Um relatório divulgado recentemente pelo Anthropic Institute, ligado a Jack Clark, um dos fundadores da Anthropic, traçou cenários ousados sobre os rumos da economia americana até 2030. O documento cruza projeções de crescimento econômico, comportamento dos salários e níveis de desemprego, tudo sob a lente do avanço acelerado da inteligência artificial.
Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, Clark detalhou como um dos laboratórios mais influentes do setor de IA enxerga o curto prazo da economia. A conversa, conduzida pelos jornalistas John Burn-Murdoch e Sarah O’Connor, revela os bastidores de um estudo que mistura otimismo tecnológico com alertas sobre o mercado de trabalho.
Os números que chamam atenção

O ponto mais chamativo do relatório é a estimativa de que o PIB americano pode disparar até 15,4% em 2030, no cenário mais radical de impacto da inteligência artificial. Para efeito de comparação, sem a influência da IA, a projeção de crescimento seria de apenas 2%.
Mas o lado B dessa história tem um detalhe preocupante: no mesmo cenário extremo, o desemprego entre trabalhadores de conhecimento — aquelas funções mais intelectuais e administrativas — pode chegar a 17,9%. Ou seja, o mesmo avanço tecnológico que impulsiona a economia também pode deixar um rastro significativo de vagas extintas.
Pesquisa pura, sem narrativa pré-definida

Questionado sobre como espera que o público reaja a projeções tão fortes — de crescimento recorde a desemprego de dois dígitos —, Clark foi direto ao afirmar que o objetivo do trabalho é puramente investigativo.
“Produzimos esse tipo de trabalho movidos por um objetivo de pesquisa pura: descobrir qual é, de fato, a verdade. […] Não produzimos esse tipo de trabalho partindo de uma narrativa específica. Estamos compartilhando isso porque, se esses cenários acabarem se concretizando, provavelmente será necessário tomar uma série de decisões diferentes sobre o mundo.”
Segundo ele, o Anthropic Institute funciona como uma ponte entre informações que normalmente ficam restritas aos laboratórios de IA e o público em geral, permitindo que as pessoas entendam as diferentes visões que essas empresas têm sobre o futuro — desde quem trata a IA como “mais uma tecnologia normal” até quem acredita que uma singularidade tecnológica está próxima.
O que pode mudar até 2026

Um dos pontos mais interessantes da entrevista é a explicação de Clark sobre o que diferenciaria o cenário atual, relativamente estável no emprego, de um futuro com desemprego em massa entre trabalhadores de conhecimento. Para ele, tudo depende de “mudanças de fase” nas capacidades da IA — saltos abruptos que alteram completamente a forma como a tecnologia se espalha pelo mercado.
- A primeira mudança de fase, segundo Clark, aconteceu em 2025, na área de programação, quando os sistemas de IA superaram um limite difícil de mensurar e mudaram o padrão de adoção da tecnologia.
- A segunda ocorreu em 2026, na segurança cibernética — um avanço que, segundo ele, não era previsível com antecedência.
Nesses cenários mais extremos, a avaliação é que os sistemas de IA deixam de dominar apenas tarefas isoladas e passam a executar conjuntos inteiros de atividades que compõem um emprego. Isso já estaria impulsionando o surgimento de empresas enxutas, com poucos funcionários, forte uso de processamento de dados (tokens) e alta competitividade — um movimento que, segundo Clark, já é percebido em companhias como a Stripe.
Por que ainda é cedo para sentir o impacto no emprego
Apesar dos números do relatório, Clark pondera que os efeitos reais sobre o mercado de trabalho costumam demorar para aparecer — e normalmente vêm acompanhados de grandes solavancos econômicos, como recessões, que são justamente os momentos em que empresas revisam seus padrões de contratação.
Ao ser provocado sobre o que poderia desencadear uma recessão nos próximos dois anos — inclusive a possibilidade de estouro de uma “bolha da IA” —, o cofundador da Anthropic respondeu com cautela, mas sem descartar cenários imprevisíveis:
“Poderia ser quase qualquer coisa. Veja, estamos vivendo em um mundo muito empolgante.”