A Alphabet, dona do Google, descobriu uma mina de ouro inesperada: a venda de chips de inteligência artificial que, até pouco tempo atrás, eram usados só internamente. O negócio está rendendo bilhões de dólares em receita, mas tem um porém importante — a necessidade de formar estoque para dar conta da demanda crescente está sugando caixa da empresa, justamente num momento em que ela também faz investimentos pesados em data centers.
Ao contrário do que acontece nos negócios tradicionais de busca e nuvem, vender chips de IA que disputam espaço com os da Nvidia obriga a Alphabet a desembolsar dinheiro em hardware bem antes de receber o pagamento dos clientes. Ou seja, o fluxo de caixa sofre um aperto real enquanto a produção corre na frente das vendas.
O que está pressionando o caixa da Alphabet
Essa dinâmica foi explicada pelo diretor financeiro Anat Ashkenazi durante a teleconferência de resultados da companhia, realizada na quarta-feira. Segundo ele, o cenário mudou bastante em relação ao passado:
“Enquanto antes os saldos de estoque consistiam principalmente em alguns de nossos produtos de hardware, agora esses sistemas TPU (chips personalizados) que ainda não tiveram vendas líquidas passarão a aparecer. Portanto, vemos o dinheiro saindo… não se trata do tipo tradicional de investimento em ativos fixos, mas sim de um ciclo diferente de geração de fluxo de caixa.”
Na prática, isso significa que boa parte do caixa que sai da empresa hoje está amarrada em chips e sistemas que ainda não geraram receita. É um tipo de investimento diferente do que a Alphabet estava acostumada a fazer, e por isso chama tanta atenção dos analistas de mercado.
Mercado reage mal apesar do crescimento
Apesar de os chips de IA estarem impulsionando o crescimento da empresa, o mercado não gostou nada do que viu. As ações da Alphabet caíam mais de 13% na manhã de quinta-feira (pelo horário de Brasília), depois que a empresa divulgou mais um trimestre de queima de caixa e reiterou que os gastos com infraestrutura de IA vão aumentar bastante no próximo ano.
Essa combinação — caixa derretendo e promessa de mais gastos pela frente — é exatamente o tipo de notícia que deixa investidores de cabelo em pé, especialmente num momento em que o mercado já está nervoso com o custo crescente da corrida da inteligência artificial. Além disso, a receita da Alphabet no trimestre encerrado em 30 de setembro ficou em US$ 127,6 bilhões, um crescimento de 25%, mas um pouco abaixo do que os analistas esperavam.
TPUs ajudam a turbinar o Google Cloud
A Alphabet não abre separadamente quanto fatura ou qual a margem desses chips, batizados de TPUs (unidades de processamento tensorial). Ainda assim, a empresa admite que as vendas desses processadores deram uma contribuição “significativa” para o resultado, já que a receita do Google Cloud mais que dobrou no trimestre encerrado em setembro.
E a expectativa é de que isso só aumente: as vendas de sistemas TPU — que juntam os chips a rede, armazenamento e software — devem crescer ainda mais no trimestre atual e dar um salto significativo em 2027, segundo o chefe do Google Cloud, Thomas Kurian.
Vale lembrar que, no ano passado, a Alphabet já havia fechado acordo para fornecer à Anthropic TPUs no valor de dezenas de bilhões de dólares. Agora, reportagens da mídia indicam que a empresa estaria negociando um pacote parecido com a OpenAI, o que reforça a ideia de que esse mercado de chips próprios tende a crescer ainda mais.
Analistas dividem opiniões sobre o futuro
Apesar da turbulência nas ações, nem todo mundo no mercado está preocupado. Jeremy Saltzberg, diretor sênior de investimentos da Check Capital, minimizou o susto recente:
“Acreditamos plenamente que se trata de oscilações de curto prazo. Não temos motivos para acreditar que as margens seriam significativamente diferentes daquelas obtidas com a venda de uma GPU (unidade de processamento gráfico) da Nvidia. E, é claro, a margem das GPUs da Nvidia é incrível.”
Em resumo, a Alphabet está diante de um dilema clássico de quem aposta alto em um mercado promissor: para colher os frutos da venda de chips de IA mais à frente, precisa primeiro aceitar um período de caixa mais apertado. Resta saber se o mercado vai manter a paciência até que essa aposta comece a se pagar de forma mais visível nos balanços.
Com informações de infomoney.com.br.