A Totvs (TOTS3) usou o palco do Dia do Investidor de 2026, realizado junto com o Universo Totvs — evento que deve reunir mais de 25 mil participantes ao longo de dois dias — para mostrar ao mercado que está colocando a casa em ordem quando o assunto é monetização de IA. Entre os destaques estão o lançamento do CORTEN, a ampliação das soluções de inteligência artificial, novos pacotes de software e a expansão dos serviços financeiros da companhia.

Em relatório assinado pelos analistas Marcelo Santos, Livea Mizobata e Victoria Antonello, o JPMorgan chamou atenção justamente para esse conjunto de novidades. Na avaliação do banco, as iniciativas podem ampliar as oportunidades de ganhar dinheiro com a base de clientes já existente e, além disso, abrir novas fontes de receita. Apesar disso, a própria administração da empresa foi clara: os lançamentos ainda não entraram nas projeções financeiras, e a adoção deve ser gradual, com contribuição mais relevante só a partir de 2027.

Monetização de IA muda o foco do debate sobre a Totvs
A leitura do mercado financeiro sobre o evento foi, de modo geral, favorável. A equipe do Goldman Sachs, liderada por Irma Sgarz, apontou que o encontro sinaliza uma transição: a estratégia de inteligência artificial está deixando de ser só promessa e passando a ganhar uma política de preços concreta. Ou seja, a monetização passa a ser baseada em tarefas concluídas, enquanto as novas ofertas do Intera e a camada de IaaS foram pensadas para aumentar a fatia da Totvs no custo total de propriedade (TCO) dos clientes.

Na mesma linha, os analistas Bernardo Guttmann e Luis Chagas, da XP Investimentos, reforçaram que o evento deixou mais clara a ideia de que a empresa está bem protegida contra a disrupção causada pela IA e tem um caminho crível para transformar essa tecnologia em receita. Segundo a XP, a mensagem central é que a Totvs trata a inteligência artificial como uma camada extra de faturamento, e não como algo que vai substituir seu negócio principal.
O Bradesco BBI seguiu o mesmo tom, classificando o evento como um fator incrementalmente positivo para a tese de investimento. Para o banco, isso ajuda a deslocar o debate do risco de disrupção pela IA para a oportunidade real de monetização.
CORTEN: a nova categoria que junta tudo
O grande anúncio da data foi o CORTEN, categoria que reúne sistemas de gestão, relacionamento com clientes, serviços financeiros, nuvem, inteligência artificial e serviços numa estrutura só. A estratégia por trás disso é simples: posicionar a Totvs como fornecedora de uma solução mais completa de tecnologia, ampliando sua fatia nos gastos de TI dos clientes.
O JPMorgan também destacou o potencial de venda cruzada entre produtos. Cerca de 56% dos clientes usam até três soluções da Totvs, mesmo a companhia oferecendo mais de 40 produtos por cadeia de valor — ou seja, ainda há bastante espaço para empurrar mais serviços para quem já é cliente. Além disso, aproximadamente 25% dos acréscimos brutos à receita recorrente anual vêm de clientes novos, o que renova as chances de vender outras soluções a essa base recém-chegada.
Agentes de IA e o modelo TaaS prometem novas receitas
Entre as apostas mais ousadas está o TaaS, modelo que monetiza o uso de APIs e agentes de inteligência artificial. A cobrança dos agentes será baseada nas tarefas concluídas, enquanto o consumo é organizado em faixas de T-Coins, convertidas em reais. Na prática, os clientes terão uma franquia mensal, com cobrança adicional caso usem mais do que o combinado.
A companhia mostrou mais de 30 agentes de IA espalhados por diferentes produtos e segmentos. A ideia é encaixar essas ferramentas nos fluxos de trabalho que os clientes já usam no dia a dia, facilitando a adoção por funcionários de áreas diversas — e não só pelo pessoal de tecnologia.
Apesar do potencial, o JPMorgan não espera uma contribuição significativa do TaaS já no quarto trimestre de 2026. Como as soluções lidam com processos críticos e integrados, a adoção tende a exigir tempo até que os clientes confiem de fato na tecnologia. Por isso, o banco enxerga maior relevância para os resultados entre 2027 e 2029.
A companhia também pretende expandir o T-Cloud, sua plataforma de nuvem, para atender aplicações de terceiros por meio de infraestrutura como serviço (IaaS). A iniciativa atende à demanda de clientes que querem consolidar operações em um único ambiente e, de quebra, abre caminho para a oferta de inteligência artificial como serviço (AIaaS).
Novos pacotes e a integração com a Linx
Outra frente de crescimento é a reorganização da oferta de software como serviço por meio dos pacotes Intera. Além da opção padrão, a Totvs lançou versões voltadas às áreas financeira, de marketing e de recursos humanos, além do Intera 360, que reúne todos os recursos e dá acesso ao conjunto completo de aplicações.
Os preços variam de 40% a 100% acima do pacote padrão, dependendo da opção escolhida, e a cobrança combina mensalidade com itens de consumo, como pacotes de mensagens. Segundo a companhia, mesmo assim o custo total de propriedade fica abaixo do observado em concorrentes como a SAP.
O JPMorgan enxerga nessas mudanças — somadas ao CORTEN e à integração da Linx — oportunidades concretas de ampliar a receita por cliente. A integração com a Linx, aliás, funciona nas duas direções: permite vender soluções da Totvs para a base da empresa adquirida e também oferecer produtos da Linx aos clientes que já são da Totvs.
Techfin entra com conta digital dentro do ERP
Outra novidade apresentada foi a Conta+, solução que incorpora uma conta digital diretamente ao sistema de gestão empresarial, começando pelo Protheus. A oferta reúne Pix, TED, pagamento de contas e tributos, além de produtos de crédito, antecipação de recebíveis e capital de giro.
A proposta é reduzir tarefas manuais, acabar com a troca de arquivos entre sistemas e automatizar a conciliação bancária. Segundo a estimativa da companhia, os clientes podem economizar até R$ 30 mil por ano com a solução.
A área de Techfin da empresa ainda afirma que seus dados permitem avaliar o risco de crédito com mais precisão do que os bancos tradicionais conseguem. De acordo com a companhia, uma diferença de 9 pontos percentuais na estatística KS mostra maior capacidade de separar bons pagadores dos maus pagadores.
A IA também corta custos internos e acelera entregas
Além de abrir frentes de receita, a inteligência artificial tem sido usada para elevar a produtividade dentro de casa. A receita líquida por funcionário equivalente em tempo integral cresceu 11% na comparação anual no segundo trimestre de 2026.
Na área de atendimento da RD, nove em cada dez interações já passam por IA, e 60% são resolvidas por autosserviço — sem intervenção humana. Durante a atual reforma tributária, os chamados de suporte aumentaram 31,1% entre 2024 e 2026, mas, segundo a companhia, isso aconteceu sem necessidade de novas contratações específicas.
A inteligência artificial também reduziu em 46% o tempo de implementação de sistemas ERP, ao automatizar etapas como documentação, testes e carregamento de dados. Em alguns casos, tarefas que antes exigiam 480 horas passaram a demandar apenas 22 horas.
No marketing, agentes de IA diminuíram de 30 para cinco dias o intervalo entre identificar um desvio e agir sobre ele. As ferramentas ainda reduziram em três vezes o retrabalho criativo e ajudaram a produzir mais de 500 peças no mês anterior.
Adoção gradual, mas com olho no longo prazo
Apesar de todo o entusiasmo em torno dos anúncios, o JPMorgan faz questão de lembrar que essas novidades representam oportunidades de crescimento, não uma virada imediata nos números. A própria administração da Totvs espera que a monetização de IA, a expansão da nuvem, os novos pacotes e as vendas cruzadas ganhem força aos poucos, e não de uma hora para outra.
80% das 583 empresas brasileiras pesquisadas já utilizam ou testam inteligência artificial, mas apenas 7% incorporaram a tecnologia à estratégia corporativa.
Esse número, apresentado em um estudo durante o evento, resume bem o tamanho da oportunidade enxergada pela Totvs: ainda há um abismo entre quem só experimenta IA e quem realmente a transformou em parte da estratégia do negócio. Para a companhia, essa diferença é justamente o espaço que pretende ocupar com suas soluções integradas de gestão e inteligência artificial.
No fim das contas, o conjunto de lançamentos amplia bastante as possibilidades de crescimento da Totvs, mas o ritmo de adoção pelos clientes e a capacidade de transformar essas novas ofertas em receita recorrente serão os fatores que vão realmente determinar o tamanho desse impacto nos próximos anos.
Com informações de infomoney.com.br.