As ações da Oracle deram um salto nesta quinta-feira (10) depois que a gigante de tecnologia revelou um crescimento robusto na receita do seu negócio de centros de dados. O motivo é simples: a empresa começou a entregar a capacidade computacional necessária para cumprir contratos bilionários firmados com laboratórios de inteligência artificial.
Fundada por Larry Ellison, a companhia faturou US$ 7,4 bilhões (R$ 37,7 bilhões) só com a unidade de infraestrutura no último trimestre. Além disso, projetou que o crescimento anual de todo o negócio de nuvem deve acelerar para algo entre 64% e 70% — números que ficaram acima do que os analistas de mercado esperavam.
Aposta em virar fornecedora de infraestrutura para IA

Essa previsão animadora reforça que a Oracle está avançando em uma jogada arriscada e cara: abandonar seu perfil tradicional de empresa de software corporativo para se transformar em uma provedora de infraestrutura voltada a laboratórios de inteligência artificial, como a OpenAI. Vale lembrar que as duas empresas têm um contrato astronômico de US$ 300 bilhões (R$ 1,5 trilhão).
Com a notícia, os papéis da Oracle chegaram a subir cerca de 6% no after-market, logo após o fechamento regular da bolsa.
Capacidade em operação e obras avançando

Clay Magouyrk, copresidente-executivo da empresa, contou que a Oracle colocou em funcionamento 850 megawatts de capacidade em centros de dados apenas no trimestre. No campus de Abilene, no Texas — que vai atender diretamente à OpenAI e tem capacidade total prevista de 800 megawatts —, seis dos oito edifícios planejados já foram entregues.
“Estamos explorando todas as diferentes vias para colocar capacidade em operação. Continuamos muito entusiasmados e bastante confiantes em nossa capacidade de seguir cumprindo as obrigações contratuais”, disse Magouyrk a investidores.
No balanço geral, a receita total da Oracle cresceu 30% na comparação anual, somando US$ 19,3 bilhões (R$ 99,5 bilhões) nos três meses encerrados em agosto. Segundo a empresa, o resultado reflete a “demanda ampla e contínua por infraestrutura e aplicações em nuvem”.
Carteira de contratos ultrapassa US$ 660 bilhões

Só neste trimestre, a Oracle fechou novos contratos de fornecimento de capacidade em centros de dados no valor de US$ 30 bilhões (R$ 153,1 bilhões). Com isso, a carteira total de contratos da companhia chegou à marca de US$ 664 bilhões (R$ 3,3 trilhões).
“A melhora da receita no trimestre e o aumento dos contratos assinados parecem ser evidência suficiente de que a empresa está executando bem a expansão”, avaliou Dec Mullarkey, diretor-gerente da SLC Management.
Para acompanhar concorrentes muito maiores no mercado de nuvem, como Amazon e Google, a Oracle tem esticado ao máximo sua capacidade financeira na corrida por infraestrutura de IA capaz de atender grandes clientes corporativos.
Gastos bilionários e caixa no vermelho
As despesas de capital saltaram para US$ 28,5 bilhões (R$ 145,4 bilhões), um salto e tanto frente aos US$ 8,5 bilhões (R$ 43,4 bilhões) do mesmo período do ano passado. Desse total, US$ 11,4 bilhões (R$ 58,2 bilhões) vieram de pagamentos antecipados de clientes por chips usados nos centros de dados — ainda assim, o valor superou a receita total da Oracle no mesmo trimestre do ano anterior. O lucro líquido da empresa ficou em US$ 4,7 bilhões (R$ 24 bilhões).
A companhia já havia sinalizado que pretende investir US$ 70 bilhões (R$ 357,2 bilhões) no próximo ano fiscal para bancar a construção de novos centros de dados, valor bem acima dos US$ 55,7 bilhões (R$ 284,2 bilhões) gastos no ano encerrado em maio. Nesta quinta, a Oracle informou que seu fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 5 bilhões (R$ 25,5 bilhões) no trimestre.
Para sustentar esse ritmo de investimentos, a empresa concluiu uma venda de ações de US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões), parte de um pacote maior de US$ 50 bilhões (R$ 255,2 bilhões) que inclui também uma grande emissão de títulos de dívida.
Riscos no radar dos investidores
Nem tudo são flores no caminho da Oracle. Em julho, a agência de classificação de risco S&P rebaixou a nota de crédito da empresa para apenas um nível acima do grau especulativo, apontando como justificativa a dependência de poucos clientes e a incerteza sobre quando o negócio de centros de dados para IA vai efetivamente dar lucro.
As ações da companhia, aliás, já caíram quase pela metade desde o pico histórico registrado logo depois do anúncio do acordo com a OpenAI, em setembro de 2025.
“Temos muitos clientes que nos dizem que a Oracle está arriscada demais para eles”, afirmou Gabriela Borges, analista do Goldman Sachs.
A empresa também enfrentou obstáculos em diversos projetos de grande porte, com atrasos na liberação de licenças e resistência de comunidades locais, além de exigências regulatórias mais rígidas para suas instalações — reflexo direto da piora na sua qualidade de crédito.
Magouyrk reconheceu que as obras avançam bem na maioria dos locais, mas esbarram em limitações de fornecimento de energia e em processos de licenciamento mais lentos. Segundo ele, a Oracle mantém “opções de contingência” para lidar com esses gargalos. Para tentar tranquilizar o mercado, a empresa também tem buscado financiamento junto aos próprios clientes para bancar a compra de chips, além de ter promovido demissões que já somam dezenas de milhares de postos de trabalho eliminados.