O investimento em IA está puxando para cima as exportações e importações ao redor do mundo, mas esse crescimento todo tem um efeito colateral: ele está escondendo problemas sérios que o sistema multilateral de comércio enfrenta — os piores em 80 anos de história, segundo a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala. A declaração foi dada nesta terça-feira (28), durante entrevista a jornalistas na sede da entidade, em Genebra.
Para entender a dimensão do fenômeno, basta olhar os números: no início do mês, a OMC praticamente dobrou sua projeção de crescimento do comércio exterior para este ano, de uma alta de 1,9% para 3,9%. A estimativa para 2027 também deu um salto, passando de 2,6% para 4,1%, de acordo com o relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global, divulgado no último dia 8.
O que explica a disparada do comércio global
A surpresa nos números tem explicação. As projeções anteriores da OMC já levavam em conta o impacto da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, iniciada em março, que afetou diretamente o comércio de petróleo e combustíveis — afinal, 20% do transporte dessa matéria-prima passa pelo Estreito de Ormuz, que chegou a ser fechado por ataques da reação iraniana.
Apesar disso, as exportações e importações de petróleo não despencaram tanto no cenário global, já que fornecedores de fora do Oriente Médio, como o Brasil, aumentaram suas vendas e compensaram parte da perda. Enquanto isso, o comércio de peças usadas em data centers — como servidores, semicondutores e placas de memória — seguiu crescendo forte, puxando uma alta de 3,5% nas trocas de mercadorias no primeiro semestre do ano, número que já superou as expectativas do próprio organismo.
“Acho que o crescimento está mascarando um pouco os desafios nos outros setores. Desse modo, os problemas decorrentes das tarifas (o tarifaço aplicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump), das guerras no Mar Negro (entre a Rússia e a Ucrânia, após a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022) ou no Estreito de Ormuz estão sendo mascarados por essa tendência muito positiva da IA”, disse Okonjo-Iweala.
Ainda segundo o relatório divulgado no início do mês, os bens usados na infraestrutura de inteligência artificial responderam por 47% do crescimento do comércio global de mercadorias no primeiro semestre do ano. Ou seja, quase metade de toda a expansão do comércio mundial veio desse setor específico — que, por sinal, cresceu 67% em relação ao mesmo período do ano anterior, acelerando ainda mais o ritmo já visto em 2024 e 2025.
Concentração e sustentabilidade preocupam a OMC
Mesmo com o cenário positivo em meio ao tarifaço de Trump e à guerra no Irã, Okonjo-Iweala fez questão de alertar que o boom de investimento em IA não é só boa notícia. Segundo ela, dois pontos merecem atenção: a concentração desse comércio em poucos fornecedores e compradores, e a dúvida sobre se o ritmo atual de investimentos em data centers e infraestrutura de IA é sustentável a longo prazo.
“Quando decompomos os números, vemos uma concentração dos benefícios do comércio de IA em duas regiões: América do Norte e Leste da Ásia. E, na América do Norte, trata-se, principalmente, dos EUA. Logo, o resto do mundo não está tão incluído nos benefícios desse comércio”, afirmou a diretora-geral da OMC. “Então é bom, mas a questão é como tornar esse comércio mais inclusivo e como garantir que seja sustentável.”
Resistências dos Estados Unidos à OMC
Esse debate sobre investimento em IA acontece num momento em que a própria OMC enfrenta uma crise interna grave. Criado em 1995, o organismo está parcialmente travado por conta dos Estados Unidos: desde o primeiro governo Trump, os americanos vêm bloqueando a indicação de juízes para o Órgão de Apelação, a instância máxima da OMC. Sem membros suficientes, esse órgão fica impedido de julgar disputas comerciais entre os países-membros — uma das funções mais importantes da entidade.
No segundo mandato de Trump, iniciado em janeiro do ano passado e marcado pelo lançamento de um tarifaço contra praticamente todos os países, a pressão contra a OMC só aumentou. Ainda assim, Okonjo-Iweala insiste em negar que o organismo esteja paralisado ou tenha perdido relevância.
De acordo com o relatório anual da OMC, divulgado em setembro, um estudo da própria entidade estima que, caso prevaleçam apenas acordos comerciais bilaterais entre os países, a economia global pode chegar a 2050 com um Produto Interno Bruto (PIB) agregado 6,9% abaixo do nível que atingiria numa projeção de crescimento mais cooperativa. Em resumo, o recado da OMC é claro: o investimento em IA está sustentando os números do comércio mundial por ora, mas as rachaduras estruturais — tarifas, guerras e concentração de benefícios — continuam lá, só que escondidas atrás de um crescimento que não é tão distribuído quanto parece.
Com informações de infomoney.com.br.