O CEO da Shopify, Tobi Lütke, revelou que a resposta dos funcionários à pergunta sobre uso de IA inserida nas avaliações de desempenho da empresa, na prática, não fazia diferença nenhuma. Segundo ele, o importante era simplesmente ter a pergunta ali, porque isso “dá à empresa uma reputação a manter”. A declaração foi feita no podcast Sources e joga luz sobre como a gigante do comércio eletrônico vem lidando internamente com a adoção de inteligência artificial.
Essa história começou em abril de 2025, quando Lütke enviou um memorando interno afirmando que “o uso reflexivo de IA agora é uma expectativa básica na Shopify”. O documento também trazia uma frase direta: “Vamos adicionar perguntas sobre uso de IA ao nosso questionário de avaliação de desempenho e de pares”. Além disso, o memorando deixava claro que os times precisariam justificar por que a inteligência artificial não poderia realizar determinada tarefa antes de pedir mais gente ou mais recursos para a área.
O episódio que reacendeu o debate sobre IA na Shopify
As declarações mais recentes foram dadas ao jornalista Alex Heath, em episódio publicado em 28 de outubro e gravado no escritório da Shopify em Toronto. Nessa conversa, Lütke também comentou que um funcionário cético em relação à IA, que prefere “ficar na dele” sem se engajar com a tecnologia, dificilmente vai se tornar um dos melhores desempenhos da empresa — afinal, ao redor dele, todo mundo já está trabalhando com agentes de IA no dia a dia.
Heath quis saber se a pergunta sobre IA e a regra do headcount ainda estavam valendo um ano e meio depois do memorando original. Lütke respondeu que ambas as práticas já aconteceram de forma natural dentro da empresa. “Eu não preciso mais ficar impondo esse tipo de coisa”, afirmou.
Ele também contou que, de fora, o memorando foi visto como algo controverso, mas que dentro da própria Shopify a repercussão foi bem menor. Segundo o executivo, mais gente dentro da empresa só prestou atenção no assunto depois que a imprensa “fez um estardalhaço” em cima dele. Para Lütke, isso é sinal de que a Shopify já havia passado pela transição muito antes de virar notícia.
Curiosamente, ele disse nem saber ao certo se a pergunta sobre IA continua presente na avaliação atual da empresa. Ele a descreveu como uma questão de avaliação entre pares, sobre o quão reflexivamente um colega aparece com um protótipo feito com IA — e admitiu, sem rodeios, que “às vezes rola um jeitinho” nas respostas. Ou seja, o conteúdo da resposta em si nunca foi o ponto central.
Céticos de IA dificilmente viram destaque, diz CEO
Saindo do tema da avaliação, Lütke emendou falando sobre quem resiste à inteligência artificial no ambiente de trabalho. Ele citou projetos de código aberto que baniram contribuições feitas com IA e disse achar divertidos os debates sobre se um código foi “esculpido à mão por humanos ou de alguma forma calculado pela matemática”. Na visão dele, um bom código deveria ser aceito de qualquer jeito, venha de onde vier.
Para o executivo, toda empresa precisa decidir claramente para quem ela é — e para quem ela não é. Segundo ele, “acentuar o desalinhamento com as pessoas que você não quer é quase mais importante do que ter uma boa página de carreiras”.
Um cético de IA que está “só tentando passar despercebido” nunca vai ser um dos melhores desempenhos numa empresa onde todo mundo ao redor usa agentes de IA para fazer o trabalho.
Lütke defende que as empresas deixem isso bem explícito, porque todo mundo merece trabalhar num lugar onde “é, ou tem uma chance real de se tornar, um dos melhores desempenhos”. Assim que fica evidente que esse caminho não é possível para alguém, segundo ele, a própria Shopify também busca ajudar essa pessoa a procurar outro lugar mais alinhado com o seu perfil.
As “granadas de enrolação” citadas em setembro
Em outra entrevista, dessa vez no podcast Knowledge Project, publicada em 15 de setembro, Lütke já havia comentado que a IA acabou piorando um tipo específico de trabalho malfeito dentro da Shopify. Os próprios funcionários criaram um apelido para esse fenômeno: quando um conteúdo gerado por IA é repassado a um colega sem nem ter sido lido antes, eles chamam isso de “granada de enrolação”.
Por que isso importa
No fim das contas, o CEO da Shopify admite que a pergunta sobre IA nas avaliações servia mais para construir uma reputação do que para medir algo de verdade. Ela mede apenas a prontidão de alguém em recorrer à inteligência artificial — mas não diz nada sobre o que vem depois. As tais “granadas de enrolação” mencionadas em setembro entram exatamente nesse ponto cego: o momento em que o material produzido por IA chega a um colega sem qualquer revisão.
Em resumo, uma pergunta de avaliação sobre adoção de IA não revela a um líder de equipe se alguém realmente confere os rascunhos gerados por inteligência artificial antes de eles seguirem para um editor ou um cliente.
O que esperar daqui para frente
Mais cedo na entrevista, Lütke também disse não esperar que o pessimismo público em torno da IA dure muito tempo, já que cada vez mais gente vai passar a usar a tecnologia por conta própria. Segundo ele, serão as próprias experiências de uso que vão, aos poucos, dissolver esse ceticismo. Por fim, o executivo não revelou se a pergunta sobre IA continuará presente no próximo ciclo de avaliações da Shopify.
Com informações de searchenginejournal.com.