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Fim do SERP: Google deve abandonar a página de resultados tradicional entre 2028 e 2030

Por: Eduardo Carrega
15/10/2026
12:04h
Fim do SERP: Google deve abandonar a página de resultados tradicional entre 2028 e 2030
Entenda por que o fim do SERP tradicional do Google pode acontecer entre 2028 e 2030, com dados sobre AI Overviews, AI Mode e pressões regulatórias.
RESUMIR COM:

A boa e velha página de resultados do Google — aquela lista azulzinha de links que todo mundo conhece — pode deixar de ser a primeira coisa que aparece quando você faz uma busca. A previsão é que isso aconteça entre 2028 e 2030, começando pelos Estados Unidos, com Reino Unido e União Europeia chegando atrás, um ano ou mais depois. É importante frisar: trata-se de uma projeção, não de um fato consumado, e o próprio autor da análise original faz questão de separar bem essas duas coisas ao longo do texto.

Vale entender o que significa exatamente “deixar de ser o padrão”. O SERP (sigla em inglês para página de resultados de busca) não vai ser extinto. Ele seria rebaixado a um passo de distância — ainda acessível para quem quiser procurar por ele, mas não mais o lugar em que o usuário cai automaticamente.

Antes de continuar, um disclosure importante do autor original: a empresa dele mede visibilidade e dados de IA, então um mundo com menos SERP não é exatamente um território neutro para seus interesses. Em previsões anteriores para 2027, ele já havia defendido que a página de resultados sobreviveria como uma interface “legada” enquanto as decisões realmente importantes migrariam para outros lugares. Mais recentemente, ele também detalhou pesquisas que permitiriam ao Google ranquear conteúdo sem nem precisar de um índice tradicional. Mas o foco agora é outro: não é sobre como isso vai acontecer, e sim sobre quando a página vai deixar de ser o ponto de chegada padrão dos usuários.

O SERP ainda não acabou, apesar do que dizem por aí

Quem acompanha conteúdo de fornecedores do setor desde maio talvez já acredite que essa mudança aconteceu. Circulou bastante a ideia de que o Google teria tornado o AI Mode o padrão global durante o I/O 2026. Só que o anúncio oficial da empresa diz algo mais específico: o Gemini 3.5 Flash passou a ser “o novo modelo padrão no AI Mode para todo mundo, globalmente”, a caixa de busca ganhou a maior reformulação em 25 anos, e “você vai continuar recebendo uma variedade de resultados da Busca, assim como acontece hoje”.

Duas semanas depois, quando uma flag do Chrome Canary enviou buscas feitas direto na barra de endereço para o AI Mode, o VP de Engenharia de Busca do Google, Rajan Patel, classificou o episódio como um erro e escreveu: “Não estamos planejando tornar o AI Mode o padrão para buscas no Chrome”. Ou seja, o padrão ainda não mudou. Pelo menos, não oficialmente.

Google já preparou o terreno para a transição do SERP

Em maio de 2024, o Google lançou um filtro chamado “Web”, que mostra apenas links de texto puro, ao lado de abas como Imagens, Vídeos e Notícias (ou escondido em “Mais”). Danny Sullivan apresentou a novidade como uma conveniência para quem prefere links simples. Visto hoje, esse filtro parece mais uma peça de infraestrutura estratégica: ele já entrega exatamente o que um SERP rebaixado precisaria — apresenta os links ranqueados como mais uma opção entre várias, acessível com um clique ou um parâmetro de URL. Para promover a camada de respostas por cima dele, basicamente não seria necessária nenhuma engenharia nova.

Isso muda a pergunta central. O Google não precisa construir nada para empurrar a lista ranqueada um passo para trás — só precisa de um motivo para mudar qual visualização carrega primeiro. Por isso, a discussão real é sobre quando esses motivos vão se alinhar.

Os números por trás da mudança

Vale olhar para a fatia que a camada de respostas por IA já ocupa na página. Em um estudo de navegação do Pew Research Center com 900 adultos americanos, realizado em março de 2025, 18% das buscas no Google geraram um resumo por IA, e os usuários clicaram em um resultado tradicional em apenas 8% das visitas com resumo, contra 15% quando não havia resumo. Já em maio de 2026, o relatório Generative AI Landscape de 2026 da Similarweb apontou que os AI Overviews apareciam em 43% das buscas nos EUA, um salto em relação aos 15% registrados um ano antes.

Essas duas medições usam metodologias diferentes e não devem ser costuradas como se fossem uma linha única, mas apontam na mesma direção e em velocidade parecida: de menos de um quinto das buscas nos EUA para mais de dois quintos em cerca de 14 meses. Vale lembrar que, segundo um documento amicus curiae apresentado no recurso do DOJ, não existe uma medição padrão da indústria para a prevalência dos AI Overviews — por isso a análise se apoia na direção apontada por diferentes fontes, em vez de um único percentual isolado.

E tem também a camada conversacional. Segundo o próprio Google, o AI Mode ultrapassou um bilhão de usuários mensais em menos de um ano desde o lançamento, com consultas “mais que dobrando a cada trimestre”. São números grandes, divulgados pela própria empresa. Em contraste, dados de painel da Similarweb, analisados em um estudo de junho de 2026 sobre buscas “zero-clique”, mostraram que o AI Mode representava apenas 0,34% das buscas no Google entre janeiro e abril de 2026.

Um bilhão de pessoas já experimentou a interface de resposta direta — mas quase ninguém fez dela o ponto de partida das buscas.

Esse contraste mostra bem como essa transição funciona na prática. A Similarweb também mediu que o AI Mode gera encaminhamentos externos (referrals) em apenas 1,6% a 2,5% das consultas, contra 17% a 19% da busca tradicional — um retrato bem claro do que uma eventual virada de padrão representaria para quem depende do clique do usuário.

O comportamento das pessoas também está mudando aos poucos. A Similarweb registrou um aumento de 5,4% no comprimento médio das consultas no Google depois da chegada do AI Mode, e consultas mais longas são justamente as que têm mais chance de disparar uma resposta gerada por IA — ou seja, os usuários estão, pouco a pouco, formulando buscas que os empurram para essa camada. Fora do universo Google, a OpenAI reportou 900 milhões de usuários semanais do ChatGPT em fevereiro de 2026, mas a Similarweb constatou que a maioria desses usuários continuava usando o Google normalmente. O padrão é de adição, não de substituição — o que sugere que, se o SERP perder seu posto de padrão, não será para um concorrente, mas para o próprio Google.

Por que o Google ainda não tem pressa para mudar

O Google já tem toda a capacidade técnica para virar essa chave amanhã. Não fez isso ainda, e o motivo é simples: dinheiro. A página de resultados tradicional ainda carrega o inventário publicitário mais comprovado da história da publicidade digital, enquanto os formatos de anúncio da camada de respostas têm apenas alguns meses de existência. No Google Marketing Live, em maio, a empresa apresentou anúncios inseridos dentro das respostas do AI Mode, incluindo formatos em que o próprio Gemini monta o anúncio em torno da pergunta do usuário. No resumo oficial do evento, o Google afirma: “Não estamos apenas trazendo anúncios para experiências de IA Search; estamos reinventando o que é um anúncio nesse contexto.”

Do outro lado, a conta também está mudando rápido. Nos resultados do segundo trimestre de 2026, Sundar Pichai disse que o Google “reduziu o custo das respostas do AI Mode para o nível mais baixo desde o lançamento” e que a empresa “uniu os AI Overviews e o AI Mode em uma única experiência de busca”. Ou seja: o custo para servir essas respostas está caindo, as duas superfícies estão se fundindo, e os novos formatos de anúncio estão amadurecendo. No mesmo trimestre, a receita de publicidade em Rede (Network) caiu 1% — justamente a fatia do negócio que depende de mandar tráfego para páginas de terceiros, e que já é a parte que está encolhendo.

Juntando essas peças, fica mais claro o gatilho da mudança: o Google tende a virar o padrão quando o rendimento publicitário por consulta na camada de respostas alcançar uma paridade aproximada com a página tradicional. Antes disso, fazer a troca custaria dinheiro ao Google. Depois desse ponto, manter o modelo antigo é que passaria a custar caro. Todo o resto dessa previsão gira em torno de quando esse cruzamento vai acontecer e o que pode atrasá-lo.

Um exercício rápido de matemática: se a fatia de 0,34% do AI Mode continuasse dobrando a cada trimestre, ela ultrapassaria 40% em cerca de sete trimestres, o que cairia no fim de 2027. Só que nada dobra para sempre, e esse número é uma estimativa de painel, não uma contagem exata — então o fim de 2027 seria o limite mais otimista que a matemática permite, não uma previsão real. Serve principalmente para mostrar que a ponta inicial do intervalo de 2028 a 2030 não é conservadora à toa.

Os freios são jurídicos, não técnicos

Três processos regulatórios distintos pesam diretamente sobre o futuro do SERP, e cada um corre no seu próprio ritmo.

  • No Reino Unido, a Competition and Markets Authority (CMA) emitiu exigências de conduta vinculantes em 3 de junho de 2026, permitindo que editores de conteúdo optem por ficar fora dos AI Overviews e do AI Mode sem serem penalizados nos resultados de busca padrão — e deu ao Google nove meses para implementar as regras, com prazo em torno de março de 2027.
  • Na União Europeia, a Comissão Europeia abriu uma investigação formal em dezembro de 2025 para apurar se os AI Overviews e o AI Mode usam conteúdo de editores sem compensação ou sem uma forma de recusa que não implique perder acesso à Busca do Google. O caso segue em aberto, e processos de concorrência na UE raramente se resolvem rápido.
  • Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça e os estados autores do processo apresentaram, em julho de 2026, um recurso cruzado argumentando que o juiz Mehta deveria ter considerado proibir os pagamentos do Google a distribuidores.

Em resumo, uma vez que essas regras entrem em vigor, uma camada de resultados ranqueados deixa de ser apenas uma escolha de produto do Google: ela passa a ser o espaço onde editores que optaram por ficar de fora têm o direito garantido de continuar visíveis. Enterrar esse espaço, nesse cenário, atrairia exatamente o tipo de escrutínio que essas regras foram criadas para evitar — e é justamente esse equilíbrio entre pressão econômica e amarras regulatórias que deve definir o ritmo real dessa transição nos próximos anos.

Com informações de searchenginejournal.com.

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