Um livro lançado pela editora Faber & Faber coloca em xeque a narrativa construída por Pavel Durov sobre a origem do Telegram. A obra “Killer App: The Rise of Telegram and the Battle for the Future of the Internet”, escrita pelo jornalista Darren Loucaides, mostra que a história de perseguição política usada para justificar o aplicativo esconde um passado mais pragmático do que idealista.
A publicação importa porque o Telegram soma 1 bilhão de usuários no mundo e é usado em conflitos opostos, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e o confronto entre Hamas e as Forças de Defesa de Israel. Entender quem controla essa ferramenta e como ela realmente funciona afeta diretamente quem confia no aplicativo para se comunicar com privacidade.
O que o livro sobre o Telegram revela?
Loucaides passou mais de cinco anos investigando a trajetória de Durov e reconstituiu as origens da empresa com base em entrevistas com antigos e atuais investidores, executivos e funcionários do Telegram e da VK, startup anterior de Durov. O autor conclui que o pragmatismo comercial pesou mais do que o idealismo libertário na criação do aplicativo.
Segundo o livro, Durov acreditava que os donos de grandes plataformas estavam construindo espécies de Estados virtuais, capazes de se sobrepor aos governos nacionais. O Telegram teria nascido justamente para materializar essa visão.
Quem é Pavel Durov e qual sua relação com a VK?
Durov criou o Telegram em 2013 ao lado do irmão mais velho, Nikolai, descrito como prodígio da matemática. Antes disso, os dois comandavam a VK (VKontakte), rede social russa comparada ao Facebook.
Conforme o presidente russo Vladimir Putin ampliava o controle sobre a internet no país, a VK passou a sofrer pressão, o que levou Durov a buscar um novo projeto. Durov sempre negou qualquer ligação direta entre as duas empresas, mas o livro apresenta uma versão bem mais conturbada desse rompimento.
Entre os episódios relatados estão uma disputa comercial dentro da VK, uma briga pela propriedade intelectual do próprio Telegram e uma declaração inusitada de Durov, que chegou a dizer que sua renúncia à VK havia sido uma brincadeira de 1º de abril.
Discurso público contrasta com bastidores, segundo autor
Loucaides sugere que parte dos conflitos de Durov teve motivação financeira, não política, apesar da retórica pública de defesa da liberdade de expressão. O autor descreve um contraste entre os protestos ruidosos de Durov nas redes sociais e uma disposição maior para negociar nos bastidores.
Nas palavras do próprio autor, Durov não corresponde à imagem de “anjo sombrio e cruzado da era digital” que cultivou publicamente. Ele também não viveu em exílio após vender sua participação na VK, já que continuou viajando de volta à Rússia.
Segurança do Telegram é questionada no livro
Um dos pontos mais sensíveis da obra trata da segurança do aplicativo. O Telegram não ativa criptografia de ponta a ponta por padrão, e especialistas em segurança já criticaram o protocolo criptográfico proprietário da plataforma.
Organizações de direitos humanos chegaram a acusar o Telegram de possível colaboração com o Kremlin, ao supostamente permitir que o governo russo interceptasse mensagens de dissidentes. Loucaides, no entanto, afirma que sua investigação não encontrou provas que confirmem essa suspeita.
Por que essa discussão importa para quem usa o aplicativo
O livro de Loucaides reforça que avaliar criticamente as promessas de privacidade de qualquer plataforma, inclusive do Telegram, continua sendo necessário diante do volume de informações sensíveis que circulam por ali.
Com informações de redir.folha.com.br.