A Patchstack, empresa especializada em segurança para o ecossistema WordPress, decidiu revisar de forma ampla as regras de seu programa de recompensas por vulnerabilidades (bug bounty). A companhia afirma que, desde sua criação, o programa buscou premiar pesquisas com impacto de segurança real e relevante, mantendo o processo de triagem viável e sustentável ao longo do tempo.
Esse modelo funcionou bem mesmo após a Patchstack se tornar uma CNA (Autoridade de Numeração de CVEs). Segundo a empresa, durante esse período os relatórios recebidos costumavam ser bem documentados, com alta severidade, impacto claro e provas de conceito reproduzíveis, o que permitia manter a qualidade das análises sem comprometer a coordenação responsável das falhas encontradas.
O impacto da inteligência artificial no volume de relatórios

Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial aplicadas à pesquisa de segurança, sobretudo ao longo de 2026, a Patchstack passou a notar um crescimento expressivo de submissões que atendem apenas superficialmente aos critérios do programa, sem representar um risco real significativo.
De acordo com a empresa, cada ajuste feito nas regras é rapidamente contornado por pesquisadores que passam a enviar relatórios tecnicamente aptos, mas de baixo impacto prático. A flexibilidade do sistema de pontuação CVSS, somada à própria natureza modular do WordPress, dificulta a criação de critérios rígidos sem que isso resulte em uma lista extensa e complexa de exceções.
Outro problema apontado foi o aumento expressivo de relatórios duplicados. Em alguns casos, a Patchstack recebeu mais de 20 submissões distintas para a mesma vulnerabilidade, evidenciando a capacidade das ferramentas de IA de identificar e reproduzir padrões de falhas em larga escala.
Relatórios com suposições incorretas geradas por IA

A empresa também relatou casos recorrentes de submissões baseadas em validações falhas ou em conclusões equivocadas geradas por inteligência artificial, sem verificação adequada antes do envio. Entre os exemplos citados estão:
- Relatórios que alegam upload arbitrário de arquivos, quando na prática só é possível enviar imagens.
- Relatórios que descrevem falhas graves em endpoints AJAX do WordPress, mas dependem de um nonce nunca exposto ao frontend, partindo da premissa incorreta de que um usuário malicioso poderia gerá-lo livremente com wp_create_nonce.
- Relatórios que exigem pré-requisitos incomuns, improváveis em uma instalação padrão de servidor web.
- Relatórios que dependem do conhecimento de valores secretos que não poderiam ser obtidos remotamente sem a exploração prévia de outra vulnerabilidade.
A Patchstack reconhece que nem todos os efeitos da IA foram negativos: a tecnologia também elevou a qualidade de muitas provas de conceito e descrições técnicas, além de contribuir para a descoberta de mais vulnerabilidades — algo benéfico para o ecossistema como um todo. No entanto, o aumento do volume de submissões tem gerado dificuldades consideráveis de triagem, um desafio compartilhado por outros programas de recompensa no mercado.
O que os números mostram

A empresa divulgou dados internos sobre o destino dos relatórios recebidos, classificados como rejeitados, duplicados ou válidos. Segundo a Patchstack, os números dos últimos meses revelam picos expressivos de duplicações, além de um crescimento relevante de relatórios que não atendem às exigências mínimas do programa.
Novas regras a partir de junho de 2026

Para preservar a qualidade das análises e tornar a triagem mais sustentável, a Patchstack anunciou que, a partir de 1º de junho de 2026, os relatórios submetidos precisarão atender a pelo menos um dos seguintes critérios:
1) Requisitos de bounty para vulnerabilidades zero-day
Relatórios que se enquadrem nas exigências específicas para zero-day continuarão sendo aceitos e elegíveis para recompensas, conforme as diretrizes já publicadas pela empresa.
2) Restrição a papéis de usuário com baixo privilégio
O papel de “contribuidor” deixa de fazer parte do escopo do programa. Agora, os relatórios precisarão envolver perfis como visitante, assinante, cliente ou funções personalizadas equivalentes — desde que não exijam concessão explícita por um administrador. A empresa justifica a mudança afirmando que praticamente todas as vulnerabilidades graves já exploradas no ecossistema WordPress não exigiam autenticação ou, no máximo, dependiam de acesso de assinante/cliente.
3) Tipos específicos de vulnerabilidade, com condições
Serão aceitas apenas categorias específicas de falhas, cada uma com condições próprias, entre elas:
- Injeção de SQL
- Cross-Site Scripting (XSS) — com impacto em todo o site ou de forma refletida
- Upload, exclusão ou download arbitrário de arquivos — com controle total sobre caminho e extensão
- Execução remota/arbitrária de código
- Injeção de objetos PHP
- Alteração arbitrária de configurações — com impacto significativo nas opções do WordPress
- Escalonamento de privilégios — desde que resulte em acesso de contribuidor ou superior
- Inclusão local ou remota de arquivos — com controle total sobre caminho e extensão
- Falha de controle de acesso — com acesso a objetos sensíveis, como chaves de API, hashes de senha ou arquivos de backup/SQL
- IDOR — apenas quando resultar em impacto de segurança relevante, excluindo casos de mero vazamento de dados pessoais ou interações com anexos, tickets, eventos, pedidos ou agendamentos
- CSRF — desde que leve a uma das ações de escrita listadas acima
4) Softwares dentro do escopo mVDP da Patchstack
Relatórios envolvendo softwares incluídos no escopo mVDP da Patchstack continuarão sendo aceitos, inclusive quando envolverem o papel de contribuidor, desde que demonstrem impacto de segurança mensurável.
Mudanças na estrutura de recompensas
Além dos critérios de elegibilidade, a empresa também alterou a forma de distribuição das recompensas:
- Não serão mais concedidas recompensas baseadas em níveis.
- Não haverá mais sorteios de recompensas entre pesquisadores selecionados aleatoriamente.
- O fundo mensal de recompensas passa a ser limitado aos cinco melhores relatórios do período.
- Relatórios envolvendo softwares mVDP continuam sendo aceitos quando demonstram impacto real, mas podem não gerar pontos de experiência (XP).
Punições para submissões abusivas
Diante do volume persistente de relatórios que descumprem claramente as regras do programa, a Patchstack passará a aplicar banimentos temporários de uma semana para pesquisadores que enviarem:
- Relatórios com suposições incorretas geradas por inteligência artificial.
- Relatórios que evidentemente não foram testados contra o plugin ou tema real.
- Relatórios que claramente não atendem às regras do programa de bug bounty da Patchstack.
A empresa afirma compreender que essas mudanças terão impacto direto na forma como os pesquisadores se relacionam com o programa, mas defende que os ajustes são necessários para preservar a qualidade e a sustentabilidade da iniciativa a longo prazo.