O iPhone dobrável da Apple deve ser apresentado na quarta-feira (9), em uma estreia de alto risco para John Ternus como CEO da companhia. O aparelho terá tela flexível e preço superior a US$ 2.000, duas novidades que podem testar a disposição dos consumidores a pagar mais pelo celular.
O lançamento ocorre enquanto a empresa enfrenta aumento de custos em sua cadeia de suprimentos. Por isso, a Apple terá de decidir entre repassar parte dessa pressão aos clientes ou aceitar uma redução em suas margens, historicamente elevadas.
iPhone dobrável chega após anos de desenvolvimento

A tecnologia vem sendo estudada pela Apple há pelo menos oito anos, dentro da divisão de hardware que era comandada por Ternus até esta semana. Tim Cook, que está deixando o cargo de CEO, transferiu ao sucessor a responsabilidade de conduzir o projeto logo em sua segunda semana à frente da segunda empresa mais valiosa do mundo.
O iPhone dobrável também representa o resultado de uma estratégia adotada anteriormente pela fabricante: acompanhar os concorrentes em categorias arriscadas, observar os problemas da primeira geração e, depois, lançar uma versão mais refinada.
“Há muitos motivos pelos quais a Apple quis esperar nessa categoria específica de produto”, disse Radu Reit, ex-engenheiro de telas da Apple.
Segundo Reit, avanços recentes ajudaram a aumentar a resistência das telas flexíveis e, ao mesmo tempo, reduzir os custos de produção. A estrutura do iPhone dobrável, porém, já era tecnicamente possível há mais de uma década.
“A estrutura do dispositivo que a Apple provavelmente lançará já é viável há mais de uma década. No entanto, fabricar essa tela teria custado milhares de dólares dez anos atrás”, acrescentou Reit. “O outro aspecto é comercial: o mercado é realmente grande o bastante? Não era naquela época.”
Preço e adesão ainda são desafios

O valor acima de US$ 2.000 coloca o iPhone dobrável no centro de uma discussão mais ampla sobre os preços da linha. Analistas avaliam que os demais modelos do iPhone também devem ficar mais caros. Além disso, a Apple deverá adiar para o primeiro semestre do próximo ano o lançamento da versão básica do iPhone 18.
Apesar do apelo visual, os celulares dobráveis ainda têm participação limitada. Esses aparelhos representam cerca de 2% das vendas globais de smartphones, e o crescimento do segmento desacelerou de forma acentuada desde que Huawei e Samsung lançaram seus primeiros modelos, em 2019.
A Samsung enfrentou dificuldades técnicas no início da categoria. Algumas telas passaram a apresentar bolhas e ondulações, o que provocou altos índices de devolução. Nesse cenário, a Huawei adiou seu próprio lançamento em 2019.
Apple aposta em novo ciclo de produtos

Com o iPhone dobrável, a Apple espera recuperar o interesse por um formato que ainda ocupa um nicho e, assim, conquistar participação de mercado. A empresa também busca estimular a troca de smartphones em um momento no qual a demanda pelo modelo tradicional é considerada saturada.
O trabalho com o iPhone dobrável começou antes de Cook assumir a presidência executiva. Uma patente registrada em 2011 mostra estudos sobre um mecanismo de dobradiça, enquanto equipes de engenharia e de telas já realizavam experimentos com a tecnologia em 2018, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Para Edison Lee, analista da Jefferies, a apresentação de Ternus na quarta-feira (9) dará início a um ciclo de três a cinco anos de lançamentos planejados antes da mudança no comando. A expectativa é que esses produtos ajudem a reavivar o interesse dos consumidores e renovem a categoria de smartphones.
Assim, o iPhone dobrável chega como uma aposta tecnológica e comercial ao mesmo tempo. O preço elevado, a aceitação ainda restrita do formato e a pressão sobre os custos serão os principais obstáculos para a Apple transformar o novo aparelho em um sucesso.