Imagine ganhar um colega de equipe que nunca falta, nunca reclama e quase não discorda de nada. Parece ótimo, certo? Pois um estudo recente mostra que esse tipo de “parceiro” digital — no caso, a inteligência artificial — traz um efeito colateral curioso: ao mesmo tempo em que turbina a produtividade individual, ela pode corroer silenciosamente a confiança entre colegas de trabalho.
Para chegar a essa conclusão, pesquisadores de psicologia e comunicação entrevistaram 1.033 profissionais de escritório em tempo integral nos Estados Unidos, todos atuando em equipes de projetos espalhadas por mais de 20 setores diferentes. A ideia era entender o que muda nas relações de equipe quando esse novo “colega” tecnológico entra em cena.
O que o estudo descobriu sobre o uso da IA nas equipes
Os resultados contam uma história cheia de nuances. Por um lado, quanto mais os trabalhadores diziam usar IA — ou percebiam que o time inteiro recorria a ela —, mais passavam a enxergar os colegas como detentores de conhecimento especializado e único. Ou seja, um dos pilares de uma equipe que funciona bem parece ter saído fortalecido com a chegada da tecnologia.
Por outro lado, existe um custo real nessa equação: quanto mais as pessoas trocavam a conversa com um colega pela consulta à IA, mais a confiança mútua e a capacidade de coordenação do grupo pareciam enfraquecer. Um consultor de TI entrevistado resumiu bem esse dilema:
“A IA tornou meu trabalho mais fácil, então posso focar mais em trabalhar sozinho. No entanto, isso significa que converso e colaboro menos com meus colegas, o que às vezes faz o trabalho em equipe parecer desconectado e afeta a construção de confiança e entendimento entre nós.”
Isso acontece porque a coordenação e a confiança dentro de um time dependem de algo chamado “modelo mental compartilhado” — basicamente, saber quem sabe o quê dentro da equipe. E, segundo o levantamento, a IA está mexendo nessa engrenagem de um jeito sutil, mas significativo: ela amplia a capacidade individual, porém corrói aos poucos esse entendimento coletivo que faz o grupo funcionar como uma unidade.
Vale destacar que esse efeito não é uma fatalidade da tecnologia em si, mas sim da forma como ela vem sendo ensinada, usada e incentivada hoje. Dessa forma, dependendo de como cada equipe integra a ferramenta no dia a dia, dá para evitar esse desgaste — o que é ainda mais relevante para times multifuncionais, cujos vínculos já são naturalmente mais frágeis do que os de grupos com uma única especialidade.
Como equilibrar produtividade e confiança entre colegas
Diante desse cenário, o estudo traz algumas recomendações práticas para quem quer aproveitar a IA sem perder os laços que sustentam a colaboração.
- Aposte na comunicação assíncrona: a frequência de contato entre os membros da equipe ajuda a amortecer os efeitos negativos de trocar o colega pela IA. Mesmo entre quem usa a ferramenta com frequência, houve um aumento de 28% na coordenação e de 19% na confiança quando os funcionários mantinham contato diário com o time, especialmente por canais como Slack, e-mail ou Teams.
- Construa segurança psicológica: é essencial que pedir ajuda a um colega pareça tão natural quanto consultar um modelo de IA. Antes, a alternativa a fazer uma pergunta era ficar travado ou correr o risco de parecer mal informado; hoje, a alternativa é recorrer a um sistema que não julga e está sempre disponível. Por isso, esse tipo de ambiente favorece comportamentos como perguntar, errar e aprender junto.
- Repense normas e incentivos: os líderes precisam criar formas de uso da IA que deixem claro como cada pessoa está utilizando a tecnologia, ampliando o trabalho humano em vez de simplesmente automatizá-lo. Hoje, os incentivos costumam premiar a produtividade individual, e não o desempenho coletivo — algo que precisa mudar.
- Use a IA para preparar conversas, não para substituí-las: simulações de diálogo com a ferramenta antes de uma conversa difícil podem reduzir a ansiedade e aumentar a confiança, sem tirar o contato humano de cena.
Em pesquisas anteriores, os mesmos autores observaram que uma simples simulação de conversa com IA, de apenas cinco minutos antes de um diálogo delicado, já gera benefícios psicológicos concretos — menos ansiedade, mais confiança e sensação de preparo. Ou seja, o impacto da tecnologia no ambiente de trabalho depende muito mais das pessoas e do contexto do que da ferramenta em si.
O futuro da relação entre equipes e inteligência artificial
Os modelos de IA seguem evoluindo em velocidade e precisão, mas o ponto central, segundo o estudo, não é a tecnologia — é a nossa adaptação a ela. A questão real é se as equipes vão usar a IA para fortalecer os sistemas de relacionamento que as mantêm unidas, ou se vão deixar que ela enfraqueça esses laços aos poucos.
Afinal, nenhum modelo, por mais poderoso ou “inteligente” que seja, vai resolver sozinho o distanciamento entre colegas. Quem fará a diferença, no fim das contas, são as decisões humanas: aprofundar relações e conectar as capacidades ampliadas pela IA às pessoas com quem se trabalha todos os dias.
Com informações de infomoney.com.br.