A disputa Wikipédia IA ganhou um novo capítulo no embate judicial que opõe o New York Times à OpenAI. A Fundação Wikimedia, organização sem fins lucrativos responsável por manter a Wikipédia no ar, resolveu se manifestar sobre o caso — e, em vez de bater o martelo de um lado só, propôs uma saída intermediária para o imbróglio envolvendo direitos autorais e treinamento de inteligência artificial.
O que diz a Wikimedia sobre a disputa Wikipédia IA
Em documento apresentado à Justiça americana nesta sexta-feira (30), a entidade argumentou que usar obras protegidas para treinar modelos de linguagem deveria ser enquadrado como uso justo, o chamado “fair use”. Por outro lado, quando um chatbot reproduz esse mesmo material para responder diretamente a um usuário, aí sim seria necessário pedir autorização a quem detém os direitos autorais. Ou seja, para a fundação, o problema não está em aprender com o conteúdo, mas em reproduzi-lo sem crédito ou permissão.
Essa manifestação foi protocolada como “amicus curiae” — o famoso “amigo da corte”, instrumento que permite a uma organização oferecer informações relevantes a um tribunal mesmo sem fazer parte do processo diretamente. Vale lembrar que essa briga judicial não envolve apenas o New York Times: são 12 ações movidas contra a OpenAI, e a do jornal, iniciada em 2023, acusa a startup e a Microsoft de usarem conteúdo jornalístico sem autorização para desenvolver seus sistemas.
Os dois lados da moeda, segundo a fundação
A Wikimedia enxerga riscos nos dois extremos possíveis dessa discussão. Se o treinamento de modelos com obras protegidas for considerado ilegal, projetos de código aberto como a própria Wikipédia poderiam ter seu desenvolvimento travado. Afinal, ferramentas de IA também ajudam a manter e aprimorar a enciclopédia colaborativa.
No entanto, liberar geral sem nenhuma restrição também traria problemas: as empresas de IA ficariam livres para reproduzir conteúdo jornalístico e de outros criadores sem respeitar licenças, o que prejudicaria justamente as fontes humanas de conhecimento que sustentam a internet como a conhecemos.
A entidade distingue o treinamento dos modelos de técnicas como a geração aumentada por recuperação (RAG), em que sistemas buscam informações em páginas da internet e as utilizam para formular respostas — nesse caso, defende que as empresas deveriam respeitar licenças e dar crédito aos autores originais.
Por que isso importa para a sustentabilidade da Wikipédia
Essa preocupação não é só filosófica: tem relação direta com a saúde financeira e de audiência da própria Wikipédia. Segundo a fundação, o site se tornou uma das principais fontes de dados para treinar sistemas de inteligência artificial, mas, em contrapartida, os chatbots podem acabar reduzindo o número de visitantes que acessam as páginas originais da enciclopédia.
Além disso, a organização afirma que serviços como o ChatGPT reproduzem textos publicados sob licenças Creative Commons sem necessariamente cumprir as exigências de atribuição e compartilhamento previstas nessas licenças — o que, na prática, fura um acordo que deveria ser respeitado por qualquer um que use esse tipo de conteúdo.
IA também ajuda — e a Wikimedia reconhece isso
Apesar de todas as ressalvas, a Wikimedia não trata a inteligência artificial como vilã. Pelo contrário: reconhece que modelos de linguagem já são úteis no dia a dia da manutenção da enciclopédia, ajudando voluntários a identificar vandalismo, detectar violações de direitos autorais e localizar artigos que precisam de melhorias.
Para dar uma ideia do tamanho do projeto que está em jogo nessa discussão, a Wikipédia reúne mais de 67 milhões de artigos em cerca de 300 idiomas, produzidos e atualizados por uma comunidade de 250 mil colaboradores voluntários por mês. Com números assim, não é à toa que a entidade queira ter voz ativa em um processo que pode redefinir as regras do jogo entre criadores de conteúdo e empresas de inteligência artificial.
Em resumo, a posição da Wikimedia funciona como um recado tanto para a Justiça quanto para o mercado de tecnologia: é possível equilibrar inovação e respeito à autoria, desde que se separe bem o que é aprendizado de máquina do que é simples cópia disfarçada de resposta automática. O desfecho dessa disputa, que ainda segue em andamento, deve servir de referência para outros casos parecidos envolvendo veículos de imprensa e empresas de IA ao redor do mundo.
Com informações de redir.folha.com.br.