O boom da IA industrial está movimentando o caixa das três maiores empresas de engenharia da Europa, mas cada uma delas decidiu apostar suas fichas de um jeito diferente. Enquanto a Schneider Electric segue os passos da Siemens e investe pesado em software, a ABB prefere reforçar sua força nos equipamentos físicos. O resultado dessa disputa estratégica são negócios bilionários que estão redesenhando o setor industrial europeu.
As três companhias elevaram recentemente suas projeções de lucro e aproveitaram ações valorizadas, além de balanços sólidos, para fechar aquisições de peso. Não é exagero dizer que cada uma delas assinou, nos últimos dois anos, o maior negócio da própria história — um reflexo direto de como a corrida pela IA industrial tem acelerado decisões que, em outros tempos, talvez levassem mais tempo para amadurecer.

A aposta pesada da Schneider em software
O capítulo mais recente dessa disputa aconteceu na semana passada, quando a francesa Schneider anunciou a compra do grupo americano de software de engenharia PTC por quase US$ 24 bilhões. Segundo a Dealroom, trata-se da maior transação entre Europa e América do Norte desde 2021 — um número que por si só já mostra o tamanho da ambição por trás do movimento.
Apesar de fabricarem desde disjuntores até sistemas que operam fábricas inteiras e trens de alta velocidade, essas gigantes industriais também têm direcionado bilhões para produtos capazes de fornecer energia, gerenciar e resfriar os data centers que se multiplicam junto com o avanço da inteligência artificial. Ou seja, a infraestrutura por trás da IA virou um campo de batalha tão importante quanto os próprios algoritmos.
Como a Europa ficou de fora, em boa parte, da disputa pelos modelos de IA voltados ao consumidor final, seus gigantes industriais decidiram mirar em outra frente: a infraestrutura que sustenta esse ecossistema. Além disso, há uma corrida paralela pela chamada IA industrial, um segmento ainda em formação que promete transformar os enormes volumes de dados gerados por fábricas e linhas de produção em ganhos reais de eficiência.
“Cada empresa está seguindo sua própria estratégia e fazendo aquisições compatíveis com ela. Os balanços são sólidos, há fluxo de caixa livre suficiente e elas têm boa visibilidade sobre a demanda por data centers”, afirmou Kulwinder Singh Rajpal, analista da AlphaValue.
O presidente-executivo da Schneider, Olivier Blum, descreveu o acordo com a PTC como a criação de uma “potência completa em software e IA”, unindo os medidores de energia, sistemas de resfriamento e dispositivos de controle da francesa aos softwares do grupo americano, usados para projetar, fabricar e manter produtos. Segundo a empresa, “à medida que a inteligência passa a ser cada vez mais incorporada a produtos, máquinas, processos e sistemas de energia, surgem novas oportunidades significativas”.
No entanto, nem todo mundo comprou essa ideia de imediato. As ações da Schneider caíram 10% no dia do anúncio, e analistas da Jefferies demonstraram preocupação de que o negócio pudesse “diluir” as áreas de gestão de energia e data centers, questionando um aporte tão grande em software e IA justamente num momento de desconfiança crescente em relação ao setor.
ABB escolhe caminho oposto e aposta em equipamentos
Enquanto isso, a ABB trilhou outro rumo ao adquirir, por US$ 5,5 bilhões, a fabricante britânica de componentes industriais Rotork. A empresa suíça até conta com 2.000 engenheiros de software próprios, mas a operação deixou claro seu foco nos equipamentos físicos voltados à eletrificação e à automação.
Peter Voser, presidente do conselho da ABB, não escondeu o contraste com as concorrentes ao falar sobre o posicionamento da empresa em fusões e aquisições.
“Não somos uma empresa que compra companhias de software ou de IA… não somos favoráveis a adquirir algo que não dominamos completamente. Tentamos desenvolver por conta própria… do zero”, afirmou Voser em entrevista no mês passado.
Para Rajpal, da AlphaValue, a ABB está mais concentrada em equipamentos voltados a empresas de serviços públicos, grupos industriais, companhias de transporte e data centers — o que, segundo ele, “mostra que não é necessariamente preciso ter software caro para obter maior rentabilidade quando se ocupa uma posição de liderança no mercado”.
Siemens foi pioneira e vê estratégia confirmada
Banqueiros afirmam que a ABB ainda tem fôlego financeiro para fechar mais negócios, citando relatos anteriores sobre um possível interesse na Legrand, fabricante de interruptores e tomadas avaliada em € 36 bilhões. Nos últimos dez anos, a ABB gastou quase US$ 13 bilhões em aquisições — bem abaixo dos US$ 38 bilhões da Schneider e dos US$ 28 bilhões movimentados pela Siemens AG em suas próprias operações, segundo dados das empresas.
Vale lembrar que a Siemens, maior empresa de engenharia da Europa, foi quem abriu esse caminho primeiro, ao comprar a UGS por US$ 3,5 bilhões há quase duas décadas. No ano passado, a companhia concluiu a aquisição da Altair Engineering por US$ 10 bilhões, empresa que desenvolve softwares para os setores automotivo, aeroespacial e de energia.
Por isso, não é surpresa que a Siemens veja no movimento atual das rivais uma espécie de validação tardia de sua própria estratégia. “Os acontecimentos recentes no mercado confirmam que já estávamos no caminho certo há uma década, ao combinar os mundos físico e digital”, afirmou a empresa. “O fato de outros participantes do mercado estarem agora seguindo o mesmo caminho apenas reforça essa constatação.”

Em resumo, o boom da IA industrial está forçando as gigantes europeias a escolher entre dois caminhos: investir pesado em software para dominar a inteligência que roda dentro das máquinas, ou fortalecer ainda mais o domínio sobre os equipamentos físicos que sustentam fábricas, data centers e redes de energia. Seja qual for a aposta, o mercado segue de olho em quem vai conseguir transformar esses bilhões investidos em resultado concreto.


Com informações de redir.folha.com.br.