As ações ligadas à inteligência artificial sofreram nova rodada de perdas nesta semana, a terceira onda de instabilidade recente nos mercados de tecnologia. O movimento gerou uma estabilização discreta nesta sexta-feira (6), mas analistas já consideram essa turbulência mais preocupante do que as anteriores.
O cenário reacendeu uma pergunta que já circula há meses entre investidores: será que a bolha da IA está finalmente prestes a estourar? Ainda não há resposta definitiva. Segundo Katie Martin, do Financial Times, só nos próximos dias será possível saber se essa oscilação vai se aprofundar ou se tratará de mais um alarme falso.
Por que a bolha da IA preocupa o mercado agora?
A tecnologia de inteligência artificial funciona, isso ninguém questiona. Mas a comparação histórica preocupa: a internet também funcionou muito bem no fim dos anos 1990 e, ainda assim, provocou um colapso nos mercados há 25 anos.
Hoje, os sinais de euforia insustentável aparecem em vários pontos: níveis elevados de endividamento, estruturas de financiamento cada vez mais complexas, dúvidas sobre o potencial real de geração de receita das empresas do setor e casos de financiamento circular difíceis de explicar.
Segundo o BIS (Banco de Compensações Internacionais), quase 29% dos acordos de investimento de empresas de IA envolvem outras companhias do próprio setor. Além disso, mais da metade dos recursos investidos nessas empresas vem de outras empresas de IA. Em uma eventual crise, esse tipo de financiamento circular pode se transformar rapidamente em um efeito dominó de desconfiança entre as próprias companhias.
O que pode ter disparado a nova onda de instabilidade?
O gatilho mais recente parece estar ligado à política americana. As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, realizadas nesta semana, deram vitórias expressivas ao Partido Democrata no Congresso e em disputas estaduais.
A reação inicial do mercado foi positiva. As Bolsas subiram no mundo todo, em parte pelo alívio de um resultado claro e sem contestação, em parte pela expectativa de que um Congresso mais equilibrado possa trazer mais previsibilidade aos mercados e acelerar o fim da guerra no Irã.
O preço do petróleo caiu para menos de US$ 100 (R$ 550) o barril, depois de ter chegado a US$ 118 (R$ 649) no fim do mês passado. O resultado eleitoral refletiu a insatisfação da população com os preços elevados de energia, impulsionados pela guerra.
No entanto, o otimismo durou apenas um dia. Isso porque os eleitores também deixaram claro, em consultas realizadas em vários estados, que rejeitam a instalação de grandes data centers em seus bairros, por causa do consumo elevado de energia e água dessas estruturas.
O que muda para as empresas de tecnologia?
Em quase todos os casos de consulta popular sobre o tema, os eleitores se posicionaram contra as grandes empresas de tecnologia. O resultado aponta para um ambiente regulatório e de licenciamento bem mais rigoroso para um setor que sustenta uma fatia relevante da economia americana e dos mercados globais.
Frank Flight, estrategista da Citadel Securities, afirmou em nota na quinta-feira (5) que parte dos projetos de data centers deve simplesmente migrar de estados menos receptivos para outros mais favoráveis. Segundo ele, ainda assim, esses projetos devem sair do papel.
“Garantir locais alternativos, fornecimento de energia e aprovações leva tempo. Portanto, esse ajuste ainda pode atrasar significativamente a implantação e elevar os custos”, disse Flight. Ele acrescentou: “Esperamos, assim, alguma moderação no impulso de curto prazo sobre o crescimento e a inflação decorrente das construções e da demanda por recursos associada a elas, além de um impacto menor sobre o investimento acumulado e as necessidades de financiamento.”
As empresas de tecnologia mais diversificadas, principalmente as que já garantiram capacidade em data centers, vêm se saindo relativamente bem nesta nova onda de turbulência. Já as companhias com negócios concentrados na expansão da infraestrutura de IA têm registrado perdas expressivas.
“Com essas avaliações, o investimento em IA é como um tubarão que precisa continuar nadando para sobreviver”, afirmou Trevor Greetham, chefe de investimentos multissetoriais da Royal London Asset Management.
Qual o tamanho do risco em caso de colapso?
Antes das eleições de meio de mandato, em outubro, Dario Perkins, da consultoria de pesquisa TS Lombard, traçou um cenário para um possível colapso dos investimentos em IA. Boa parte da análise envolve projeção, mas Perkins estima que, em um cenário extremo, as ações americanas poderiam perder pelo menos 30% de seu valor.
Nesse mesmo cenário, as perdas com crédito chegariam a US$ 200 bilhões (R$ 1,1 trilhão), acompanhadas por uma onda de calotes de dívidas ligadas ao setor de tecnologia.
Por ora, o que existe é um conjunto de sinais de alerta que já eram conhecidos há meses, somados a um gatilho concreto: a resposta das urnas contra a expansão descontrolada de data centers. Resta saber se essa combinação será suficiente para transformar o nervosismo recente em uma correção mais profunda do mercado de IA.
Com informações de redir.folha.com.br.