O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que a indústria de inteligência artificial precisa assumir os riscos que ela mesma cria e apresentar soluções concretas, em vez de apenas alertar sobre perigos futuros. A declaração foi dada em entrevista ao site Axios, publicada no sábado (3), e reacende o debate sobre quem deve controlar o avanço acelerado da tecnologia.
Para o público, a fala de Bessent sinaliza que o governo americano não pretende, por ora, impor novas regras federais ao setor. Isso significa que a responsabilidade por evitar falhas graves de segurança em sistemas de IA continuará, na prática, nas mãos das próprias empresas que desenvolvem esses modelos.
O que motivou a crítica de Bessent sobre riscos da IA
Bessent reagiu a pedidos feitos em setembro por nomes importantes do setor. Dario Amodei, CEO da Anthropic PBC, Sam Altman, chefe da OpenAI, e Elon Musk, da xAI Corp., defenderam que a indústria desacelerasse o desenvolvimento dos modelos mais avançados, alegando riscos crescentes para a humanidade.

Bill Gates, cofundador da Microsoft, foi além: alertou que a tecnologia é poderosa o suficiente para causar “um bilhão de mortes” e pediu regulamentação governamental mais firme.
Bessent discordou do tom desses alertas. “Eu acredito que temos que estar preparados para qualquer cenário, mas, por outro lado, esse alarmismo sem soluções por parte de alguns membros da comunidade de IA não é liderança”, disse ele ao Axios.
Segundo o secretário, cabe aos próprios laboratórios de IA assumir a responsabilidade pelos riscos que criam. “São as pessoas nos laboratórios que precisam assumir a responsabilidade, e eu concordo com isso”, afirmou. Ele acrescentou que, na avaliação dele, parte do setor já começa a caminhar nessa direção.
Trump também rejeita regulamentação federal
O presidente Donald Trump classificou os alertas mais pessimistas sobre os riscos da IA para a humanidade como um “embuste”. Para ele, os Estados Unidos precisam acelerar o desenvolvimento da tecnologia para não perder espaço frente à China.
Bessent reforçou essa posição: “Não podemos perder nossa liderança para os chineses”, disse ao Axios.
Em encontro com executivos de peso do setor, entre eles Musk, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, Mark Zuckerberg, da Meta Platforms Inc., o CEO da Palantir Technologies Inc., Alex Karp, e o presidente da OpenAI, Greg Brockman, Trump descartou qualquer nova regulamentação federal para IA.
“Há uma crença de que deve haver uma enorme autorregulamentação, e automaticamente já temos regulamentação com o Departamento de Justiça, o FBI e tudo mais, mas a autorregulamentação é muito importante”, disse Trump a jornalistas na ocasião. Em vez de leis específicas, ele apoiou um acordo não vinculante que prevê auditorias externas para avaliar a segurança dos sistemas de IA.
Como fica a relação entre EUA e China na área de IA
Bessent contou ao Axios que os Estados Unidos também vão tentar reduzir riscos por meio de um sistema bilateral de notificações com a China. A ideia é compartilhar alertas sobre incidentes graves e ajudar os dois governos a agir antes que um problema de IA se espalhe globalmente.
Em setembro, Bessent e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, discutiram o tema em Nova York. Os dois países concordaram em criar um diálogo EUA-China sobre inteligência artificial, buscando um entendimento comum sobre benefícios e ameaças da tecnologia. O encontro ocorreu pouco antes da cúpula entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping, em Washington, onde a IA também esteve na pauta.
Segundo a agência de notícias chinesa Xinhua, Xi disse a Trump que os dois países podem continuar trocando opiniões sobre riscos e benefícios da IA e trabalhar juntos para evitar o uso indevido da tecnologia.
Bessent afirmou que, nas conversas com a China, os riscos discutidos incluíram agentes de IA descontrolados e o uso da tecnologia por atores não estatais em ameaças cibernéticas ou biológicas. Ele destacou ainda a preocupação com modelos chineses menos restritos.
“Muitos desses modelos chineses são muito poderosos, não tão poderosos quanto os modelos americanos, mas você acaba com algo que tem 80%, 90% da potência, sem barreiras de proteção, que pode ser importado para qualquer lugar do mundo”, disse Bessent ao Axios.
“Aceleração segura” é a aposta do governo americano
Questionado sobre os pedidos de desaceleração feitos por executivos do setor, Bessent foi direto: “Bom, então eles que desacelerem.” Para o secretário, a prioridade do governo americano é outra.
“Queremos uma aceleração segura”, afirmou. Ele repetiu, na sequência, que a responsabilidade por evitar danos graves é dos próprios laboratórios que desenvolvem os sistemas.
A fala resume a posição atual da gestão Trump: manter o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial sem criar novas barreiras regulatórias, apostando na autorregulamentação da indústria e em acordos internacionais, como o diálogo com a China, para conter riscos mais graves.
Com informações de infomoney.com.br.