O isolamento da IA pode se tornar uma ameaça estratégica para a Europa, segundo Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu. Em discurso em Viena nesta segunda-feira (14), ela defendeu que o continente desenvolva sua própria tecnologia para preservar a autonomia e garantir os ganhos de eficiência necessários à manutenção do seu modo de vida.
Isolamento da IA preocupa Banco Central Europeu

Embora empresas europeias já invistam em inteligência artificial, a maior parte da tecnologia utilizada ainda é importada, principalmente dos Estados Unidos. Por isso, uma interrupção no acesso ou uma mudança nas condições de uso poderia atingir simultaneamente diferentes áreas da economia e ampliar o risco de isolamento da IA.
Lagarde citou aplicações que devem se tornar cada vez mais comuns para mostrar o tamanho da dependência tecnológica:
“Dentro de alguns anos, a IA estará inspecionando mercadorias na fronteira, decidindo quais declarações de impostos serão auditadas, despachando trens, monitorando pacientes em enfermarias e processando pagamentos em bancos”, disse Lagarde em um discurso em Viena.
Na avaliação da presidente do BCE, a retirada do acesso ou uma alteração nos termos de utilização teria impacto amplo. A tecnologia, portanto, poderia ser usada como instrumento de pressão em negociações comerciais, inclusive em discussões sobre tarifas e impostos digitais.
Europa quer reduzir dependência tecnológica

Europa e Estados Unidos continuam sendo aliados fundamentais, mas a confiança mútua passou por turbulências recentes. Entre os episódios mencionados estão as tarifas, as exigências dos EUA para assumir o controle da Groenlândia e a retirada de tropas norte-americanas da Europa devido a divergências políticas.
Diante desse cenário, Lagarde apontou o aumento da capacidade computacional europeia como parte da resposta. Para ela, o continente precisa criar modelos de inteligência artificial que sejam “bons o suficiente” para a maioria das tarefas e que possam operar com infraestrutura europeia. Dessa forma, a ameaça de isolamento da IA perderia força.
A presidente do BCE afirmou ainda que a Europa já paga pela tecnologia e, por isso, deveria adotá-la com mais vigor. Se a adaptação ocorrer rapidamente, a IA poderá elevar a produtividade em até 4% ao longo de uma década — resultado que, segundo Lagarde, seria transformador para as finanças públicas.
Falta de centros de dados aumenta vulnerabilidade

O problema, no entanto, não está apenas nos modelos e aplicativos. A Europa também enfrenta limitações de infraestrutura. Lagarde afirmou que a capacidade de centros de dados do continente já é insuficiente para atender à própria demanda e que, seguindo as tendências atuais, essa lacuna deverá aumentar mais de seis vezes em uma década.
“A Europa já possui uma capacidade de centros de dados insuficiente para atender à sua própria demanda e, seguindo as tendências atuais, essa lacuna deverá aumentar mais de seis vezes em uma década”, disse Lagarde.
Além disso, a dependência financeira do setor tecnológico norte-americano também preocupa. As empresas dos EUA precisam de investimentos tão elevados que estão contraindo empréstimos na Europa. Isso aumenta os custos para os demais participantes do mercado, porque essas companhias acabam excluindo outras empresas do mercado de dívida.
Os fundos de pensão europeus, por sua vez, mantêm investimentos expressivos em ações de tecnologia dos EUA. Assim, uma eventual correção de mercado poderia afetar diretamente as poupanças dos europeus e ampliar os efeitos econômicos do isolamento da IA.