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Demissões por IA: parlamentares dos EUA correm para proteger trabalhadores — veja as propostas

Por: Eduardo Carrega
24/10/2026
04:00h
Demissões por IA: parlamentares dos EUA correm para proteger trabalhadores — veja as propostas
Entenda como parlamentares dos EUA tentam antecipar os riscos das demissões por IA com novos projetos de lei para proteger trabalhadores.
RESUMIR COM:

O avanço acelerado da inteligência artificial tem gerado um medo cada vez mais concreto em Washington: o de que máquinas poderosas substituam milhões de trabalhadores americanos, deixando-os sem renda e sem perspectiva imediata de recolocação. Diante desse cenário, parlamentares dos Estados Unidos começam a se mexer para fortalecer a rede de proteção social do país antes que a crise, se vier, pegue todo mundo de surpresa.

É justamente esse temor de demissões por IA que tem movimentado o Congresso americano nos últimos meses. Democratas e republicanos apresentaram uma série de projetos de lei com o objetivo de amortecer o impacto do avanço tecnológico sobre o emprego. As propostas variam bastante em tamanho e custo, mas, no conjunto, mostram algo em comum: a sensação de que o governo está correndo atrás do prejuízo diante de uma transformação que já está em curso.

Projeto amplia seguro-desemprego para quem perder vaga por causa da IA

A proposta mais recente deve chegar ao Senado na próxima semana. Trata-se de um projeto de democratas, entre eles o senador Ron Wyden, do Oregon — principal nome do partido na comissão responsável por normas tributárias —, que pretende ampliar de forma significativa o programa de seguro-desemprego do país.

Hoje, o benefício cobre parte dos salários de quem está sem trabalho, geralmente por até 26 semanas. Pelo texto de Wyden, o Congresso passaria a oferecer ajuda extra em períodos de desemprego elevado. Além disso, haveria até 26 semanas adicionais de assistência destinadas a quem perdeu o emprego por causa da tecnologia, justamente para custear a requalificação profissional dessas pessoas.

O projeto também traz outros ajustes a um programa federal considerado essencial dentro da rede de proteção social americana — e cujas falhas ficaram escancaradas, sem solução até hoje, durante a pandemia. Para Wyden, a chegada da IA torna essa correção ainda mais urgente, já que o país caminha para “um dos maiores impactos econômicos sobre a economia na história dos Estados Unidos”.

“Acho que seria uma irresponsabilidade não nos prepararmos, porque estamos em uma situação na qual muitos cidadãos sentem o temor crescente de perder o emprego para a IA. E o Congresso tem a responsabilidade de ajudar o país a se preparar.”

Entre otimismo e alerta: o discurso dividido sobre a IA

A chegada da inteligência artificial é, hoje, um dos maiores testes políticos para Washington, onde as divisões partidárias costumam travar qualquer ação rápida — exceto em momentos de crise aberta. Esse ritmo lento contrasta diretamente com a velocidade do Vale do Silício, onde boa parte dos especialistas aposta em transformações econômicas rápidas e profundas puxadas pela tecnologia.

Em uma conferência global neste mês, um dos cofundadores da Anthropic afirmou que a produção dos Estados Unidos poderia crescer quase 50% até 2030. No entanto, o próprio CEO da empresa, Dario Amodei, misturou esse otimismo com alertas mais duros: para ele, a IA pode virar de cabeça para baixo a vida de milhões de trabalhadores.

Apesar de todo esse debate, os economistas, por enquanto, não enxergam evidências de que a IA já tenha mexido de forma ampla no mercado de trabalho. Ainda assim, começam a aparecer alguns “obstáculos à contratação relacionados à IA”, segundo um relatório divulgado nesta semana pelo Goldman Sachs, que identificou que a tecnologia contribuiu recentemente para um crescimento de emprego abaixo do esperado em setores mais vulneráveis a mudanças tecnológicas.

Martha Gimbel, diretora-executiva do Yale Budget Lab, pondera que os sinais atuais ainda não apontam para um efeito macroeconômico da IA. Por outro lado, ela lembra que medir essas mudanças em tempo real é uma tarefa “historicamente incomum” e nada simples.

“No auge da Revolução Industrial, as pessoas não estavam tentando adivinhar se os tecelões já haviam sido substituídos.”

Falta de dados une democratas e republicanos — mas trava no Congresso

Essa incerteza toda já chamou a atenção de Washington, e aí aparece um ponto raro de consenso entre democratas e republicanos: a ideia de que o governo precisa de formas melhores de medir os efeitos reais da IA sobre o emprego.

Um desses projetos, assinado pelos senadores Josh Hawley, republicano do Missouri, e Mark Warner, democrata da Virgínia, exigiria que as empresas detalhem com mais transparência as demissões ligadas à inteligência artificial.

“Na verdade, acredito que, em um horizonte mais longo, de cinco anos ou mais, a IA provavelmente criará categorias inteiramente novas de empregos. Mas o que isso significa nesse intervalo? E ainda não temos dados de qualidade.”

Mesmo com apoio bipartidário, esse e outros projetos semelhantes seguem travados no Capitólio. Isso porque a maioria republicana tem seguido a linha do presidente Donald Trump, que defende uma postura de não intervenção em relação à inteligência artificial.

Bret Swanson, especialista em tecnologia da Heritage Foundation — think tank de orientação conservadora —, avalia que essa resistência pode vir do receio dos republicanos de atrapalhar “esses enormes investimentos em IA, que estão sustentando uma economia que, de outro modo, talvez estivesse enfrentando turbulências”. Segundo ele, essa preocupação chegou a influenciar até o debate sobre os impactos para os trabalhadores, já que o tema poderia “chamar a atenção para os aspectos negativos” da tecnologia diante de uma população que já olha para ela com desconfiança.

No fim das contas, o que fica claro é que, enquanto a tecnologia avança em ritmo acelerado, a resposta política ainda patina entre o consenso sobre a necessidade de dados melhores e a divergência sobre o quanto o governo deve, de fato, intervir. Resta saber se as propostas em tramitação vão sair do papel antes que as demissões por IA, caso se confirmem em larga escala, se tornem um problema sem volta para milhões de trabalhadores americanos.

Com informações de redir.folha.com.br.

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