A China deu mais um passo para apertar o cerco sobre tecnologias sensíveis de inteligência artificial. Nesta sexta-feira, o governo chinês propôs novos controles de exportação de IA para 23 tecnologias do setor, incluindo modelos, agentes e clusters de computação. A medida é vista como mais um capítulo da disputa geopolítica entre Pequim e Washington, já que o país justifica a decisão como forma de proteger o que considera vital para sua segurança nacional.
O que muda na exportação de IA chinesa
De acordo com o Ministério do Comércio da China, as propostas de exportação de IA abrangem a implantação de modelos no exterior quando esses sistemas carregam tecnologia considerada restrita. Por outro lado, o pacote deixa de fora o acesso feito por meio de interfaces de programação de aplicativos (as famosas APIs), além de sites, aplicativos e plataformas de software como serviço.
Essa distinção não é à toa. Na prática, ela permite que gigantes chinesas de IA, como DeepSeek e Alibaba, continuem avançando internacionalmente sem travas, enquanto Pequim ganha mais controle sobre o que realmente pode sair do país em termos de tecnologia sensível.
Modelos chineses ganharam força lá fora


Não é novidade que os modelos de IA desenvolvidos na China vêm conquistando espaço fora do país. Isso aconteceu principalmente por causa dos preços mais competitivos e da evolução técnica desses sistemas, um movimento que ganhou força desde que o modelo R1, da DeepSeek, apareceu no início do ano passado. Com esse crescimento, porém, aumentou também a pressão sobre Pequim para decidir o quanto deve proteger o setor de olhares e mãos estrangeiras.
Aliás, a Reuters já havia noticiado em julho que autoridades chinesas discutiram com grandes empresas de tecnologia — entre elas Alibaba, ByteDance e Z.AI — a possibilidade de restringir o acesso internacional aos modelos mais avançados do país, incluindo versões ainda nem lançadas.
Segurança cibernética entra na conta
Outro ponto que pesa nessa equação é o risco de uso malicioso da IA. Capacidades de modelos de ponta, como o Mythos, da Anthropic, escancararam o potencial dessa tecnologia para turbinar ataques cibernéticos — algo que preocupa Pequim e empurra empresas chinesas a correr atrás do próprio desenvolvimento nessa frente.
Enquanto isso, do outro lado do Pacífico, os controles de exportação impostos por Washington sobre o acesso chinês a chips norte-americanos de IA de ponta seguem sendo uma barreira relevante. Afinal, esses componentes são essenciais para treinar modelos de última geração, e essa limitação tem ajudado companhias como Anthropic e OpenAI a manter a liderança do setor. Ainda assim, rivais chineses não ficaram parados e vêm encontrando caminhos alternativos para reduzir essa distância tecnológica.
Diálogo entre as potências segue (parcialmente) aberto
Apesar da rivalidade declarada, nem tudo é disputa entre China e Estados Unidos quando o assunto é IA. Os dois países têm avançado em algumas frentes bilaterais para tentar conter os riscos mais extremos ligados à tecnologia. Por exemplo, ambos concordaram em manter seres humanos no controle das decisões envolvendo armas nucleares e, no mês passado, firmaram um diálogo e um canal de comunicação específico para tratar de incidentes relacionados à IA avançada.
O Ministério do Comércio da China reforçou ainda nesta sexta-feira que parte do objetivo das novas regras é evitar o uso indevido dessas tecnologias — incluindo sistemas capazes de gerar e modificar softwares maliciosos de forma autônoma, o que poderia colocar em risco infraestruturas críticas e a própria segurança nacional do país.
Nem tudo será restrito
Apesar do endurecimento anunciado, o ministério fez questão de frisar que a maior parte das tecnologias de IA chinesas continuará podendo ser exportada livremente. Segundo o órgão, algumas situações terão licenciamento simplificado, como:
- Exportações de tecnologia de código aberto;
- Empresas chinesas que mantêm seus próprios centros de computação no exterior.
Além disso, tecnologias que já são de domínio público — seja por meio de lançamentos de código aberto, seja por artigos acadêmicos publicados — ficam totalmente fora dos controles propostos. Ou seja, a China tenta equilibrar dois objetivos que, à primeira vista, parecem conflitantes: continuar expandindo sua influência tecnológica mundo afora e, ao mesmo tempo, blindar o que considera estratégico nessa corrida acirrada pela liderança em inteligência artificial.
Com informações de infomoney.com.br.