O Nubank desmontou o time responsável por investigar queixas de fraudes financeiras depois que ferramentas de inteligência artificial passaram a fazer esse trabalho. A informação é de funcionários e ex-funcionários ouvidos sob condição de anonimato, já que o banco não comunicou a decisão publicamente.
As demissões aconteceram na manhã da última terça-feira (3), em uma sequência de reuniões pelo Google Meet. Cada encontro reuniu sete pessoas: uma gerente da área, uma representante de recursos humanos e cinco funcionários desligados. Parte dos avisos também chegou por email.
Por que a IA reduziu a fila de fraudes no Nubank?
Segundo os relatos reunidos pela reportagem, o Nubank introduziu há seis meses ferramentas de análise de queixas com inteligência artificial. Desde então, a fila de reclamações por golpes financeiros caiu 80%, mesmo em um momento de aceleração dos crimes virtuais.
O uso de IA generativa em ataques cibernéticos cresceu 89% no primeiro semestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. Ou seja: o avanço tecnológico acelerou tanto o crime quanto a resposta das empresas a ele.
Quantas pessoas foram demitidas?
Pouco mais de 30 pessoas do time de investigações foram desligadas sem justa causa e vão receber indenização. O Nubank afirma que segue contratando para outras áreas e que a reestruturação levou tanto ao remanejamento interno de profissionais quanto ao encerramento de algumas posições.
Em nota, a empresa informou que os colaboradores impactados vão receber um pacote de benefícios, incluindo salários adicionais proporcionais ao tempo de casa e extensão temporária do plano de saúde.
Como o número de dispensas foi pequeno diante dos 9.500 funcionários do banco, não houve comunicado oficial à imprensa nem aos acionistas. O time de investigação era subordinado à área de operações contra fraude, e parte da equipe segue analisando queixas enquanto o banco conclui a reestruturação.
Qual área foi mais afetada pelos cortes?
O maior número de demissões ocorreu na equipe que investigava contas laranjas, usadas por criminosos para distribuir dinheiro obtido em golpes virtuais e dificultar a recuperação dos valores pelas vítimas. O combate aos chamados “mulas”, pessoas que alugam suas contas para esse fim, é uma das prioridades da Febraban e do Banco Central no enfrentamento ao estelionato digital.
Como funciona a automação das análises
No início, as ferramentas de IA cuidavam apenas dos casos de baixa complexidade, quando havia mais provas da fraude. Parte dos funcionários passou a atuar na validação dos resultados gerados de forma autônoma pelos sistemas.
Esse trabalho de revisão humana não serve só para garantir qualidade: ele também alimenta o aperfeiçoamento dos robôs por meio de uma técnica chamada “fine-tuning supervisionado”. Nesse processo, os casos corrigidos pelos analistas viram exemplos de respostas certas para treinar o modelo de linguagem.
Com a automação avançando, cerca de 40 funcionários do time de investigações foram remanejados para outros setores da empresa antes do encerramento definitivo da equipe nesta terça-feira. Os analistas que permanecem no combate à fraude ficaram restritos aos casos mais complexos.
O que isso diz sobre o avanço da IA no combate a fraudes
A IA generativa também tem mudado a dinâmica dos crimes virtuais, facilitando fraudes contra empresas maiores e a exploração de falhas em sistemas. Isso desloca o trabalho das equipes de cibersegurança: elas saem de atividades mais investigativas para ações preventivas, como correção de vulnerabilidades em softwares e restrição de acessos privilegiados a funcionários.
Um relatório da empresa de cibersegurança Crowdstrike mostra ainda que a inteligência artificial derrubou barreiras linguísticas entre criminosos, permitindo que organizações fraudulentas se articulem de forma global.
O caso do Nubank ilustra um movimento que deve se repetir em outras instituições financeiras: à medida que a IA assume tarefas de triagem e análise, o trabalho humano tende a se concentrar nos casos mais complexos, enquanto o volume de empregos nessas funções diminui.
Com informações de redir.folha.com.br.