A OpenAI virou palco de um episódio digno de filme de espionagem corporativa. Um funcionário da empresa foi preso e acusado de instalar um dispositivo oculto de gravação de áudio em um dos escritórios da companhia em São Francisco, nos Estados Unidos. A informação foi confirmada tanto pela própria OpenAI quanto pelo Departamento de Justiça americano, e o caso já levanta questões sérias sobre segurança dentro das gigantes de tecnologia que trabalham com inteligência artificial.

O acusado é Abdulrahman Alfozan, cidadão da Arábia Saudita, preso em 9 de outubro — mais de uma semana depois de a equipe de segurança da OpenAI encontrar um aparelho de gravação escondido atrás de uma televisão numa sala executiva de reuniões. A prisão foi anunciada pelo Departamento de Justiça na terça-feira, e Alfozan compareceu ao tribunal em São Francisco no mesmo dia. Ele havia entrado na OpenAI em julho de 2025, atuando na equipe de produtos, e foi demitido justamente no dia em que foi detido.
Caso de escuta clandestina expõe fragilidade de segurança corporativa
O episódio de escuta clandestina chega num momento sensível: países disputam, lado a lado, a liderança no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial cada vez mais sofisticados, e qualquer brecha de segurança dentro de uma empresa como a OpenAI tende a repercutir além dos muros corporativos. Por isso, a própria companhia fez questão de tranquilizar o mercado logo após o ocorrido.

“Neste momento, não temos indícios de que esse indivíduo tenha acessado ou extraído de forma inadequada pesos de modelos, código-fonte ou dados de clientes”, publicou a OpenAI na rede social X na terça-feira.

Já a defesa do funcionário rebate as acusações com firmeza. William Pernik, advogado de Alfozan, afirmou que a equipe jurídica “aguarda a oportunidade de apresentar todas as defesas cabíveis no tribunal”. Segundo ele, Alfozan chegou aos Estados Unidos ainda jovem e construiu uma trajetória de anos estudando e trabalhando no setor de tecnologia.
“O local onde uma pessoa nasceu não é prova de nada”, disse o advogado, destacando que seu cliente não foi acusado de roubo de segredos comerciais nem de atuar como agente de um governo estrangeiro. “Essas acusações parecem totalmente incompatíveis com seu histórico. Vamos investigar minuciosamente todas as evidências apresentadas pelo governo para entender o que realmente aconteceu, quem foi o responsável e quais podem ter sido as motivações.”
Como o dispositivo foi descoberto
De acordo com a OpenAI, foi uma equipe de segurança interna que encontrou o aparelho em 30 de setembro, durante uma inspeção de rotina numa sala de conferências. O Departamento de Justiça divulgou detalhes e imagens mostrando que o equipamento estava conectado a uma porta USB na parte traseira da televisão e disfarçado com papel higiênico. As autoridades concluíram que a instalação teria ocorrido por volta de 28 de setembro.
A imagem divulgada pelo órgão mostra um pequeno dispositivo preto com a inscrição “Seeed Studio”. Curiosamente, a própria OpenAI usou seus modelos de inteligência artificial para analisar o aparelho e tentar identificar quem o havia colocado ali — uma espécie de investigação interna turbinada pela própria tecnologia que a empresa desenvolve.
Segundo a denúncia, Alfozan não tinha autorização para acessar aquela sala de conferências, normalmente reservada para reuniões envolvendo “informações técnicas, comerciais e estratégicas altamente confidenciais”. Além disso, a OpenAI afirmou ter encontrado evidências de que ele planejava usar outros dispositivos semelhantes para gravar secretamente reuniões em outras áreas do escritório. No começo de outubro, a equipe de segurança encontrou um segundo aparelho parecido dentro de uma bolsa deixada por ele em um dos prédios corporativos.
Quem é o funcionário acusado
De acordo com um perfil no LinkedIn atribuído a Alfozan, ele atuava como líder de engenharia na OpenAI, focado em softwares de agentes de IA. O mesmo perfil indica que, desde 2025, ele também trabalha em tempo parcial como sócio da gestora de venture capital saudita Raed Ventures, além de ter passado anteriormente como engenheiro sênior de sistemas na Meta Platforms.
Sua formação também chama atenção: Alfozan estudou ciência da computação e engenharia no Massachusetts Institute of Technology (MIT) entre 2011 e 2016 e concluiu um mestrado em ciência de dados na Universidade da Califórnia, Berkeley, entre 2023 e 2025 — ou seja, um currículo robusto que contrasta, segundo sua defesa, com a gravidade das acusações.
O dispositivo usado e os próximos passos do caso
A OpenAI informou que acionou o FBI assim que o caso veio à tona, e a investigação segue em andamento. Conforme a denúncia criminal do FBI, o equipamento usado seria um Seeed Xiao ESP32-S3 Sense, descrito como uma “placa de desenvolvimento do tamanho de um polegar com sensor de câmera removível, microfone digital e armazenamento via cartão microSD”. Até terça-feira, um produto com essa descrição era vendido por US$ 14 no site da fabricante.
Lennart Koopmann, fundador da empresa de cibersegurança Nzyme, comentou que o dispositivo supostamente usado por Alfozan parece ser baseado em “uma placa eletrônica para hobbyistas”, com microfone, armazenamento em cartão de memória e transmissão sem fio de áudio por Wi-Fi a curtas distâncias.
“Isso o torna barato e fácil de esconder. Detectar um dispositivo assim exige equipamentos capazes de monitorar sinais sem fio em busca de aparelhos desconhecidos ou, caso a transmissão esteja desligada, uma inspeção física dos ambientes”, afirmou Koopmann.
Apesar de a OpenAI garantir que não há sinais de vazamento de dados sensíveis até agora, o caso expõe o quanto até as empresas mais avançadas em tecnologia estão vulneráveis a métodos simples e baratos de espionagem. Alfozan deverá voltar a comparecer perante o juiz Alex G. Tse, do Tribunal Distrital Federal do Norte da Califórnia, em São Francisco, no dia 19 de outubro, quando o caso deve ganhar novos desdobramentos.
Com informações de infomoney.com.br.