Faltam menos de 48 horas para o 2º turno das eleições 2026 quando esta reflexão começa a ser escrita, ainda numa sexta-feira (23). Quem lê este texto já sabe o resultado da disputa, mas quem o escreve, naquele momento, não tinha a menor ideia de quem sairia vencedor. Essa é a estranheza de qualquer análise feita “do passado”, publicada depois que tudo já aconteceu.
Há, porém, uma certeza que independe de quem tenha ganhado: para quase metade do país, a semana começa com uma sensação de fim do mundo. A rejeição entre os dois lados é praticamente simétrica, e quem perdeu a eleição vai se ver governado por alguém em quem jamais votaria. O retrato é de um Brasil partido ao meio, somando-se ainda um quinto da população que sequer foi às urnas.
O Brasil dividido e o eco de um “fim do mundo” antigo
De acordo com pesquisas citadas na reflexão, cada metade do eleitorado enxerga a outra como formada por gente “pior”. Para os que ficaram do lado derrotado, vale lembrar que essa sensação de catástrofe não é novidade histórica — aliás, um dos textos mais importantes do pensamento ocidental nasceu justamente de um “fim do mundo” parecido.
No dia 24 de agosto de 410, Roma foi saqueada pelos visigodos depois de 800 anos sem sofrer uma invasão. São Jerônimo resumiu o choque da época numa frase direta: “O mundo pereceu em uma cidade”. Já havia polarização ali também: os pagãos culpavam os cristãos pela pilhagem da cidade. Como sempre acontece nesses momentos, a culpa pelo “fim do mundo” recaía sobre o outro lado.
O Brasil que é feito de brasileiros, segundo Santo Agostinho
Foi nesse cenário de desespero que Santo Agostinho escreveu seu “Sermão sobre a Queda de Roma”, um dos textos mais fortes já produzidos contra o derrotismo. Quando tudo parecia perdido, ele reforçou que confundir a própria cidade com o mundo inteiro faz com que qualquer derrota pareça o apocalipse. Em vez disso, propôs que cada pessoa olhasse primeiro para si mesma.
O autor reconhece a dor, o choro e o desconsolo daquele momento, mas lembra, logo depois, que o mundo segue girando no dia seguinte. Antes mesmo das instituições, segundo ele, a cidade está nas pessoas: “Roma enim quid est, nisi Romani?” — ou seja, o que é Roma senão os romanos? Trazendo para o contexto atual, a pergunta se transforma: o que é o Brasil senão os brasileiros?
“Entre os inimigos, escondem-se futuros concidadãos.”
A queda de Roma deixou claro que toda cidade carrega, na verdade, duas cidades dentro de si: uma erguida sobre o amor egoísta e voltado a si mesmo, e outra construída sobre o amor ao próximo. Por isso, impérios tendem a ser frágeis, e suas quedas também abrem espaço para renovação — como resume a frase de Agostinho citada acima.
Entre o afastamento e a reconciliação
As pesquisas mencionadas na coluna mostram que 52,7% das pessoas já se afastaram de alguém por causa de divergências políticas. Diante disso, existem dois caminhos possíveis após uma derrota eleitoral: usar o resultado para se afastar ainda mais do “outro lado”, ou usá-lo como ponto de partida para recomeçar e somar esforços em prol da cidade. Como resume a expressão citada no texto, “o homem fez, o homem desfez”.
Nesse sentido, Santo Agostinho deixou uma lição que continua atual: “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”. Essa frase, aliás, costuma ser repetida pelo papa Leão 14, que é o primeiro papa de formação agostiniana.
A responsabilidade do “depois”
A reflexão também recupera a história de Jó, que perdeu tudo o que tinha e, mesmo assim, recusou o conselho de amaldiçoar a própria vida e desistir. É esse tipo de responsabilidade — o que fazemos depois do “fim do mundo” — que a coluna coloca em destaque.
Por fim, o texto resgata outro Agostinho, o português Agostinho da Silva, que também viveu na Bahia. Em meio à Segunda Guerra, ele defendeu que se buscasse em cada pessoa, povo ou crença “não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz”. Para transformar o país de verdade, portanto, é preciso lembrar que um povo não se define pelo que odeia, mas sim pelo que ama. Afinal, como resume a própria reflexão, ódio é coisa ruim, não dá certo.
Com informações de redir.folha.com.br.