A Anthropic divulgou detalhes sobre o sistema de marca d’água que passará a identificar textos produzidos pela inteligência artificial Claude, confirmando praticamente tudo o que já havia sido especulado sobre uma tecnologia semelhante conhecida como MirrorMark. Assim como esse método, a marca d’água da Anthropic não é um elemento visível ou adicionado ao texto, mas sim um padrão de aleatoriedade embutido no próprio processo de geração das palavras.
Diferentemente do que circula entre alguns influenciadores de tecnologia, o sistema não utiliza caracteres Unicode escondidos que poderiam ser copiados e colados para identificação ou remoção. Também não tem relação com o uso de travessões ou com padrões estilísticos comuns em textos gerados por IA, como construções do tipo “não é isso, é aquilo”. A ferramenta não busca indícios estatísticos de que um texto “parece” ter sido escrito por máquina — ela procura, especificamente, um padrão criptográfico definido.
Modelos de linguagem funcionam prevendo a próxima palavra mais provável de uma sequência, mas sempre com um grau de aleatoriedade: nem sempre a opção mais óbvia é escolhida. É justamente essa aleatoriedade que a tecnologia, batizada de SynthID, utiliza para estabelecer um padrão orientado por uma chave secreta combinada com as palavras que antecedem cada escolha. Como essa alteração é sutil, o texto resultante permanece indistinguível de qualquer outro gerado normalmente, e ninguém consegue perceber a marca sem possuir a chave correspondente.
Em comunicado, a Anthropic explicou: “Esse padrão é indetectável para quem lê, mas detectável para quem possui uma chave que o decodifica. Quando a marca d’água está ativa, as escolhas continuam sendo aleatórias, mas a origem dessa aleatoriedade muda. Em vez de um gerador de números aleatórios arbitrário, o sistema usa a chave e as palavras anteriores para determinar qual termo o modelo deve escolher. As palavras que o Claude seleciona continuam sendo aleatórias, mas agora é possível verificar se essa sequência é compatível com as escolhas que o Claude faria caso estivesse utilizando aquela chave.”
Segundo a empresa, essa abordagem é uma versão do SynthID-Text, tecnologia desenvolvida pelo Google DeepMind e publicada em um artigo da revista Nature em 2024. A Anthropic reforça que não se trata do SynthID original, mas de uma adaptação construída sobre os mesmos princípios, que remontam a uma proposta do pesquisador Scott Aaronson em 2022 — todas baseadas na ideia de alterar apenas a fonte da aleatoriedade usada na seleção de palavras.
Uma das perguntas centrais é se essa marca pode ser removida. A resposta da própria Anthropic é sim, principalmente por meio de reescritas completas. Pequenas edições, segundo a empresa, dificilmente eliminam o padrão por completo, mas uma reescrita integral, palavra por palavra, consegue apagá-lo. Nesse cenário extremo, no entanto, a empresa pondera que já seria discutível considerar o texto resultante como “gerado por IA”.
Vale destacar que o SynthID, base da tecnologia da Anthropic, já tem dois anos e o estado da arte avançou desde então. Um exemplo é o próprio MirrorMark, versão mais recente que distribui a marca d’água ao longo de todo o texto, usando o contexto das palavras vizinhas para decidir onde inserir cada fragmento do padrão — o que o torna mais resistente a edições. Enquanto o SynthID original funciona de forma binária, apenas indicando presença ou ausência de marca, o MirrorMark consegue codificar múltiplos bits de informação, utilizando um mecanismo chamado CABS (Context-Anchored Balanced Scheduler) para determinar a distribuição dos padrões no texto.
Não há confirmação de que a Anthropic utiliza exatamente o MirrorMark, mas o exemplo serve de alerta: antes de acreditar cegamente no SynthID como referência única, é importante considerar que já existem versões mais avançadas em 2026.
Entre os principais pontos revelados pela Anthropic estão: os modelos futuros do Claude passarão a gerar textos com marca d’água como parte da adequação ao AI Act europeu; a marca não envolve metadados, caracteres ocultos ou qualquer adição visível ao conteúdo; o sistema não compromete a qualidade do texto nem induz escolhas de palavras incomuns; textos curtos são mais difíceis de identificar, já que a detecção funciona melhor com maior quantidade de palavras; conteúdos factuais, com menos variação possível de vocabulário, enfraquecem o padrão; e edições limitadas a correções gramaticais e de pontuação também reduzem a eficácia da marca, pois restam poucas alterações para sustentar o padrão.
A empresa ainda informou que pretende lançar uma API para detecção da marca d’água, que arquivos de imagem não textuais, como JPG, PNG e SVG, utilizarão metadados no padrão C2PA, e que todo o processo tem impacto praticamente nulo em velocidade e nenhum custo adicional em termos de processamento de tokens.


