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IPO da Anthropic: entenda o dilema de precificar os riscos de uma IA fora de controle

Por: Eduardo Carrega
08/10/2026
19:40h
IPO da Anthropic: entenda o dilema de precificar os riscos de uma IA fora de controle
Entenda por que o IPO da Anthropic divide investidores sobre como precificar os riscos de uma inteligência artificial fora de controle.
RESUMIR COM:

A megaoferta pública inicial (IPO) da Anthropic colocou investidores diante de um problema no mínimo incomum: como calcular o valor justo de uma empresa que, na visão de parte dos especialistas, poderia contribuir para o fim da humanidade? Parece exagero, mas o debate é levado a sério por quem acompanha de perto o setor de inteligência artificial — e é justamente esse impasse que está movimentando o mercado às vésperas da estreia da companhia na bolsa.

A megaoferta pública inicial (IPO) da Anthropic colocou investidores diante de um…

Tudo começou quando pesquisadores publicaram no X estimativas apontando uma probabilidade de 10% ou mais de a inteligência artificial provocar a extinção da espécie humana. A declaração acendeu uma discussão da qual participou o próprio Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, que já havia se posicionado sobre o tema antes.

O alerta do próprio CEO da Anthropic

Em um ensaio recente, Amodei admitiu temer que a humanidade perca o controle sobre sistemas avançados de inteligência artificial. Além disso, ele chamou atenção para riscos como ataques cibernéticos, bioterrorismo e grandes disrupções econômicas, caso os pesquisadores não desacelerem o ritmo de desenvolvimento da tecnologia.

Ou seja: o próprio fundador da empresa reconhece publicamente que os perigos existem. Por mais estranho que soe colocar isso em um documento de oferta de ações, especialistas já comparam os riscos enfrentados pela Anthropic e pela OpenAI aos de companhias que lidam com materiais perigosos ou equipamento militar — setores acostumados a lidar com responsabilidades de alto impacto.

Um bilhão de dólares seria suficiente?

Sam Lessin, sócio da Slow Ventures, trouxe um paralelo interessante para a discussão: a crise financeira de 2008. Segundo ele, assim como os bancos passaram a ser obrigados a manter reservas de capital depois daquele colapso, os laboratórios de IA deveriam reservar até US$ 1 trilhão como uma espécie de garantia para cobrir eventuais danos futuros causados pela tecnologia.

Mesmo assim, o próprio investidor reconhece que esse valor talvez não seja suficiente diante da magnitude dos riscos envolvidos.

“As responsabilidades podem representar um risco de US$ 2 trilhões ou US$ 4 trilhões para a sociedade, mesmo antes de considerar os cenários de extinção em massa de que eles próprios falam, o que tornaria essas empresas, no conjunto, valendo menos que zero”, afirmou Lessin à Bloomberg.

Apesar desse cenário pessimista, há investidores dispostos a comprar ações da Anthropic apostando que eventuais custos futuros acabariam recaindo sobre terceiros, e não sobre os acionistas atuais. A empresa, por sua vez, preferiu não comentar o assunto.

SpaceX como referência — mas sem o debate apocalíptico

A Anthropic planeja levantar com seu IPO um volume de recursos equivalente ou até superior ao que a SpaceX arrecadou em sua estreia histórica. A coincidência é que esse movimento acontece justamente no momento em que o debate sobre segurança da inteligência artificial passou a incluir cenários mais extremos.

Curiosamente, isso não parece ter afetado o desempenho da SpaceX no mercado. A empresa de Elon Musk também investe pesado em IA, com o desenvolvimento do modelo Grok — concorrente direto dos sistemas da Anthropic e da OpenAI. No entanto, nos documentos do próprio IPO, a SpaceX mencionou riscos como desinformação e conteúdos enganosos gerados por IA, sem citar ameaças existenciais. Hoje, as ações da companhia negociam mais de 20% acima do preço da oferta realizada em junho.

Para parte dos investidores, outro fator ajudou a esfriar os temores regulatórios do setor: o recente acordo firmado pelo presidente Donald Trump com líderes das grandes empresas de tecnologia, classificado como “moralmente vinculante”. Kevin Moss, gestor do fundo Private Shares Fund, reconhece que a inteligência artificial precisa de um marco regulatório, mas acredita que esse debate sobre segurança dificilmente vai travar os planos de IPO da Anthropic.

Quem paga a conta se algo der errado?

Por enquanto, a responsabilidade de mitigar os riscos recai principalmente sobre as próprias empresas de inteligência artificial. Analistas avaliam que investir em mecanismos de segurança pode elevar custos operacionais, mas, por outro lado, também fortalece a confiança dos clientes e pode virar vantagem competitiva no médio prazo.

O grande entrave é que ainda falta clareza sobre como funcionariam, na prática, eventuais responsabilidades legais ligadas à inteligência artificial. A indústria de seguros já tenta desenvolver produtos voltados a esse tipo de empresa, mas a falta de precedentes e de dados históricos dificulta bastante a precificação desses riscos.

Conforme a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de informação e passa a tomar decisões e interagir de forma autônoma com outros agentes, cresce também a pergunta sobre quem deve ser responsabilizado quando algo sai do controle. Para quem pretende investir na Anthropic — que pode buscar uma avaliação próxima de US$ 2 trilhões — a decisão, no fim das contas, acaba sendo simples: aceitar um risco quase impossível de medir ou simplesmente ficar de fora do negócio.

“É improvável que investidores deixem de participar desses IPOs por exposições que não conseguem quantificar. Este é um bom momento para captar recursos antes que alguns desses riscos se tornem objetivamente mensuráveis”, afirmou Joe Ziolkowski, CEO da Relm Insurance.

No fim das contas, o IPO da Anthropic expõe um dilema que vai muito além de planilhas e projeções financeiras: até que ponto o mercado está disposto a precificar riscos que a própria empresa admite não conseguir controlar por completo? Enquanto reguladores, investidores e seguradoras tentam encontrar um modelo para lidar com essa incerteza, a corrida bilionária por participação no setor de inteligência artificial segue em ritmo acelerado.

Com informações de infomoney.com.br.

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