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Boom da inteligência artificial: por que a tinta cinza virou item de luxo nos data centers

Por: Eduardo Carrega
23/10/2026
16:01h
Boom da inteligência artificial: por que a tinta cinza virou item de luxo nos data centers
O boom da inteligência artificial impulsiona vendas de tintas para data centers e revela uma cadeia inteira de fornecedores beneficiados pela IA.
RESUMIR COM:

Pode parecer estranho, mas a corrida bilionária pela inteligência artificial também está deixando a indústria de tintas em polvorosa. Em Pittsburgh, nos Estados Unidos, dentro de um prédio de concreto apelidado de “o bunker”, pesquisadores da PPG — fabricante de revestimentos avaliada em US$ 24 bilhões (R$ 121 bilhões) — apontam maçaricos para painéis de aço cobertos por uma camada cinza. O objetivo é simples: testar se aquela tinta aguenta o fogo sem deixar o metal derreter.

Paul Fenton, químico e engenheiro da PPG, ergueu um dos painéis logo após submetê-lo às chamas. A tinta, que originalmente tinha apenas um milímetro de espessura, havia se transformado em uma crosta preta de quase dez milímetros. Ou seja, o revestimento cumpriu exatamente o papel esperado: criar uma barreira grossa o suficiente para impedir que o calor amolecesse o aço por baixo.

O boom da inteligência artificial chega até a tinta

“É como um marshmallow tostado, que gosta de se expandir”, comparou Fenton, de jaleco e óculos de proteção por cima dos próprios óculos de grau. Segundo ele, o ar retido nessa camada expandida “mantém tudo frio” — e é justamente essa propriedade que tem feito o telefone da PPG não parar de tocar.

O produto em questão, batizado de Steelguard 951, virou um dos carros-chefe da empresa para equipar data centers e, não por acaso, suas vendas dispararam. Afinal, enquanto Microsoft, Google, Amazon e outras gigantes de tecnologia correm para erguer as instalações de computação que sustentam o boom da inteligência artificial, negócios como o da PPG embarcam na mesma onda de crescimento.

A própria companhia projeta que as vendas de tintas voltadas a data centers triplicarão neste ano em comparação ao anterior — um ritmo bem acima do desempenho geral da empresa, cujas vendas totais cresceram 7%, somando US$ 4,5 bilhões no trimestre mais recente.

“Nunca vi um boom tão grande quanto este”, disse Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos de proteção e marítimos da PPG para as Américas.

Uma cadeia inteira de fornecedores sai ganhando

Em outras palavras, a onda de investimentos em inteligência artificial — que já havia enriquecido fabricantes de chips como a Nvidia e laboratórios como OpenAI e Anthropic — agora chega até produtos do dia a dia industrial. À medida que os data centers se multiplicam pelo país, eles puxam junto as vendas de brita (usada no concreto de fundações e pisos) e de fios e cabos, responsáveis por levar eletricidade e dados a milhares de servidores. Dessa forma, uma longa fila de setores aparentemente distantes da tecnologia acaba lucrando com essa expansão.

No setor de tintas, esse efeito tem sido especialmente forte. A Sherwin-Williams, principal concorrente da PPG, afirma que seus produtos aparecem em praticamente todos os cantos dessas instalações, das vigas de aço aos racks de servidores. Em julho, Heidi Petz, presidente-executiva da Sherwin-Williams, revelou que as vendas da divisão de revestimentos de proteção e marítimos da empresa cresciam na casa dos dois dígitos, na faixa intermediária, puxadas justamente pela construção de data centers.

“Velocidade importa”, resumiu Petz, destacando que a Sherwin-Williams se posiciona como fornecedora única, capaz de entregar todos os tipos de tinta que um data center precisa.

Por que a tinta é tão importante nesses prédios

Matthew Giddings, que ajuda a administrar data centers na imobiliária comercial JLL, explica que a tinta tem um papel estratégico nessas construções: ela contribui para a proteção contra incêndios em salas elétricas e reduz a eletricidade estática. Segundo ele, os revestimentos estão espalhados por toda parte, “das paredes às coberturas dos telhados, passando pelas estruturas de aço e pela parte externa do edifício”. Em um único empreendimento, esse gasto pode variar entre US$ 3 milhões (R$ 15,1 milhões) e US$ 8 milhões (R$ 40,3 milhões) — valor que, apesar de parecer alto, representa só uma fatia pequena do custo total da obra.

Apesar de movimentar tanto dinheiro, o visual desses revestimentos está longe de ser chamativo. A maior parte vem em variações de cinza — a própria PPG usa nomes como cinza-claro, cinza e cinza-escuro. Isso acontece porque as empresas de tecnologia cobrem concreto cinza e aço cinza com ainda mais cinza, já que praticamente ninguém circula por esses ambientes para apreciar a estética: os data centers são ocupados majoritariamente por máquinas, não por pessoas, como observa Solcz.

Segundo ela, a aparência “não está exatamente entre as principais preocupações de nossos clientes, nem dos proprietários de data centers, arquitetos e engenheiros com quem conversamos”.

De fabricante de vidro a fornecedora de revestimentos

A PPG nasceu em 1883 como Pittsburgh Plate Glass Corporation, inicialmente como fabricante de vidro, e só depois se transformou em uma das maiores empresas de tintas do mundo, dona de marcas como a Glidden, bastante conhecida nas prateleiras de lojas de materiais de construção. Em 2024, porém, a companhia vendeu suas lojas de tintas nos Estados Unidos e no Canadá, incluindo a operação da Glidden, e passou a focar no atendimento a outras empresas, fornecendo revestimentos para carros, aviões e até latas de bebidas.

Apesar disso, a PPG evita o termo “tinta” para descrever o que vende. Seus executivos preferem chamar os produtos de “revestimentos”, compostos por um primer que adere ao aço, uma camada funcional de proteção e uma camada final de acabamento.

“Não é como entrar em uma loja, comprar uma lata de tinta e passá-la na parede”, resumiu Amy Ericson, vice-presidente sênior da PPG.

A sede da empresa, um conjunto de torres de vidro que se destaca no horizonte de Pittsburgh, fica a poucos quarteirões da PPG Paints Arena, casa do time de hóquei Pittsburgh Penguins. Já o desenvolvimento desses revestimentos acontece cerca de 21 km dali, no Coatings Innovation Center, um complexo de prédios espelhados nos subúrbios da cidade que inclui justamente “o bunker” onde os testes de fogo são realizados — prova de que, por trás do boom bilionário da inteligência artificial, há também uma disputa silenciosa por quem fornece a camada de tinta certa para proteger tanto aço quanto servidores.

Com informações de redir.folha.com.br.

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