologia dizem sobre o erro de estratégia?
John Hanke, fundador da Niantic Spatial, empresa de modelos de mundo baseados em IA e responsável pelo jogo Pokémon Go, afirmou que o resultado eleitoral deve servir como ponto de reflexão para o setor. “Acho que esta eleição foi um grande alerta para fazermos uma pausa, pensarmos no que está acontecendo e abordarmos isso de uma forma talvez um pouco mais ponderada”, declarou.
Hanke reconheceu ainda que o ritmo acelerado de expansão não veio acompanhado de cuidado suficiente com a opinião pública. “Tem sido avançar, avançar, avançar, construir, construir, construir, e parte disso foi feito com a cabeça enterrada na areia”, afirmou.
Laboratórios de IA e grandes empresas de tecnologia já se comprometeram a investir trilhões de dólares em capacidade computacional nos próximos anos. O objetivo é atender à demanda crescente por modelos e produtos de IA. No entanto, esses projetos têm sido criticados pela disputa por recursos de energia e água, além da poluição e de outros impactos para moradores das regiões onde os data centers são instalados.
Como as empresas têm tentado responder às críticas?
Diante da pressão, empresas de IA e de data centers passaram a reforçar ações voltadas à imagem social dos projetos. OpenAI, Amazon e Microsoft anunciaram neste ano que deixarão de usar acordos de confidencialidade considerados controversos ao negociar com governos a instalação de novos data centers.
Outra medida foi a adesão de mais de 200 empresas, incluindo Amazon, Microsoft e Google, ao “Compromisso de Proteção ao Consumidor de Energia”, iniciativa do presidente Donald Trump. O acordo não tem caráter vinculante, mas busca evitar que os custos de eletricidade gerados pelos data centers sejam repassados aos consumidores.
Executivos de empresas de energia e data centers também reconheceram que o relacionamento com as comunidades locais precisa melhorar. Jeff Gustavson, chefe da divisão de novas energias da Chevron, resumiu o desafio. “Se você não consegue administrar esse relacionamento, se as comunidades não se beneficiam desses investimentos, se não se beneficiam de verdade, você enfrentará oposição”, disse.
Data centers viraram símbolo da desconfiança com a IA
Adam Eaton, diretor-executivo da britânica Virtus Data Centres, lembrou que a discrição sempre marcou esse tipo de instalação. “Em 2009, ninguém sabia o que era um data center. Os clientes queriam que fôssemos discretos, então fomos. Nossos prédios não tinham números nem logotipos”, afirmou. Segundo ele, a IA mudou esse cenário. “A IA realmente aumentou a visibilidade dos data centers no mercado. Cabe a nós, como setor, trabalhar mais para informar as comunidades.”
Outras vozes do setor levantaram uma hipótese diferente para explicar a resistência popular. Para elas, os data centers se tornaram o alvo mais concreto da insatisfação com a IA, justamente por representarem fisicamente uma tecnologia que já preocupa pela possibilidade de eliminar empregos.
Verity Harding, ex-chefe de políticas globais da DeepMind, braço de IA do Google, e hoje diretora do Projeto de IA e Geopolítica da Universidade Cambridge, resumiu o dilema. “De certa forma, só podemos culpar a nós mesmos”, afirmou, questionando ainda se as preocupações com os data centers são realmente sobre eles. “Será que é isso mesmo ou será que eles são apenas a coisa concreta contra a qual se pode votar e que se pode impedir?”, indagou.
O debate expõe um desafio que deve acompanhar o setor nos próximos anos: equilibrar a expansão bilionária da infraestrutura de IA com a confiança da população que vive ao redor desses projetos.
Com informações de redir.folha.com.br.