A Bolsa brasileira pode ganhar espaço entre investidores depois da correção nas ações globais ligadas à inteligência artificial. Segundo especialistas, o movimento pode estimular uma nova transferência de recursos para mercados emergentes e empresas da chamada economia real, especialmente aquelas negociadas a preços mais baixos e com geração de caixa.
A mudança de direção ganhou força após declarações recentes de líderes da indústria de IA indicarem mais cautela no desenvolvimento dos modelos avançados. Embora a reação inicial tenha sido de venda de papéis do setor, analistas avaliam que o capital não deve deixar a renda variável de forma generalizada. Em vez disso, a tendência seria a migração para ativos menos dependentes de expectativas de crescimento no longo prazo.
Bolsa brasileira tem setores ligados à economia real

Para Flavio Terni, cofundador da Revert, o Brasil está entre os candidatos naturais a receber parte desse fluxo. A avaliação considera a composição da Bolsa brasileira, que tem baixa exposição direta à inteligência artificial e reúne empresas de segmentos tradicionais.
“A Bolsa brasileira praticamente não tem IA na composição. Ela é formada por bancos, energia, commodities e consumo. Quando o investidor reduz a concentração em tecnologia americana, ele procura exatamente empresas da economia real, com geração de caixa e dividendos”, afirma.
Na visão de Terni, bancos, seguradoras, companhias de energia elétrica e empresas ligadas a commodities podem ser alguns dos principais beneficiários. Além disso, a expansão da própria inteligência artificial tende a aumentar a procura por eletricidade para abastecer data centers, o que pode favorecer empresas do setor elétrico.
Assim, a Bolsa brasileira aparece como uma alternativa para quem procura ativos relacionados à economia real. No entanto, a entrada de recursos não depende apenas da correção das ações de tecnologia, já que os investidores também observam as condições econômicas e políticas de cada país.
Correção da IA ocorre com ativos brasileiros descontados

Gabriel Pinheiro, da GT Capital, afirma que a correção do setor de IA acontece em um momento no qual os ativos brasileiros são negociados com descontos relevantes em comparação com outros mercados. Para ele, essa combinação pode melhorar a percepção sobre a Bolsa brasileira entre investidores estrangeiros.
O especialista ressalta, porém, que o investidor internacional analisa mais do que o preço dos papéis. Juros, inflação, câmbio, situação fiscal e cenário político também entram na decisão. Ainda assim, ele avalia que “uma rotação global pode recolocar o Brasil no radar”.
De acordo com Pinheiro, bancos, petróleo, mineração, siderurgia, utilities e infraestrutura seriam os primeiros segmentos a receber recursos que saíssem das grandes empresas de tecnologia. Em um segundo momento, se o risco doméstico diminuir e os juros continuarem recuando, construção civil, varejo, consumo e small caps também poderiam se beneficiar.
Movimento de capital deve continuar, dizem especialistas

Celso Camilo, professor da Universidade Federal de Goiás, considera que os movimentos de rotação de capital devem persistir enquanto o mercado ajusta suas expectativas sobre o retorno dos investimentos em IA. Para ele, esse processo pode manter a Bolsa brasileira no campo de atenção dos investidores, ainda que ocorram oscilações.
“O movimento de pêndulo vai continuar acontecendo, mas tende à consolidação conforme os retornos dos investimentos começarem a aparecer”, afirma.
Camilo também identifica oportunidades em educação, segurança da informação, serviços jurídicos e mídia, setores que podem capturar efeitos da adoção crescente da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, atividades relacionadas ao bem-estar podem ganhar demanda como consequência da saturação digital.
Na direção oposta a uma interrupção brusca, uma análise do Goldman Sachs indica que os receios atuais em torno da IA não devem provocar uma desaceleração relevante dos investimentos globais em infraestrutura tecnológica. Dessa forma, o cenário ainda aponta para continuidade dos aportes no setor, embora com expectativas mais calibradas.
Para Terni, episódios anteriores de estresse em empresas de tecnologia mostram que o dinheiro não necessariamente abandona o mercado: ele pode apenas mudar de destino. Nesse contexto, a Bolsa brasileira surge como uma das alternativas mais baratas ligadas à economia real.
“O padrão já apareceu em episódios anteriores de estresse em tech: o dinheiro não sai do mercado, ele muda de endereço. E o endereço da economia real, hoje, tem poucos lugares mais baratos que a bolsa brasileira”, conclui Terni.