A fusão entre Paramount Skydance e Warner Bros. Discovery, avaliada em US$ 111 bilhões, entrou em uma nova fase depois que a resistência regulatória na Califórnia e em outros 11 estados americanos foi superada na semana passada. Com o processo antitruste encerrado, a companhia combinada já anunciou a criação de um sindicato para levantar US$ 7,5 bilhões por meio de uma emissão adicional de empréstimos seniores garantidos de prazo “B”. O movimento acende um alerta sobre o tamanho da dívida que vai sustentar o novo gigante da mídia.
Qual o tamanho da dívida da fusão Paramount-Warner?
Segundo estimativas do Morgan Stanley, a dívida líquida da empresa formada pela união entre Paramount Skydance e Warner Bros. Discovery deve chegar a US$ 77,2 bilhões até o fim de 2026. A nova captação de US$ 7,5 bilhões eleva ainda mais esse montante, embora parte dos recursos seja usada para quitar obrigações já existentes.
O analista Andrew A. Rosen destaca que a Paramount chega à combinação com uma dívida estimada em cerca de US$ 80 bilhões, somada a um compromisso adicional de capital privado. Larry Ellison, bilionário cofundador da Oracle, garantiu pessoalmente mais de US$ 40 bilhões em financiamento para viabilizar a operação.
De acordo com projeções do Morgan Stanley citadas por Rosen, os pagamentos anuais de juros da empresa combinada podem chegar a US$ 6,37 bilhões.
Como a empresa pretende pagar essa conta?
Para reduzir a pressão financeira, a Paramount Skydance prevê mais de US$ 6 bilhões em cortes de custos. O plano inclui consolidação de estruturas tecnológicas, otimização de compras, redução de imóveis e eliminação de funções administrativas e de marketing consideradas redundantes.
Rosen avalia que essa economia pode permitir uma redução relevante da alavancagem da companhia. A expectativa do Morgan Stanley é que a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado caia de uma faixa entre 6 e 7 vezes, no fechamento da operação, para algo entre 3 e 4 vezes em três anos.
O ponto de atenção, segundo o analista, é que esse ganho de US$ 6 bilhões é concentrado no início da integração, e não uma fonte permanente de crescimento. A receita da televisão linear e das afiliadas segue sob pressão, o que significa que a melhora dos indicadores financeiros vai depender da criação de novas fontes de expansão depois da captura inicial de eficiência.
“O streaming, sozinho, dificilmente resolverá essa equação”, afirmou Rosen.
Quem mais pode entrar no negócio?
O tamanho da aposta financeira abriu espaço para novos investidores. O Semafor revelou que executivos da Paramount discutiram a possibilidade de convidar Elon Musk para participar de um consórcio de investidores na companhia após a fusão.
Segundo a publicação, a hipótese reforça que existe um grupo restrito de bilionários capazes de absorver parte do risco que Larry Ellison assumiu pessoalmente na operação.
A companhia combinada teria gerado menos de US$ 20 bilhões em receitas de streaming em 2025, somando US$ 8,6 bilhões da Warner Bros. Discovery à receita da Paramount+.
O que a Paramount planeja para o streaming
Enquanto organiza a estrutura financeira, a Paramount também trabalha em novidades para o Paramount+. De acordo com o Business Insider, os planos incluem uma versão gratuita do serviço, microdramas, novos formatos de publicidade interativa, uma área de comentários inspirada no TikTok e o uso de inteligência artificial na edição de vídeos.
A estratégia busca aproximar a companhia, historicamente construída sobre estúdios, televisão e catálogo, das características das empresas digitais, unindo entretenimento, tecnologia e novos hábitos de consumo do público.
Histórico de fusões no setor gera cautela
O analista Simon Owens é um dos que mantêm ceticismo em relação ao plano de David Ellison, CEO da Paramount. Para ele, a estratégia até aqui se apoiou em assumir grandes dívidas para comprar empresas tradicionais de mídia, na expectativa de provar depois que a combinação geraria mais valor do que os ativos separados.
Owens lembra que os conglomerados de mídia têm histórico irregular ao tentar criar valor por meio de grandes combinações. Para cada integração bem-sucedida, como a de Disney e Pixar, existem exemplos de aquisições que não entregaram o resultado esperado, caso da compra da 21st Century Fox pela própria Disney.
Rosen também recorre a um precedente do setor: o curto período em que a AT&T esteve no controle da WarnerMedia, quando Wall Street e especialistas questionavam se o streaming conseguiria gerar receita suficiente para sustentar a dívida assumida pela companhia. Segundo ele, o mercado volta a fazer perguntas semelhantes agora, embora a diferença esteja na estrutura financeira criada desta vez, com o compromisso pessoal de Ellison e a participação de capital privado.
Próximos passos
Com o obstáculo regulatório superado e a captação de US$ 7,5 bilhões em andamento, a Paramount Skydance segue concentrada em reduzir sua alavancagem nos próximos anos, ao mesmo tempo em que testa novos formatos para o Paramount+. O desafio, segundo os analistas ouvidos na reportagem original, será provar que existe um negócio em crescimento capaz de sustentar a fusão, para além do corte inicial de custos.