A corrida bilionária da inteligência artificial ganhou um capítulo curioso envolvendo filantropia — ou algo parecido com isso. A Anthropic, criadora do Claude, e Elon Musk anunciaram planos bem diferentes para repartir uma fatia da riqueza gerada pela IA, e essa disputa de estilos pode acabar influenciando como esse tipo de ganho bilionário chega até a população. De um lado, um fundo de benefício público criado por uma empresa; do outro, uma promessa direta de ações para milhões de crianças.
No fim de semana, a Anthropic revelou que vai destinar 5% de suas ações a um novo fundo voltado ao “bem público” — algo inédito entre as grandes empresas de IA. Já nesta segunda-feira (19), Musk entrou na jogada prometendo dar uma ação da SpaceX a “cada criança nos Estados Unidos”, numa aposta claramente mais direta e personalizada.
Dois caminhos opostos para o fundo de benefício público
Enquanto a Anthropic prefere distribuir riqueza por meio de doações a organizações sem fins lucrativos e contribuições a grupos específicos da sociedade, Musk — hoje o homem mais rico do planeta, com patrimônio líquido de quase US$ 1 trilhão — defende outra lógica. Segundo ele, o ideal é “dar as ações diretamente ao público”, sem intermediários.
Em publicação feita na manhã de segunda-feira, Musk foi direto ao ponto: “No ano que vem, darei uma das minhas ações da SpaceX a cada criança dos Estados Unidos. Esta será a primeira de muitas”. Vale lembrar que, em junho, ele detinha cerca de 6,42 bilhões de ações da empresa — ou seja, musculatura financeira não falta para bancar a promessa.
Como funciona o fundo de benefício público da Anthropic
Do lado da Anthropic, a ideia é dar mais flexibilidade e escala para ações voltadas ao benefício da humanidade. A empresa está se preparando para uma das maiores aberturas de capital da história, estruturada como uma corporação de benefício público — um modelo jurídico que obriga a gestão a equilibrar interesses públicos amplos com metas de lucro.
Essa IPO pode avaliar a empresa em aproximadamente US$ 2 trilhões, o que faria a fatia de 5% reservada ao fundo valer entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões. Para efeito de comparação, esse valor supera, e muito, o da doação prometida por Musk, estimada em cerca de US$ 11 bilhões aos preços atuais — cálculo baseado em dados do Censo dos EUA, que apontam 72 milhões de crianças no país.
“Dar ações, que representam participações na economia do futuro, diretamente às pessoas é o caminho”, disse Musk.
Trump, as “Contas Trump” e o agradecimento a Musk
A iniciativa de Musk não surge isolada. Ela acontece meses depois de a Casa Branca lançar as “Contas Trump”, programa que acompanha beneficiários desde o nascimento até a vida adulta e concede a cidadãos dos EUA nascidos entre 2025 e 2028 uma conta de investimento de US$ 1.000, financiada pelo governo — valor que as famílias podem complementar.
Com a possibilidade de pessoas físicas e empresas doarem participações acionárias a essas contas, diversas grandes companhias americanas, entre elas Dell, Visa, Micron e Delta Air Lines, já confirmaram apoio ao programa com contribuições equivalentes de seus empregadores.
Não à toa, o presidente Donald Trump não economizou elogios ao movimento de Musk: “UM ENORME AGRADECIMENTO ao nosso lendário amigo Elon Musk por sua incrível generosidade ao dar ações da SpaceX a milhões de crianças americanas por meio das CONTAS TRUMP!”, escreveu na Truth Social.
Até o momento, a SpaceX não respondeu a pedidos de esclarecimento sobre se essas doações de ações estariam atreladas às Contas Trump ou sujeitas a algum período de bloqueio para venda. Vale lembrar que, no início deste ano, a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, e seu marido já haviam prometido doar uma ação da empresa a cada uma das mais de 2 milhões de crianças contempladas pela iniciativa de Trump.
Reações ao gesto de Musk: generosidade ou jogada publicitária?
Nem todo mundo recebeu o anúncio com entusiasmo puro. Robert Pavlik, gestor sênior de portfólio da Dakota Wealth Management, que não tem ações da SpaceX em suas carteiras, comentou com certa ironia: “São muitas ações… Tenho certeza de que alguém ficará feliz em recebê-las”.
Ele foi além: “Parece uma jogada publicitária… Isso criará uma percepção pública positiva? Talvez.” Em contraste, Michael Dell e sua esposa, Susan, prometeram US$ 6,25 bilhões em dinheiro vivo para as contas Trump, voltados especificamente a crianças em situação de vulnerabilidade. Já a contribuição de Musk fica atrelada ao desempenho — muitas vezes instável — das ações da SpaceX, o que torna seu valor final uma incógnita. Boa parte das ações filantrópicas de Musk, aliás, passa pela Musk Foundation, que reúne mais de US$ 14 bilhões em ativos, segundo relatos.
Impacto no mercado de trabalho entra no radar do fundo de benefício público
A Anthropic, que costuma se apresentar como uma empresa de IA preocupada com segurança, reservou cerca de 80 das 261 páginas de seu prospecto de IPO só para detalhar fatores de risco — chegando a afirmar que a tecnologia pode representar “riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade”.
Segundo a empresa, o Fundo de Benefício Público poderá bancar desde doações a organizações sem fins lucrativos até distribuições diretas e ações voltadas a lidar com os efeitos da IA sobre o mercado de trabalho — área que já conta com um compromisso anterior de US$ 200 milhões (R$ 1,08 bilhões) destinado a estudar essas mudanças.
Sem uso político: a promessa da Anthropic
Outro ponto que a Anthropic fez questão de deixar claro é que nenhuma participação acionária do fundo será usada para lobby ou qualquer tipo de ação política, seja nos Estados Unidos, seja no exterior. Somando o compromisso dos cofundadores de doar 80% de suas participações e um programa de contrapartida para doações de funcionários, cerca de 20% das ações da Anthropic acabam destinadas a fins públicos — sem contar eventuais ações adicionais que venham a se somar a esse montante futuramente.
Com informações de redir.folha.com.br.